Do amargo e hiperrealista riso dos pássaros
Deixei o livro aberto no cadeirão velho que mora, em dias de Inverno, junto à lareira. Está-lhe na natureza morar junto ao fogo. Há gerações.
Por aqui, que já não somos propriamente tão novos como nos é exigido, gostamos de espantalhos.
Por aqui cada um tem a sua colecção particular. Não espantalhos que afastem as aves, gostamos de voos e de quem sabe voar, mas espantalhos que façam rir os pássaros.
E, é sempre a mesma coisa. Inventámos um teatro, uma pantomina e uma dança à volta da página. Com a ajuda de uma interpretação que Coltrane fez de Bach.
Fingimos que renascemos em cada surpresa. E rimos. Como os enlutados que se defendem do que não aceitam.
Deixo-vos aqui a página do livro de Russell Edson, um dos meus americanos favoritos quando acordo vocacionada para o espanto. Para o deslumbre do poder da imaginação. Já lá vão muitos anos.
Faz de conta que passaram e se sentaram no cadeirão velho que, há gerações, memoriza as páginas dos livros ou as que não escritas se evaporam no fogo dos sonhos. Num tempo qualquer.
A loja de antiguidades
Havia um homem que queria comprar um velhote numa loja de antiguidades: quanto custa o velhote?
É demasiada honra, mas devido à minha juventude não estou ainda à venda, sorriu um velho, de trás de uma montra de umbigos antigos.
Quanto custa essa peça de lixo biológico?
Aquilo que para um homem é lixo para outro pode ser um tesouro, sorriu o velho que usava um umbigo na testa como um terceiro olho.
Já tem idade para estar morto, disse o homem, mas ainda é suficientemente jovem para ser espetado num pau, a fazer de espantalho. Diga lá: quanto é que está a pedir pelo velho?
Não é velho suficiente para ser vendido como uma antiguidade autêntica, sorriu o velhote que agora usava o umbigo no lóbulo da orelha.
A propósito, o que é que se passa com esse umbigo?
Ah, isto, ando a ver se descubro qual é o melhor sítio para fazer crescer o meu novo cordão umbilical.
Mas já é demasiado velho para ter um cordão umbilical.
Eu sei, sorriu o velhote, não acha maravilhoso...
(Foi bom encontrar, por acaso e remetido para o fundo da prateleira, Russell Edson em versão bilingue, traduzido para português por Guilherme Mendonça, com o título de O espelho atormentado, das edições OVNI.
Quando o "conheci", uns sábios judeus, donos de uma desordenada livraria de que já falei nesta casa, haviam-no misturado na secção de Gestão e Finança. E...talvez tivesse sido a primeira vez que ouvi o som das gargalhadas dos pássaros. Em mistura com o ruído do silêncio dos espantalhos.Acho eu. )
2 comentários:
Tenho para mim
que os livros sorriem para nós, velhos e novos.
Melancolia: a maior parte deles, discretamente sabe que nunca mais teremos tempo para os reler.
Abç
...e aqueles que, descaradamente, nos chamam. Os sedutores que nos aspiram e raptam para o seu mundo, multiplicando-nos.
É um poder que têm: multiplicar aquilo com que nascemos, tão pouco, quase reduzidos a nada.
Talvez não volte a ler o que há bocado acabei e arrumei na balbúrdia da estante ( não gosto de manter caixas de vida muito arrumadinhas e sem diálogo umas com as outras).
Mas imagino que a personagem principal, uma criada de uma poeta na Londres do séc. XIX, continua a vaguear pelas páginas na decifração dos silêncios,dos amores, dos ódios, no som áspero dos vestidos, castrados, pelas casas.
Sei lá, parece-me que os mais sedutores são os que se continuam para além da nossa leitura de tal forma que se renovam e inventam se, por acaso, pegamos neles e relemos uma ou outra frase.
Enfim,gosto daqueles, de palavras ou imagens, que me levam pela mão sem que eu lhes ordene o destino.
Bjs
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