De como a memória pode caber até nos intervalos das reticências...
ou quase...
Todo este trabalho porque sou uma espécie... de ponto final parágrafo que fecha um longo capítulo.
A seguir virá uma página em branco. Já não vou ter tempo de ler o título quanto mais a prosa que se seguirá. Nem que viva cem anos...
os quadros? Esses ficam! A minha mãe pediu que ficassem comigo até ela fechar os olhos... as curvas que as pessoas arranjam para contornar a morte...como se fosse figura obediente à chamada pelo nome... morte, death, muerte... passed away, enfim...depois escolho os que vou levar para casa.
Vamos primeiro aos caixotes... não, não, a essa mala! Como é que se abre isto?
Olha... é do tio António! Deixou cá ficar tudo quando ficou surdo...de repente.
Não fazia ideia que também se tinha registado em Portugal.
É estranho...não, não é esse, esse era António Augusto de quem já falei no blog, é outro... Antónios eram tantos...até me perco...
este vio-o poucas vezes. Mas era marcante. Inspirava uma certa bonomia. Como todas as pessoas que são discretamente felizes...
nasceu, mas só vinha a Portugal em visita. Sei que viveu em Munique, em Chicago, no Kentuky, em Paris, , em Barcelona , no Brasil, onde se cultivasse com entusiasmo a música geneticamente negra:
jazz, blues e stomp...chamava-lhe assim, era estudioso de stomp...ain´t no doubt about it...
...devia gostar mas para irritar a parente do violoncelo dizia que Liszt, Chopin, Schubert eram para senhoras, para damas sonhadoras no chá das cinco... e... ria-se muito. Ela? Muito composta retirava-se, tocava violoncelo, imaginava o piano nas sonatas a dois e chamava-lhes filhos da puta...
lembro-me sempre dele vestido à anos quarenta. Ombros à Roosevelt, calças largas com partida no diafragma...suspensórios, chapéu incluído, claro. Só o tirava em casa ou na presença de senhoras. Aí podias ver o reflexo do tecto no lustro da calvice, tão polida como uma rigorosa lente de telescópio...sim, como esse (Pablo Casals)
sim, casou novíssimo com uma vienence, amor desenfreado à primeira vista. Andavam sempre os três: ele, a mulher e a sogra, viúva precoce e militante. Para todo o lado..., durante uma vida inteira. Dois pedaços de terra feminina a segurar uma massa de ar musical, deslumbrada.
A velhota esperou por eles. Morreu aos noventa e muitos. Suponho que ainda andarão juntos na eternidade e até depois disso, sei lá...
a mulher era quase em tudo, há muita gente assim: quase alta, quase baixa, quase bonita, quase feia, quase saudável, quase doente, quase viva, quase morta e... quase cantora lírica.
Uma soprano que se refugiava do si bemól. Disso lembro-me, dele dizer que ela se refugiava do si bemól. Uma espécie de fronteira. Imagina o drama:ela a aquecer a voz, a iniciar o lied e, de repente...o si bémol e ela a retirar-se, com o pianista suspenso em pena e espanto...
...era muito branca, quase transparente. Lívida. Diáfana. Muito estética Pré- Rafaelita. Se não fosse pragmática podia ser romântica, pois podia...
o que era cirurgião apelidava-a de Angiografia Ambulatória,
o meu pai chamava-a de Glicerina, a minha tia mais morena de Carne Mal Passada, e, quando me deram um coelho albino, a primeira coisa que a minha avó disse foi ai que Deus me perdoe mas é mesmo a figura chapada da austríaca!
...não, não havia zangas, era uma mania que tinham, essa das alcunhas...
olha a tesoura da poda... esta toquei-a... e o ralador de cenoura mais a colher... não tive outro remédio... e o tambor de lata da manteiga de amendoim...com o algodão...
bom, um dia ele começou a explicar a forma como os negros escravos faziam a música, como inventavam instrumentos , as tonalidades... e ,com ele a tocar gaita de beiços também ferrugenta e a dirigir , o António Augusto, o Padre do Altar de Baixo, o meu pai e mais não sei quem, começaram a tocar...
chamaram-me para marcar o ritmo com a tesoura da poda e ... lá fiquei eu, aborrecidíssima e a pensar, se calhar, no Cat Stevens
ou no Jim Morrison que eram mais bonitos que eles todos, a abrir e a fechar a dita e nem te passa pela cabeça o que se pode fazer com um ralador e uma colher... lá razão tinha ele..
...o meu pai ficou com uma espécie de, sei lá, clarinete de cana de açucar...flauta não, parecido com clarinete rachado...
foi uma sorte a minha cadela estar a dormir... ainda a requisitavam para ladrar o compasso. Maluca eu? Capazes disso eram eles e se aparecesse o si bémol nem o gato escapava, ele que não se refugiava a nota nenhuma nos miados...
essas pautas
e os instrumentos...1800 e quanto?...
bem podiam ser emprestados ao Jordi Savall para o estudo que anda a fazer*... e essas bóbines...ele gravava tudo...e guardava tudo como um tesouro com histórias dentro
...mas olha que ainda tenho aquelas músicas na cabeça... ...nunca me esqueci e lembro-me de pensar como aquilo se dançaria, como se transformava em corpo. Quem me havia de dizer...
e depois tocou aquela que a Ute Lemper canta muito. Reconheci-a logo quando a ouvi pela Marlene Dietrich. Sabes qual é? Quando vir o cd, lembro-me do nome... tenho-o debaixo da língua...aquela...
...o Tio António dizia que era uma espécie de hino nos cabarets intelectuais de Munique,
a última cidade alemã, a resistir à febre da lavagem moral nazi...onde até se tocava Mozart por oposição à onda de Wagner e Beethoven (coitados, o que lhes havia de calhar em sorte) que Hitler tinha metido na cabeça serem o expoente da raça...tanto que até dava instruções aos maestros como interpretar de forma a sair coisa heróica e guerreira...
a última a expulsar as bandas de jazz, a música degenerada que levava pretos, brancos, amarelos às pintas ao apetite sexual animal...
o Tio António nunca conseguiu encontrar um tal George que era one man show... pois, músicos pretos, donos judeus, travestis,
ai a Carmen Amaya também? Então mais uma cigana para compor o ramalhete e sujar o solo ariano...
uma vez contou que os músicos de um desses cabarés começaram a tocar e a cantar o Kyrie da Missa em C Menor do Mozart, com instrumentos de jazz, com voz de blues e...e...começou a chorar. Não sei se era memória liquida se um orgulho concentrado que não aguentou a barragem do silêncio da dor...não sei...bom...coño!
o que é que vou fazer? Não sei... depois penso nisso...tanta coisa...tanta responsabilidade...
o resto fica para depois...antes que a Perúa Esquizofrénica...então, quem sai aos seus não degenera...
varra a História e mate a madeira que já não se usa, credo, para fazer nascer um reluzentinho alumínio...aquele que imita bem e é fácil de manter...sem ferrugem nem caruncho nem Tempo...
desce para eu fechar a luz...
...cuidado com o terceiro degrau... sempre foi traiçoeiro...
sabes que eles não usavam óculos
porque isso de miopias e assim era coisa de gente com defeito de fabrico,
de judeu enfezado e rato de biblioteca...fecharam os oculistas, quase todos de judeus...cuidado... e depois...como é que é possível...
*isto porque o infatigável Jordi Savall anda a fazer um estudo, cuja primeira fase já produziu espectáculo maravilha, sobre a interinfluência que se produzia nos barcos, entre a música europeia e a praticada pelos escravos negros oriundos principalmente de África. Desta mistura, mas em dança, já falei...sei lá onde...





















































