Não, não é nada. Levanto-me já!
Não Minha Senhora, não é preciso chamar o 112 nem ligar para nenhuma linha de apoio à vítima. Não se incomode. Muito obrigada.
É que, sabe, não fui habituada a papéis, a dizer faz todo o sentido com ar grave e a toda a hora, nem a escrever competências, valências o que para mim, que sou disléxica, é um drama.
Ai Minha Senhora, sei lá se se escreve com ^ ou com ~ ou se com coisa nenhuma (sou lá eu algum dicionário espremido). E os critérios de normalidade, critérios de satisfação e critérios de superação?
A vida muito arrumadinha em grades exelianas, num papel branco, timbrado e com selo que aqui, veja lá, se parte sempre do princípio que toda a gente engana antes de já estar farta de ser enganada.

Mas, dizia eu que, ainda não haverá muito tempo, o meu Mestre, que é assim que eu chamava ao chefe por já ter o dom de se rir de tudo,

mais uns quantos, cá nos ajeitávamos, cada um a fazer o que tinha de fazer, encantados da vida, empurra hora daqui, encolhe-a dali, sem mendigar feriados e pontes como agora fazemos.
Mas deu-se, minha senhora, um estranho fenómeno nunca visto nem na Mancha espanhola nem no Entroncamento português: sentimos uma ligeira pressão nas portas que se propagava em ondas ao nosso cérebro, perturbando-lhe a paz do trabalho.
Vou-lhe explicar:
verificámos corresponder tal pressão, a resmas de papeis sedentos de escrita com palavras e expressões que nós não conhecíamos nem nunca tínhamos ouvido falar.

Instalaram-se eles, os papéis, aqui no sítio onde estou. Acredite ou não, começaram a reproduzir-se entre si e em regime de hermafroditismo como só conhecia nos caracóis.
Minha senhora, imagine a avalanche branca, dirigida por umas quantas canetas voadoras e umas quantas teclas esquizofrénicas mail-listicas a que acresce um comportamento maníaco compulsivo, ao som de uma voz de comando correspondente a um deus que eu nunca vi, nem me viu a mim, a menos que seja omnipresente e omnisciente como aquele mais antigo de que sempre ouvimos falar e que acreditando nele, ou não, imaginamos.

Viu os Pássaros de Alfred Hitchcock, viu? Tal e qual, mas em folhas.
Minha Senhora, antes que os papeis me travassem os movimentos das pernas e dos braços e me invadissem a cavidade oral, porque não sei se já lhe disse que têm micro ventosas com super cola três, corri ao Mestre que, quanto mais velho fica mais gargalhadas dá e é conhecido por já ter privado com muitos deuses e contei-lhe da invasão.
Estava calmo apesar de ter centenas de folhas a choverem do tecto.
Ele cruzou as mãos atrás, lá para as bandas da nuca e disse que já não tinha idade para se satisfazer, nem superar, nem para suspirar por feriados nacionais ou municipais e que tinha pegado num papel anti corpo chamado reforma e que o tinha mandado para o ar à espera que fosse aterrar na secretária de deus nacional, porque ao contrário dos outros, muitos estrangeiros, este novo deus nem sabe, sequer que ele existe.
Apesar das preces.
Superem-se agora vocês!
Disse o Mestre.
Depois o Mestre falou como um tribuno travestido de filosofo com laivos de apóstolo.
Começou por citar Tomasi de Lampedusa , ou... teria sido Monsieur de La Palice?
É preciso mudar para que tudo fique na mesma.
Porque é sempre mais superado o que mostra ser do que aquele que é.

Aconselhou a evidência: vale mais correr, limpar a testa e exibir suspiros dramáticos e nada fazer que muito trabalhar com afinco e discrição.
E mais disse o Sábio, Minha Senhora:
que palavras simples não chegam aos céus. Com qualquer gestão de competências na micro estrutura organizacional tendo como objectivo a maior rentabilidade inter departamental numa contextualização macro económica, qualquer janela se abre para o universo destes novos deuses.
Porque o Mestre disse, ainda, que é preciso escrever bem ainda que ninguém perceba o que está escrito.
Como sempre, quando constata factos, limpou os óculos à fralda da camisa de riscas ou quadrados. Sem gravata. Nem botões de punho.
Quando voltei aqui, os filhos dos papeis eram agora pais de outros mais novos e destes mais novos já tinham nascido outros mais novos ainda, parecendo-me estes já, por sua vez, completamente grávidos.

E saiba que, se anteriormente, ao pedido de esmola de dias entre os feriados, bastava a atenção única do Mestre, expressa em rabisco rápido debaixo de um simples autorizado, sem inconveniente de serviço, são agora precisas as benevolências de sete intermediários do tal deus que nunca ninguém viu.
Ai Minha Senhora, foi aí que tombei no chão e assim me encontrou:
imagine que um desses papeis, bailando gozão à minha frente, porque se na minha atabalhoada letra manuscrita se lia distintamente 3 dias de ...érias, não se deu por entendida a letra inicial, e portanto não podia o emérito intermediário passar ao seguinte o que não estava claro. Sob pena de também ele não satisfazer ou superar.
Está certo, Minha Senhora, que sou dada ao disparate, ao absurdo,

mas juro, por qualquer deus antigo, exista ele ou não, que nunca me passou pela cabeça, pedir três dias de Lérias entre feriados, por exemplo. O F inicial, sempre me esteve no espírito. É, hoje em dia, letra recorrente no meu pensamento.
Pronto Minha Senhora, olhando para estes meus objectivos pessoais inseridos na produtividade da estrutura de rentabilização do oxigénio, ainda tenho a margem de três suspiros fundos como limite máximo de libertação de dióxido de carbono.
Vai-me custar o nível de superação, de excelência, já que ainda ontem os meus pulmões desordeiros e individualistas, se lembraram de chegar às quatro emissões profundas e dez superficiais.
E, o que é mais grave, é que me esqueci de as anotar na folha de serviço inventada por deus e onde se distinguem os conteúdos funcionais entre o acto de suspirar e o acto de respirar fundo. Como é que apresento agora a estatística pormenorizada dos meus actos respiratórios?
Um funcionário excelente não respira. Um bom respira uma vez por dia e nunca durante as horas extraórdinárias. Um suficiente não contém três ais. Um mau hiperventila porque, se calhar, até fuma.
E, como também vou ter que avaliar a formiga que está abaixo de mim na hierarquia, ando num dilema angustiante: em que categoria entrará o bocejo?

Deus considerar-me-á apenas num nível satisfatório, mas enfim… ninguém é perfeito…e ainda não tenho idade nem sabedoria para me rir de tudo como o Mestre mas também não sou assim tão nova que sorria a um qualquer deus avulso sem ter prova da sua divindade.
Fico à espera que me entre porta dentro uma outra folha de papel, desta vez benigna, de F já considerado entendível, que me permita, para a semana, rolar estrada fora e estrada dentro, imaginando que vou sentada numa mota de cowboy, livre, no saboreio do vento

enquanto, agora, vou ouvindo música que faz todo o sentido nestas árduas circunstâncias invasivas.

Boa tarde, Minha Senhora, e muito obrigada pela sua gentileza…
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E, já agora, deixo a nossa triste figura, quando às 14h e 52m, soubemos, embora não oficialmente por falta de selo branco, que nos eram concedidos, os tais três dias de férias.
