quarta-feira, 17 de junho de 2009

Segue este por ter estado a ouvir conversa estapafúrdia e baralhada de quem vive de olhos fechados às artes, culturas e sentimentos inerentes, ficando assim sentadinho em cima de mitos que tiram, NESTE TEMPO, beleza aberta ao fruir da vida.

Não sei como a conversa começou mas estavam duas damas e um cavalheiro indignadíssimos com a descoberta que o filho de não sei quem, adolescente ainda no início, andava com intenções de ser bailarino e, ainda mais grave, se punha a inventar movimentos a pensar num colega da escola, mais velho, com quem nem sequer tinha trato. O cavalheiro alvitrou râguebi antes que a larva se
tornasse
“borboleta”, uma dama confirmou com um redondo “o mais possível”, a outra assou-se e eu reprimi a veneta de lhes enfeitar a cara, em gesto repentino, com a torrada de pão de Mafra.

Já nem sequer vou falar de “borboletas”, que quem usa tal nome para classificar bailarinos do sexo masculino, dancem dança ou não, e desculpem-me a provável altivez, não merece prosa.

Passo então à

Teoria geral mínima dos sussurros imaginados



Para os gregos só haviam nove musas, todas irmãs entre si, filhas dos amores entre Zeus e Mnemosine. Só sei o nome de uma, e a custo, que Terpsicore, a que ficou com o pelouro da dança, não é nome que me seja fácil.

Quando foi inventada, mal sabia ela que iria ter muita importância no principio do séc. XX. Mas isso pertence a outra história.

Não sei quais os métodos que usavam para proteger e inspirar os artistas.




Só sei que as personagens paralelas inglesas, são fadas disfarçadas de mulheres (Elizabeth I estendeu tal disfarce também aos homens), que entram nos sonhos dos criadores enquanto estes estão a dormir e que, uma vez acordados, lhes dizem ou mostram o que por aquele mundo escondido viram.

Têm o dom de quebrar as faltas de imaginação chamadas bloqueios.




Só quem consegue “ouvir” a sua fada, perceber-lhe a linguagem, tem dotes para ser artista.

Para algumas tribos índias da América do Norte, é Musa, a rapariga ou o rapaz, que, pela extrema ligação à Mãe Terra, tem sensibilidade para revelar aos simples distraídos, os pequeninos, ínfimos pormenores em que se deve reparar, para tornar a vida mais feliz. Fazem-no através de gestos e expressões aparentados com dança.

(Como curiosidade, sempre vos digo que são criaturas nascidas surdas-mudas.)

À sua maneira, esteticamente diferente da nossa, ligam a beleza e a arte à felicidade.

Por experiência própria e alheia, acredito mais nestes dois últimos grupos do que nas nove irmãs gregas. Sem ofensa.

Na correnteza da opinião comum ocidental, só existem Musas e nunca Musos. A arte, durante séculos e para algumas damas e cavalheiros, ainda hoje, é exclusiva do poder intelectual masculino. Assim como se liga Musa ao interesse sexual.

Átomos de Freud se volatilizaram para o passado e para o futuro na visão da coisa.


Na realidade, exceptuando casos em que o poder de alimento espiritual se aliou à paixão física, como em Andrea del Sarto ( que ao longo de toda a obra não utilizou outra musa que não fosse a sua mulher Lucrezia)



ou Rubens, Bach, Mahler,Liszt, mais influência tiveram, e têm, as moléculas de Platão.
Miguel Ângelo, Caravaggio, (para além da moda renascentista de qualquer ser, artista ou não, suspirar, em sociedade pública, pela sua musa ou muso), Oscar Wilde, todos eles homossexuais, tiveram em algumas mulheres grandes Musas. Como as têm tido grandes estilistas.

E, já agora, Henry James, Edith Warthon ou Kate Chopin, estes todos heterossexuais, contemplaram, como motor de obra, pessoas do mesmo sexo.

Talvez o caso mais flagrante seja o de Martha Graham: grande devoradora sexual do sexo oposto, confessou a sua paixão por algumas bailarinas inspiradoras. Coreografou a partir delas e para elas.

Maurice Bejart, foi coleccionando musa e musos, na minha opinião, sempre com bom gosto.



Foram assexuadas as inspirações e motes lançados por Lizzie Siddal (a tal rainha do desmaio conveniente e delambido, dos pré rafaelitas),


por Alma Mahler, por Marlene Dietrich, por Greta Garbo e, imagine-se,até por Sharon Stone, a do instincto temperado com sangue frio. São arquétipos de imagem e personalidade idealizada.


Deixando os exemplos, que são tantos e intemporais, volto à experiência própria e alheia próxima em diversas áreas e de forma espremida e resumida .

As Musas, ou Musos, nascem do nada. Tal como acontece nas outras paixões, não se procuram: encontram-se.

Não têm a carga afectiva do compromisso amoroso, embora muitas vezes, e por sorte, se juntem os dois destinos como já disse.

Aí, criar inspirado e para, é um acto de amor inteiro.

Mas em geral, e na realidade, são os criadores que lhes atribuem os dotes, que lhes inventam aquilo que precisam. São uma espécie de ferramentas de estimulo. Têm a riqueza da síntese.



Olham-se os gestos, o olhar, a forma de dizer palavras, o conteúdo do que dizem, a forma como se movem na rua, no restaurante…por aí fora e tornam-se a materialização de uma fonte de ideias.

Algumas, imaginam-se mais do que realmente são porque nunca se chega à fala, ou entendimento empático, com elas. Funcionam como modelos absolutamente abstractos. Muitas e muitos são-o sem nunca suspeitarem que o foram.



Outras são pontas de fios que se vão desenrolando. Existe o fascínio pela grandeza que se vai descobrindo. Preenchem o que faltava escrever, desenhar, ouvir, dançar.

Nada impede que coexistam num harém sem regras nem hierarquias. Se algumas são descartáveis, outras acompanham as obras até ao fim. Ficam na memória como uma doce lembrança. Com a ternura de um agradecimento.




Muitas vezes é secreto o palco onde se movem. Mexer-lhes,analisar, pode tirar-lhes o encanto e a magia.



Podem haver acordos tácitos onde nunca se pergunta, por maior que seja a confiança, o que vês nele ou nela. É coisa do foro intimo das obras. Pequenos tesouros encantados cheios de segredos que as fadas nos contam ao ouvido.



Mas enfim, não valia a pena perder palavras a explicar que, se calhar, também as borboletas escolhem um canto da paisagem onde vão roubar a cor.


E a torrada estava óptima.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Da contemporaneidade produtiva

das Folhas

hermafroditas



Não, não é nada. Levanto-me já!

Não Minha Senhora, não é preciso chamar o 112 nem ligar para nenhuma linha de apoio à vítima. Não se incomode. Muito obrigada.
É que, sabe, não fui habituada a papéis, a dizer faz todo o sentido com ar grave e a toda a hora, nem a escrever competências, valências o que para mim, que sou disléxica, é um drama.

Ai Minha Senhora, sei lá se se escreve com ^ ou com ~ ou se com coisa nenhuma (sou lá eu algum dicionário espremido). E os critérios de normalidade, critérios de satisfação e critérios de superação?

A vida muito arrumadinha em grades exelianas, num papel branco, timbrado e com selo que aqui, veja lá, se parte sempre do princípio que toda a gente engana antes de já estar farta de ser enganada.



Mas, dizia eu que, ainda não haverá muito tempo, o meu Mestre, que é assim que eu chamava ao chefe por já ter o dom de se rir de tudo,

mais uns quantos, cá nos ajeitávamos, cada um a fazer o que tinha de fazer, encantados da vida, empurra hora daqui, encolhe-a dali, sem mendigar feriados e pontes como agora fazemos.

Mas deu-se, minha senhora, um estranho fenómeno nunca visto nem na Mancha espanhola nem no Entroncamento português: sentimos uma ligeira pressão nas portas que se propagava em ondas ao nosso cérebro, perturbando-lhe a paz do trabalho.
Vou-lhe explicar:

verificámos corresponder tal pressão, a resmas de papeis sedentos de escrita com palavras e expressões que nós não conhecíamos nem nunca tínhamos ouvido falar.

Instalaram-se eles, os papéis, aqui no sítio onde estou. Acredite ou não, começaram a reproduzir-se entre si e em regime de hermafroditismo como só conhecia nos caracóis.

Minha senhora, imagine a avalanche branca, dirigida por umas quantas canetas voadoras e umas quantas teclas esquizofrénicas mail-listicas a que acresce um comportamento maníaco compulsivo, ao som de uma voz de comando correspondente a um deus que eu nunca vi, nem me viu a mim, a menos que seja omnipresente e omnisciente como aquele mais antigo de que sempre ouvimos falar e que acreditando nele, ou não, imaginamos.


Viu os Pássaros de Alfred Hitchcock, viu? Tal e qual, mas em folhas.

Minha Senhora, antes que os papeis me travassem os movimentos das pernas e dos braços e me invadissem a cavidade oral, porque não sei se já lhe disse que têm micro ventosas com super cola três, corri ao Mestre que, quanto mais velho fica mais gargalhadas dá e é conhecido por já ter privado com muitos deuses e contei-lhe da invasão.

Estava calmo apesar de ter centenas de folhas a choverem do tecto.

Ele cruzou as mãos atrás, lá para as bandas da nuca e disse que já não tinha idade para se satisfazer, nem superar, nem para suspirar por feriados nacionais ou municipais e que tinha pegado num papel anti corpo chamado reforma e que o tinha mandado para o ar à espera que fosse aterrar na secretária de deus nacional, porque ao contrário dos outros, muitos estrangeiros, este novo deus nem sabe, sequer que ele existe.

Apesar das preces.
Superem-se agora vocês!
Disse o Mestre.


Depois o Mestre falou como um tribuno travestido de filosofo com laivos de apóstolo.

Começou por citar Tomasi de Lampedusa , ou... teria sido Monsieur de La Palice?
É preciso mudar para que tudo fique na mesma.

Porque é sempre mais superado o que mostra ser do que aquele que é.



Aconselhou a evidência: vale mais correr, limpar a testa e exibir suspiros dramáticos e nada fazer que muito trabalhar com afinco e discrição.

E mais disse o Sábio, Minha Senhora:

que palavras simples não chegam aos céus. Com qualquer gestão de competências na micro estrutura organizacional tendo como objectivo a maior rentabilidade inter departamental numa contextualização macro económica, qualquer janela se abre para o universo destes novos deuses.

Porque o Mestre disse, ainda, que é preciso escrever bem ainda que ninguém perceba o que está escrito.

Como sempre, quando constata factos, limpou os óculos à fralda da camisa de riscas ou quadrados. Sem gravata. Nem botões de punho.

Quando voltei aqui, os filhos dos papeis eram agora pais de outros mais novos e destes mais novos já tinham nascido outros mais novos ainda, parecendo-me estes já, por sua vez, completamente grávidos.



E saiba que, se anteriormente, ao pedido de esmola de dias entre os feriados, bastava a atenção única do Mestre, expressa em rabisco rápido debaixo de um simples autorizado, sem inconveniente de serviço, são agora precisas as benevolências de sete intermediários do tal deus que nunca ninguém viu.

Ai Minha Senhora, foi aí que tombei no chão e assim me encontrou:

imagine que um desses papeis, bailando gozão à minha frente, porque se na minha atabalhoada letra manuscrita se lia distintamente 3 dias de ...érias, não se deu por entendida a letra inicial, e portanto não podia o emérito intermediário passar ao seguinte o que não estava claro. Sob pena de também ele não satisfazer ou superar.

Está certo, Minha Senhora, que sou dada ao disparate, ao absurdo,


mas juro, por qualquer deus antigo, exista ele ou não, que nunca me passou pela cabeça, pedir três dias de Lérias entre feriados, por exemplo. O F inicial, sempre me esteve no espírito. É, hoje em dia, letra recorrente no meu pensamento.

Pronto Minha Senhora, olhando para estes meus objectivos pessoais inseridos na produtividade da estrutura de rentabilização do oxigénio, ainda tenho a margem de três suspiros fundos como limite máximo de libertação de dióxido de carbono.

Vai-me custar o nível de superação, de excelência, já que ainda ontem os meus pulmões desordeiros e individualistas, se lembraram de chegar às quatro emissões profundas e dez superficiais.

E, o que é mais grave, é que me esqueci de as anotar na folha de serviço inventada por deus e onde se distinguem os conteúdos funcionais entre o acto de suspirar e o acto de respirar fundo. Como é que apresento agora a estatística pormenorizada dos meus actos respiratórios?

Um funcionário excelente não respira. Um bom respira uma vez por dia e nunca durante as horas extraórdinárias. Um suficiente não contém três ais. Um mau hiperventila porque, se calhar, até fuma.

E, como também vou ter que avaliar a formiga que está abaixo de mim na hierarquia, ando num dilema angustiante: em que categoria entrará o bocejo?

Deus considerar-me-á apenas num nível satisfatório, mas enfim… ninguém é perfeito…e ainda não tenho idade nem sabedoria para me rir de tudo como o Mestre mas também não sou assim tão nova que sorria a um qualquer deus avulso sem ter prova da sua divindade.


Fico à espera que me entre porta dentro uma outra folha de papel, desta vez benigna, de F já considerado entendível, que me permita, para a semana, rolar estrada fora e estrada dentro, imaginando que vou sentada numa mota de cowboy, livre, no saboreio do vento



enquanto, agora, vou ouvindo música que faz todo o sentido nestas árduas circunstâncias invasivas.

Boa tarde, Minha Senhora, e muito obrigada pela sua gentileza…

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E, já agora, deixo a nossa triste figura, quando às 14h e 52m, soubemos, embora não oficialmente por falta de selo branco, que nos eram concedidos, os tais três dias de férias.


quarta-feira, 27 de maio de 2009

Segue este como explicação desenvolvida da razão porque acho que a Zelda Sayre Fitzgerald, falada no anterior, ficaria melhor no Texas que em Filadélfia , ao contrário da opinião da Frioleiras.

Pradaria fatal


directed by

Lizzie M Girl

produced by

Memory Studios



Não sei como se mede o barulho do silêncio
Talvez em mais nenhum sítio tenha visto tantos gritos como no Texas.

É disso que me lembro, a imagem que ficou: gritos disparados em desesperos. E com silenciador a ocultar o estardalaço do crime.


E uns a correr para o que nunca foram, outros a trote para o que nunca tiveram.

Conheci um cowboy muito rico, com a riqueza que parece só haver ali.


Além das empresas industriais, tinha duas universidades, uma orquestra sinfónica, uma companhia de dança. Mandou construir um teatro, que não queria arte arrendada com ensaio emprestado. Ouvimo-lo dizer que gostava de tudo completo.

Não disse, mas soubemos, que tinha uma espécie de polícia privada.

Alguns agentes estavam encarregues de ir buscar uma das filhas, quando fugia em busca de amores urgentes, desvairados e cegos ao afecto, aos móteis gasolineiros.

Ali se juntava às outras mulheres de risos estridentes, baton para além da moldura dos lábios, na esperança que surgisse do nada o homem televisivo e salvador face à história, às vezes de aparência longa, dos prantos.




O homem que lhes amparasse a cintura nas danças lânguidas, e fora de ritmo, ao som de juke-box e não se importasse com o preenchimento das rugas com creme Pond´s.


Também a iam buscar às minas, cheias de homens desdenhosos, mas tementes, pela leviandade rica da filha do patrão.

Outros agentes, iam atrás de um dos filhos, tradicionalmente Marlboro macho activo, fã de medir bravura com os marinheiros ancorados em S. Francisco.


Já tinha passado a época dos acampamentos hippies em formato peace and love milionário.

Outros acompanhavam a mulher a Paris. À L´Opera. Ao Metropolitan de Nova Iorque, ao Scala


aos desfiles exclusivos de Monte Carlo. Aos leilões da Sotheby´s em Londres. Às conversas privadas em apartamentos montados a rapazes garbosos, devidamente catalogados, elixires da juventude, pensos rápidos para os arranhões, não fosse a solidão infectar.

Talvez ficasse purulenta quando, depois de discussões alimentadas pela tequilla, ia dançar nos versáteis e ancestrais celeiros texanos



Confessou-nos ela, em girls talking.

Conjuntamente com a sua idade real. É mais fácil falar com quem iria partir já amanhã. Já iam longe os tempos em que era morena, eleita Miss Austin, graças à beleza e à exuberância dos seus relevos anatomicamente tão femininos. Verficámos, de várias maneiras, tratar-se duma obsessão texana.




Se o marido, the fucking guy, lhe expunha a passagem do tempo através das amantes, modelos barbies, ela bebia e dançava em celeiros, fora um ou outro Dior ou Balenciaga, atirados para o cloro da piscina. Adorava poesia simbolista. Palavras dela.

A outra, amiga de longa data, tão loira, alta e igualmente insuflada nos atributos físicos, tinha incendiado o presente das bodas de prata, um mero Rolls Royce, enquanto declamava Walt Whitman. Ou Sylvia Plath. Já não me lembro qual o citado. Mas era grande.
Só se chora durante os dois primeiros anos de casamento. Girl, a infelicidade é uma questão de hábito. Ou de preço, pensámos nós, girls armadas ao pragmático hiper realista.



Mas o cowboy sénior usava um fato Versage, com um chapéu permanente da classe e uma botas de picareta, que dariam para a prospecção de petróleo, cheias de adereços dourados.


Para que precisaria de esporas se andava de carro longo na devida proporção das estradas do território? De avião privado. De helicóptero.

Em fase de cumprimentos, era de tal aperto de mão, que imaginei a minha pendurada na parede como troféu de hospitalidade. E logo a direita, que me faz tanta falta.

O homem deu uma festa em casa. De agradecimento pelo espectáculo que tinha pago.


Morava a duzentos km de Dallas, no meio de um reino de sol. Como se ali o astro fosse exclusivo e tivesse deixado todo o resto da Terra às escuras.

De qualquer forma, aquilo pareceu-nos logo cenário de ficção.

Deparamo-nos com Picassos, Renoirs, Pissaros a acompanhar outros de ampla tradição texana,

espalhados pela sala principal. E os retratos de família, a lembrar o orgulho de vencer na terra das oportunidades.

Nós, os assalariados vindos do norte, especulámos, inspirados pelo demónio, atrás de qual estaria o tradicional cofre.

Como em qualquer outro sítio naquele Estado, nem o Picassiano período azul, escapava ao cheiro da carne grelhada e frita, das maçarocas de milho assadas com manteiga. Nem uma sardinha, uma garoupa, um cherne, um tamboril, um camarão tigre.


Não se via criadagem negra, vestida de preto com um engomado avental branco a condizer com a gola. Do Texas, fugiram todos para as lands de cima ao som do chicote dos vencedores.



Ali, os subalternos falavam vários castelhanos, uns de Castela mais clara, outros de Castela mais escura.

Nós, tão novinhos e esbugalhados, não conseguimos perceber porque coño os mais velhos, como o cowboy, tratavam com tanto respeito e educação a empregadagem in the family, enquanto os novos pareciam esmagar baratas acessórias com brutalidade nas palavras e nos gestos.

Haveríamos de perceber, um bocadinho, quando chegámos à crise de 2008. Uns anos mais tarde.
O homem tinha, debaixo do chapéu, um ar triste, como tantos ares tristes, sem pudor, haveríamos de ver pelos caminhos. À beira das estradas, muitas palavras exteriores tinham morrido.


Os olhos fugiam-lhe para lá do horizonte. Como se alguém, de lá gritasse por ele. À medida que ia bebendo, bebendo, bebendo, mais se lhe sentia a fuga frustrada.



Fez discurso solene de agradecimento. O poder parou a algazarra.

Com piadas sem graça e graça sem piada. Esperava que a rude América nos estivesse a tratar bem, a nós os magestáticos e refinados europeus.

Talvez alguns de nós ficasse por lá. Mas nós, as raparigas, não casassemos com nenhum texano. Já, sei lá quem, tinha dito que eram a prova que os extraterrestes habitam a Terra. Blá, blá,blá.

Ninguém dormiu com o alarido daquele alvoroço: gritos de mulheres, berros de homens, crazy bitch, bastard, son of a gun.

De madrugada, os empregados limpavam destroços de copos, recolhiam sapatos e chapéus da piscina. Uma dama dormia, desalinhada, numa cadeira. De um pavilhão chegavam umas notas reconhecidas de Chopin. La Señora gostava de tocar piano à primeira claridade do dia . Antes de se deitar.

E, por alguma razão, quando fechámos, já no ar, os olhos, vimos numa tela preta, o desfilar de nomes encimado por um personagens e interpretes, ou cast in order of apearence.

E até o sol se foi tornando mais discreto. No nosso caminho para o norte.


(Vamos até ao celeiro, esperemos que por mais de trinta segundos.)








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