terça-feira, 20 de maio de 2008

Crónica da ilha sem bandeira





Pois, meus amigos, é chegada a época em que um sentimento em mim latente se transforma em paisagem bem visível, entre o aterrador e o indiferente.

Estando eu sentada no meio e em frente de várias pessoas, logo me senti ilha sem raiz que a prenda a terra fixa.







Falava-se, com entusiasmo e anestesia face às dores dos assuntos do mundo, da selecção nacional de futebol. Investia-se como se de vida ou morte da nacionalidade se tratasse, naqueles guerreiros, de alma colectiva feita, dispostos a defender os valores pátrios contra os bárbaros.

Primeiro: não gosto de futebol nem, e sobretudo, dos arredores dele. Parecem-me os actores figuras boçais, representantes, conjuntamente com o toureio, de valores que o avanço da civilização se esforça por varrer para o caixote da memória.






Tal impressão sublinhou-se ao ver uma entrevista de uma alta personalidade do meio, que, palavras filtradas pelo másculo bigode, afirmava não ser tal desporto compatível com mulheres, à excepção de prostitutas, presumo, nem com ambientes gays, esquecendo-se de referir os cães, os gatos e o Figo, embaixador digno da lusa pátria além de modelo da roupa desenhada por um dos mais assumidos maricóns estilistas espanhóis.

Segundo: percebo, de forma dorida e como quase todas as pessoas de ascendência misturada ou ligadas às ciências e às artes , que não tenho sentido de pertença exclusiva e cega a um país e que o meu mapa tem fronteiras desfocadas. Infeliz de mim que nem posso dizer que a minha pátria seja a língua portuguesa. Nos meus pensamentos há rodopio de palavras emigrantes e imigrantes consoante as emoções que correm à flor da pele.

O meu país fala a língua daqueles que convidei e se sentaram nas salas do meu coração, decorado de paisagens de muitas cores, movimentos e formas de estar.





Quando se parte nunca se regressa completamente.





O preço da descoberta e da comparação implica que da mesma forma que muito se leva, muito se perde e muito se ganha. Se é bom ou mau saldo, a contabilidade do futuro lá irá dizendo. Balanço nunca isento de laivos de nostalgia e de racionalidade. Espero eu.

Tal como os outros, tantos, nunca abdiquei do portuguese born, em vez do proposto e mais comercial e sonante, spanish. É a nossa forma de marcar golos em território estrangeiro.

Modesta a minha, comparada com muitos goleadores cá dentro e por esse mundo fora nas mais diversas áreas.Figuras a merecerem bandeira na janela, se se lhes fosse dado a conhecer por cá o nome, muitas vezes feminino.





Pessoas a quem soa mal a linguagem de compra e venda por clubes, companhias, empresas ou universidades. A moeda em que pensam é, normalmente, a do trabalho, do estudo,do mérito, da luta.




Salvo excepções de prémio Nobel ou neurologia, nunca ouvi que se gritasse por eles golo dentro ou fora do lusitano estádio.

Por tudo isto, não tenho outro remédio se não sentar-me e esperar não ver numa pequena caixa de jornal ou em rodapé na televisão,

que os impostos aumentaram,
que os combustíveis subiram pela quinquagésima vez,
que mais alunos ( muitos ensinados pelos pais) bateram, ou ameaçaram, em professores,
que há mais gente na fila da sopa dos pobres,




que foram traficadas e abusadas mais mulheres e crianças,
que a minha colega de cinquenta e cinco anos , já quase paralisada das pernas, ainda não conseguiu a reforma porque não cumpriu os sessenta e cinco,





que voltou a cair mais património histórico,
que mais árvores arderam para tornar o solo fértil em betão,
que uma cientista genial foi definitivamente e a convite com a equipa para Munique porque o Estado a tinha burocraticamente há dois anos no banco dos suplentes,
que continuam a ser abandonados velhos nas urgências e animais nas estradas,
que foi decidido que os bailarinos podem dançar aos sessenta como quando tinham vinte, já que ao contrário dos futebolistas, não têm desgaste rápido,





que um senhor importante decidiu o que os criadores devem criar consoante o que ele entende democrática e ecléticamente ( olhando para os seus próprios gostos) que deve ser criado,

e que, enfim, anda um rectângulo perdido no meio de um oceano sem geografia em forma de mancha aleatória e esquecida.




Se algum dia vir um país encontrado pelo correr da História, com a dignidade que o seu nome e património merecem, então talvez também dê um pulo no sofá e grite golo.
Até lá, eu que sou por natureza optimista, recolho-me à distãncia





e limito-me a guardar a bandeira dentro do baú da esperança, louvando todos os jogadores sem nome estrelar.

Sinceramente, e aqui só para nós, não acredito que o D. Sebastião ainda esteja vivo.



segunda-feira, 12 de maio de 2008

A dança dos ausentes




Vem o presente a dois propósitos: o da estreia de uma dança-teatro em Madrid, esta semana, com base no tema e o de o meu maluquinho de estimação não me ter, hoje, vindo pedir o cigarro matinal do costume, a uns metros do mais que obrigatório, para nós os obedientes, sinal de stop antes do cruzamento.

É homem que vira os dias ao contrário e tem relógio nas estrelas: sai pelo crepúsculo e anda de roda toda a noite , sem canseira que se lhe note. Trata as constelações pelos nomes, numa conversa que só eles entendem. Dizem-me que é um corropio de perguntas. Das respostas mantém segredo.




Não é coisa de espantar: a loucura sempre se associou às trevas, aos seres que mais ninguém vê, à fantasia, à inquietude, à magia, ao Diabo que os doidos não têm Deus jurista, senão o que eles próprios inventam na sua deriva.





Não lhe sei o nome nem história e nunca ouvi ninguém perguntar se está bem. Aos outros pergunta-se então, está melhor do estômago? A eles devia-se perguntar se lhes dói os pensamentos. A maior parte talvez diga, como os racionais, que lhes dói a vida.




Talvez por isso tantas artes tenham andado e andem atrás da loucura. Umas vezes por coscuvilhice dos sonhos, outras para desbravar o que não se entende, outras para perceber os rasgos de maldade fora de qualquer justificação que se entenda, outras porque dá jeito e estatuto não andar num mundo minimamente arrumado. Uma aura de loucura sempre esteve e está ao serviço de algum oportuno comércio.





A loucura, como tudo, tem moda e estação, havendo quem ache que é louco quem sempre se opôs ao poder, como defendeu Foulcaut. Ou que se trata de um erro da natureza. Ou quem, sendo puro, se retire do mundo feito de corrupção, jogos de interesses e vilanias como a dançável (quem disse que os livros não se dançam?) Louise Miller, personagem de Schiller.






Foi no estudo da dita criatura que fomos de visita a um manicómio e que nos disseram, do alto da sabedoria, como se saíssem e entrassem do país da cabeça daqueles olhos aflitos que nos invadiam, que os loucos não sofrem, que vivem na sua própria lógica onde tudo, para eles, faz sentido.

Mas se o corpo, o olhar e o gesto são o espelho da alma, ficámos queimados com as labaredas que saíam daqueles infernos em guerra interior. Não voltámos a fazer visita de estudo áqueles seres porque sentimos que estávamos a invadir-lhes a dignidade. A parasitar-lhes o sofrimento.









Preferimos olhar para dentro dos nossos fantasmas. Afinal se o provérbio de são e de louco todos temos um pouco existe em todas as línguas, alguma verdade universal há-de ter.





E pensando em dança, sabe-se que na antiga Grécia, enquanto se celebravam os Jogos Olímpicos, interditos às mulheres, estas se retiravam para o cimo de um monte e rodopiavam até enlouquecerem, sob a égide de Dionísio. Há quem entenda que não era só folia. Tratava-se sim, do exorcismo de penas. Afinal o tal deus também sofria com a instabilidade e a falta de sossego a que a invenção dos homens o tinha condenado.




E vamos por aí fora, passando pelas danças macabras ou do Diabo na Idade Média, quase todas de cariz popular. Nem o Ballet Romântico escapou, recuperando e adaptando, em algumas peças, as lendas, também populares, nórdicas.

Danças de amor, metamorfose e morte. Ingredientes, parece-me, para o resvalo do abismo.

Na época contemporânea há de tudo. Em alguns casos gritam-se ou riem-se, de forma mansa ou furiosa, as dores que não têm tempo. A loucura é sedutora e os versos e reversos do mundo e dos afectos não têm paliativo na tecnologia, suposto caminho para o encontro e felicidade.





Posto tudo isto, quem nunca ao olhar em volta observando bem, cumprir o ritual de estar a par das notícias e não se interrogar se está no tempo e no espaço certos de acordo com o que aprendeu como sendo padrão de bom senso, que atire a primeira pedra.








Talvez, a exemplo da Idade Média, fique com vontade de comprar um bilhete e embarque na Nave dos Loucos, nem que seja para navegar num imenso oceano de papel. Com ondas em forma de teclas e som da balada para um loco do Piazzolla.




Desde que não afogue a restante tripulação, cada um que escolha o seu porto.

terça-feira, 6 de maio de 2008

Doña Rosa, como no?



Cada vez que olho para os olhos negros e pestanudos de Doña Rosa penso que o seu coração deve pesar, mais coisa menos coisa, uma tonelada e meia. Não por serem exactamente tristes entre o vago e o gélido, mas por terem uma carga de memória que imagino como pedregulhos insolúveis na vida de qualquer pessoa cuja infância tem ainda o lastro da Guerra Civil.




Como todos os espanhóis, Doña Rosa não gosta de falar nos derrames do assunto. Limitou-se a dizer que ia estar uma quinzena fora para ir ao pueblo assistir à abertura da vala comum onde jaziam a monte a avó e mais alguns familiares. Embora não os tivesse conhecido acha ser de justiça dar sepultura com nome e individualidade aos ossos.

Doña Rosa é assistenta. Profissão que corresponde em Portugal ao depreciativo mulher-a-dias ou ao mais politicamente correcto e maquilhado, empregada.
Agora só trabalha lá em casa para se distrair e para ganhar para os seus botões, ou seja, para a roupa, revistas onde segue a vida, entre outras, das Isabéis Pantoja e Presley e cds, sobretudo de Los Chunguitos, uma espécie de Trio Odemira mas mais violento e alcoólico:





Ahogo mi dolor en quatro copas de aguardiente…

Te mataré a puñales si te marchas …,
por exemplo.


Doña Rosa, quando me conheceu, já lá vão uns aninhos, detestava-me. Cheia de desconfiança. Chamava-me la duqueza de rebaja, ou seja duquesa em saldo.

Primeiro: porque lhe chamava Doña, o que era interpretado como sendo de gozo com a sua condição de operária do lar. No seu entender Doña chama-se às fidalgas seja lá qual fôr a raiz da fidalguia;

segundo: não percebia a minha inflacção de gracias, por favor, no se moleste usted;

terceiro: porque vendo o meu nome completo nos envelopes postais, achava não ser tal junção de letras digna de ser de gente completa de juízo e nascimento.
Com o tempo percebeu que eu vinha de um sítio onde tais coisas são hábito, ou seja Portugal, imaginado por ela com sendo igualzinho à Miami do Júlio Iglésias, tal é o mar que banha os dois.
Fizemos as pazes, já que também eu não morria de amores por ela, quando a deixei massajar-me o cabelo com gema de ovo. Receita dela para a secura. E quando chorámos, as duas, a ver um pedaço de filme. Afinal os afectos básicos não têm classe. Talvez só mude a forma como se ri ou como se chora.




Doña Rosa classifica os seres vivos em três categorias:

As pessoas, a saber, as mulheres, a sua cadela Lora e a gata lá de casa, Pepa Imaculada, com quem ela desabafa e comenta;

os homens (à excepção dos da casa empregadora, elevados ao estatuto de meias-pessoas) e os répteis rastejantes.




Todo o resto é matéria indefinida, como os filhos que já voaram para longe da infãncia.

Dentro das mulheres há as brutas, como ela se considera, as inteligentes e as artistas, como a sua amada Carmen Sevilla, modelo, para si, da eterna fina e feminina beleza .


A penúltima classe pertence a um mundo exterior, estranho, inacessível.





As tais que se juntam lá em casa a encher cinzeiros e espalhar papéis noite fora e que insistem em invadir-lhe o território exclusivo da cozinha.

As mesmas, que num mesmo dia e hora, a metem à força no banco de trás do carro com a gata e vão todo o caminho a ouvir me cago en los medicos e miauuuurrrrnhau e ficam meio aliviadas quando deixam a Pepa no veterinário e continuam até à clinica a exasperar com os estoy yo enferma del culo, e completamente já surdas quando o avc que vinha a caminho, é interrompido na urgência.

A última gente, as artistas do canto, baile, telenovela ou aristocracia mediática, só existe quando se casa , divorcia ou aparece na televisão. Fora isso é volátil, tão consistente como um desenho animado.

Doña Rosa fala do marido como se só de vez em quando se lembrasse que ele existe.





Como todos os homens, sic, vive num mundo que só a eles lhes pertence. À sua maneira, diz à gata, que o amor é uma questão de hábito. E que eles aspiram e esperam o que não podem ter ou não merecem. Porque le digo yo a usted, los mui cabrones son todos iguales.




A única certeza que tem é a filiação doentia dele no Real Madrid. E a obrigatoriedade de lhe servir as refeições e tratar dele na medida em que ele se deixa tratar.

Hoje é dia de ir. É mais um dia de, aos berros, ameaçar fazer fogueira com os papéis que lhe fazem nervos: loiça por lavar, cama por fazer e papéis espalhados são afrontas à boa ordem de uma casa que se preze.





E de ir ao frigorífico ver se a sopa foi toda comida. Se houver uma guerra até pedras comem
(traduzido aqui, que a vernácula ementa castelhana não lembraria ao demónio mais pantagruélico ou...castrador).
Mais um dia, de na companhia ouvinte e silenciosa da Pepa Imaculada, já velhota




arranjar maneira de limpar o que nem sequer está sujo.


Uma forma bruta de ir vencendo o destino.