
Pois, meus amigos, é chegada a época em que um sentimento em mim latente se transforma em paisagem bem visível, entre o aterrador e o indiferente.
Estando eu sentada no meio e em frente de várias pessoas, logo me senti ilha sem raiz que a prenda a terra fixa.
Falava-se, com entusiasmo e anestesia face às dores dos assuntos do mundo, da selecção nacional de futebol. Investia-se como se de vida ou morte da nacionalidade se tratasse, naqueles guerreiros, de alma colectiva feita, dispostos a defender os valores pátrios contra os bárbaros.
Primeiro: não gosto de futebol nem, e sobretudo, dos arredores dele. Parecem-me os actores figuras boçais, representantes, conjuntamente com o toureio, de valores que o avanço da civilização se esforça por varrer para o caixote da memória.
Tal impressão sublinhou-se ao ver uma entrevista de uma alta personalidade do meio, que, palavras filtradas pelo másculo bigode, afirmava não ser tal desporto compatível com mulheres, à excepção de prostitutas, presumo, nem com ambientes gays, esquecendo-se de referir os cães, os gatos e o Figo, embaixador digno da lusa pátria além de modelo da roupa desenhada por um dos mais assumidos maricóns estilistas espanhóis.
Segundo: percebo, de forma dorida e como quase todas as pessoas de ascendência misturada ou ligadas às ciências e às artes , que não tenho sentido de pertença exclusiva e cega a um país e que o meu mapa tem fronteiras desfocadas. Infeliz de mim que nem posso dizer que a minha pátria seja a língua portuguesa. Nos meus pensamentos há rodopio de palavras emigrantes e imigrantes consoante as emoções que correm à flor da pele.
O meu país fala a língua daqueles que convidei e se sentaram nas salas do meu coração, decorado de paisagens de muitas cores, movimentos e formas de estar.
Quando se parte nunca se regressa completamente.
O preço da descoberta e da comparação implica que da mesma forma que muito se leva, muito se perde e muito se ganha. Se é bom ou mau saldo, a contabilidade do futuro lá irá dizendo. Balanço nunca isento de laivos de nostalgia e de racionalidade. Espero eu.
Tal como os outros, tantos, nunca abdiquei do portuguese born, em vez do proposto e mais comercial e sonante, spanish. É a nossa forma de marcar golos em território estrangeiro.
Modesta a minha, comparada com muitos goleadores cá dentro e por esse mundo fora nas mais diversas áreas.Figuras a merecerem bandeira na janela, se se lhes fosse dado a conhecer por cá o nome, muitas vezes feminino.

Pessoas a quem soa mal a linguagem de compra e venda por clubes, companhias, empresas ou universidades. A moeda em que pensam é, normalmente, a do trabalho, do estudo,do mérito, da luta.

Salvo excepções de prémio Nobel ou neurologia, nunca ouvi que se gritasse por eles golo dentro ou fora do lusitano estádio.
Por tudo isto, não tenho outro remédio se não sentar-me e esperar não ver numa pequena caixa de jornal ou em rodapé na televisão,
que os impostos aumentaram,
que os combustíveis subiram pela quinquagésima vez,
que mais alunos ( muitos ensinados pelos pais) bateram, ou ameaçaram, em professores,
que há mais gente na fila da sopa dos pobres,
que foram traficadas e abusadas mais mulheres e crianças,
que a minha colega de cinquenta e cinco anos , já quase paralisada das pernas, ainda não conseguiu a reforma porque não cumpriu os sessenta e cinco,
que voltou a cair mais património histórico,
que mais árvores arderam para tornar o solo fértil em betão,
que uma cientista genial foi definitivamente e a convite com a equipa para Munique porque o Estado a tinha burocraticamente há dois anos no banco dos suplentes,
que continuam a ser abandonados velhos nas urgências e animais nas estradas,
que foi decidido que os bailarinos podem dançar aos sessenta como quando tinham vinte, já que ao contrário dos futebolistas, não têm desgaste rápido,
que um senhor importante decidiu o que os criadores devem criar consoante o que ele entende democrática e ecléticamente ( olhando para os seus próprios gostos) que deve ser criado,
e que, enfim, anda um rectângulo perdido no meio de um oceano sem geografia em forma de mancha aleatória e esquecida.

Se algum dia vir um país encontrado pelo correr da História, com a dignidade que o seu nome e património merecem, então talvez também dê um pulo no sofá e grite golo.
Até lá, eu que sou por natureza optimista, recolho-me à distãncia
e limito-me a guardar a bandeira dentro do baú da esperança, louvando todos os jogadores sem nome estrelar.
Sinceramente, e aqui só para nós, não acredito que o D. Sebastião ainda esteja vivo.












