A loucura dos espelhos simétricos

Já não sei se foi Rosa Montero, ou outra qualquer escritora, que disse não haver pior profissão que a de mulher de escritor famoso. As coitadas, ou ficam eternamente sentadas no degrau mais baixo do pedestal ou são culpadas de todos os desaires na fluência criativa dos génios. Tudo depende de que lado e em que tempo na História se está.
Ora, desde que nasceu Zelda Sayre, teve sempre o condão de inflamar e dividir opiniões e sentimentos. Tinha o absurdo das ideias fixas.
Colava-se a sonhos como se na alma tivesse ventosas de desespero.

Foi numa festa que viu Scott Fitzgerald.
Determinou que, a ser preciso, esperaria toda a vida por ele.
A espera foi curta, não demoraram a casar, apesar de no namoro, o destino já não ser misterioso quanto à montanha russa mutuamente destrutiva: se Scott já era alcoólico desde a saída da infância, ela já evidenciava sinais de vulcão em iminência de erupção.
Não há redomas que isolem o amor do resto do mundo. E aquele foi vivido em época baptizada, por Fitzgerald, de Jazz Age e por Gertrude Stein de Lost Generation.
Viveram o período entre guerras, encaixado entre a euforia de ganhos extraordinários na Bolsa e a depressão de 29.
Conheceram a confusão rápidas de valores.
Tinham sido ambos educados segundo normas rígidas: ele por uma mãe egocêntrica, autoritária e chantagista de afectos,
ela, aristocrata, por um pai juiz à americana, ainda por cima sulista, ou seja, com o estatuto, exterior, de infalibilidade muito próxima de Deus.
Depois da 1ª guerra o mundo correu como um doido enfeitiçado. A moral vitoriana morreu de um dia para o outro. Todo o recato e elogio da virtude se tornou motivo reaccionário de embaraço.

Era vergonha andar-se sóbrio. Mesmo quem não gostava ou não bebia, fazia alarde do seu vício.
Tornou-se chique fungar e exibir o lenço manchado de sangue narigal, anunciando a grandeza da cocaína.
Misturando óleo de amêndoas doces com pó de carvão, damas e cavalheiros simulavam olheiras até ao umbigo, como sinal de constante folia.
Procuravam-se os mais linguarudos para confessar as infidelidades, muito praticadas, nos bancos traseiros dos velozes carros Ford. Introduziu-se a expressão, ainda hoje em vigor, de back seat love.

A dança tinha a ousadia mulata do Charleston, o ritmo do Jazz, o tango (originalmente uma dança gay) foi introduzido como metáfora de sedução ardente e clandestina.
Se raças, como a negra, tinham sido escravizadas, foram elevadas à categoria de demiurgos do futuro.
Substituiu-se o velho e paternal Deus judaico-cristão por deuses mais exóticos e... permissivos.

Começou o culto do nu, não como forma de arte, mas como revolução no modo de vida.
Zelda e Fitzgerald foram o paradigma desta mudança.
Tornou-se ela, a grande musa mediática destes tempos: alimentava-se de espinafres e champanhe, recebia convidados deitada na banheira, e rejeitando as aulas de Ballet que tinha tido desde a infância, preferia as danças, chamadas de balcão, com soldados famintos, em clubes nocturnos.
Mas há sempre uma diferença entre aquilo em que se quer acreditar e aquilo que se é.
Scott, fervoroso adepto e companheiro destas revoluções, nunca deixou de ter a sua origem católica irlandesa, logo ultra conservadora, nas veias do comportamento.
Zelda substituiu a dança pela pintura , Scott insurgiu-se quanto à capacidade da mulher para criar ou trabalhar.
Criativo, para o publico, e a levar dinheiro para casa, só ele.
Hemingway, grande amigo de Fitzgerald, escreveu cartas e artigos a segredar em altos berros que, como vingança, Zelda instigava o marido a beber, mais ainda, como forma de lhe destruir a capacidade de escrita.
Dorothy Parker, também escritora de relativo sucesso, chamando-o sempre (até no funeral) de son-of-a-bitch, contava as formas maquiavélicas que Scott arranjava para destruir a auto estima da mulher. Percebia-lhe as brechas na alma e, em momento oportuno, colocava nelas pólvora. Seguiam-se cenas de fogo de artifício destemperado.
Zelda, escrevia artigos para revistas femininas e outras, a denunciar os plágios que o marido fazia dos seus diários, sem contar com o aproveitamento da sua literal pessoa para as personagens de romances e contos. Nas festas, tratava-o publicamente por piece-of-shit.
A situação agravou-se quando o casal, protagonizado pelo escritor melhor pago do mundo, submergiu em dívidas. Já estavam em Paris, como muitos outros americanos, na ilusão de manter, na Europa, a vida, sem horas, de alta sociedade que tinham conseguido nos Estados Unidos.
Nesta cidade, Zelda aos 27 anos (vinte e sete), acordou o seu maior sonho entretanto adormecido: o de ser bailarina clássica.
Contratou um “honestíssimo” professor russo de Ballet (estavam em moda na altura) e até lhe ser diagnosticada esquizofrenia e ser internada, sofreu oito a dez horas de aulas inúteis por dia.
Não sei se conseguiu actualizar o treino muscular e ósseo tão tardio… através dos choques eléctricos e outros tratamentos iguais em crueldade, em voga.
Scott começou a vender prosa para todo o lado e mais algum para lhe pagar os tratamentos psiquiátricos.
Começou a introduzir, nos contos, personagens ligadas ao bailado. E sempre a vaguear entre o fascínio pela beleza e o repúdio por um mundo que o excluia. Veja-se o Estranho Caso de Benjamin Button, por exemplo. 
Entretanto, Zelda tinha escrito um livro autobiográfico, o tal Save Me the Waltz.
Existem duas versões: uma, em manuscrito dado por ela a um editor, e outra, dactilografada, entregue por Scott a um outro editor,a pedido dela.
Zelda veio a descobrir que Scott, tinha corrigido e alterado a sua escrita.
A critica elogiou o produto inalterado.
Na guerra de Scott pelo protagonismo absoluto, Zelda perdeu. O seu livro foi remetido para a sombra. Nem a publicidade elogiosa na revista Vogue lhe deu luz.
Scott ia-se afundando cada vez mais no álcool, nas drogas e na solidão.

Os amigos foram afastados pelos constantes pedidos de dinheiro, pelo circo patético de encontros de amor fogoso alternados com reboscadas estratégias de mutua destruição.
Scott Fitzgerald, morreu novo, aos 44 anos, completamente afogado, de dentro para fora, no seu sustento: o liquor.
Zelda, oito anos mais tarde, ardeu o corpo e a alma no elemento que sempre lhe foi atribuído: o fogo.
Foi liberta do estatuto teimoso de sombra nos anos sessenta (embora só nos noventa começasse a ser estudada de forma mais desapaixonada e isenta).
Tornou-se um ícone de vitimização exemplificativa para as feministas mais radicais.

Foi, conjuntamente com Marilyn Monroe, alimento para literatura trágica de cordel.
Foi inspiração para escritores, coreógrafos sensatos e diva para outros que achavam que... para dançar era preciso provocar loucura e sofrimento nos bailarinos, tendo como agente, entre outros, o LSD.

Nas companhias mais institucionais, sobretudo americanas, foi sempre apresentada como modelo a não seguir. Em circunstancia alguma.
Muitos estilistas têm desenhado colecções temáticas tendo-a em mente.

Subi ao sótão, reli a citação dela, sozinha a meio da página, antes do começo do livro Tender is the night, de Scott Fitzgerald que, se bem me lembro, melhor a retrata :
Nobody has ever measured, not even poets, how much the heart can hold.
Onde terei posto o livro com a correspondência entre eles?
Prometi-me, pela milionésima vez, lembro-me agora, arrumar todos os meus queridos escritores americanos. Juntos.
Apaguei a luz e desci as escadas.
Lá fora, umas nuvens planas e pontiagudas pareciam apunhalar o azul, já de dia moribundo, no céu.












Já expliquei porque são constantes na Torre de Londres.




Parece-me, que à vista um do outro, cada um enaltece o que pensa lhe ser mais peculiar. Se calhar estou predisposta a achar que assim é. A isenção é sempre relativa aos nossos próprios limites.





e vocês não se rirão, com todo o vosso cosmopolitismo e tolerância genuinamente educada para a diferença, da pronúncia arranhada, bruta, gutural e desajeitada deles ao tentarem falar a vossa língua.


