Então cá vai prosa, de propósito metafórica, de lutadoras para lutadoras e lutadores, deste ou doutro qualquer planeta.
Canto, quase intimo, a uma Velha Senhora

As cidades também entristecem, como se se cansassem da sua história.
Chego a Madrid e parece-me a cidade uma Velha e imponente Senhora que, depois do rebuliço de uma dança ininterrupta e doida, se senta num sofá com vontade de abandonar o corpo já pesado.
Parece fechar os olhos e adormecer mas a sua natureza, que estranhos querem abafar com regras rígidas, burocráticas e silenciadoras do fogo sanguíneo, dá-lhe aquela vigília travessa de vulcão imprevisível de que se sente o calor.

Naquele corpo renovam-se células em forma de chama. A Velha Senhora, no mais fundo de si, alberga labaredas capazes de fundir as grades. Qualquer grade. A Velha Senhora alimenta-se de raiva, daquela raiva positiva que a mantém genuína quando a querem monotonamente igual a tantas outras. Resiste usando a matéria de que foi feita e da que foi inventando.
É noite de luar descarado quando nos dirigimos ao Teatro de la Zarzuela , um dos seus órgãos mais vitais e de que fomos aprendendo as notas, os cantos, os recantos e as manhas.

Ali se irá cantar e bailar flamenco com roupa nova. A raiva, tão dele própria , vai-se adequando aos tempos sem nunca desprezar o útero onde foi gerada.
Não vamos aos bastidores perturbar a concentração de Eva Durán, cantaora, nem de Fuensanta “ la Moneta”, bailaora.
Sabemos que quase todos os artistas necessitam serenidade antes de entrar para o palco como sabemos que o flamenco implica uma espécie de religiosidade por parte dos celebrantes.
Rituais que chamam a memória ao sangue.
Tem-se muitas vezes a sensação que o corpo abandona aquelas mentes e se faz emissário de fúria. Para catarse de todas as penas.
Não é preciso avançar muito para se perceber fogo desvairado na La Moneta.
No fim, a lembrança daquela tormenta criativa acentua-se quando nos aparece com os seus parcos 25 anos, voz doce e frágil, a rondar o tímido, face a gente mais crescida.
Encolhe os ombros. A família, apesar de ser de um dos berços do flamenco, Granada, nunca foi ligada a tais cantos nem danças. Só se lembra de ter visto, muito pequenina, um vídeo de Carmen Amaya. Só se lembra de querer ser como ela. Como se La Amaya lhe indicasse ao ouvido o destino.
Dançou em várias companhias. Lisboa? Veio cá várias vezes a servir estrelas, mais ou menos turísticas, que enchem CCBs e Coliseus.
Começou a olhar em volta e resolveu dançar o que pensava em relação a estereótipos de mulheres na sociedade espanhola e na sua raça.

Percebeu que não podia manter a passividade frente à "imutabilidade" do género. Ou dos géneros.

Magicou. Lançou-se na aventura de conceber espectáculo próprio na companhia da voz cheia e cúmplice no pensamento da malaguenha Eva Durán e do cenógrafo, virado à magia, Hansel Cereza
Há momentos em que ela, virtual, dança com ela, realíssima, ali, no palco que nunca perdoa.

Soa a introspecção em diálogo entre o passado e o futuro. Ali, naquele presente, sente-se a tensão no público madrileno como se a Velha Senhora Madrid interrompesse o seu dormitar e abrisse os olhos.
Mais tarde, muito mais tarde, apesar de ninguém ter dormido a siesta, tão europeísticamente incorrecta no aproveitamento dos dias,

as ruas enchem-se de gente. Entre risos, ralhos, palavrões e palavras doces. As gentes reclamam, assim, o pleno direito às horas da noite.

Algures, num semáforo vermelho, uma rapariga muito nova, sai do carro e canta em voz rouca para a lua cheia:
Quítate de la ventana
Porque voy a suspirar
Mis suspiros son de fuego
Y te pueden abrasar
Na algazarra anónima de olés, váles, vira o semáforo a verde e, ou foi impressão minha, ou a Velha Senhora se levantou do sofá e sorriu como peixe afoito que não se assusta com a largueza do mar.

Ou com qualquer outra água mais pequena!
(para quem se dê ao trabalho, um bocadinho do espectáculo está no youtube. Basta escrever Fuensanta la moneta de entre la luna y los hombres e é o primeiro que aparece, com uma espécie de desenhos em néon em fundo preto. Vále?)























