quarta-feira, 18 de março de 2009

Segue este em homenagem aos Piscianos, sobretudo àqueles que imperdoavelmente me esqueci de felicitar sabendo as datas. Para mais fácil desculpa, sabem eles que ultimamente me anda a fugir a cabeça dos ombros e que sendo pessoas grandes, compreenderão o trabalho que me dá procurá-la e recolhê-la para o seu racional sítio.
Então cá vai prosa, de propósito metafórica, de lutadoras para lutadoras e lutadores, deste ou doutro qualquer planeta.


Canto, quase intimo, a uma Velha Senhora




As cidades também entristecem, como se se cansassem da sua história.

Chego a Madrid e parece-me a cidade uma Velha e imponente Senhora que, depois do rebuliço de uma dança ininterrupta e doida, se senta num sofá com vontade de abandonar o corpo já pesado.
Parece fechar os olhos e adormecer mas a sua natureza, que estranhos querem abafar com regras rígidas, burocráticas e silenciadoras do fogo sanguíneo, dá-lhe aquela vigília travessa de vulcão imprevisível de que se sente o calor.


Naquele corpo renovam-se células em forma de chama. A Velha Senhora, no mais fundo de si, alberga labaredas capazes de fundir as grades. Qualquer grade. A Velha Senhora alimenta-se de raiva, daquela raiva positiva que a mantém genuína quando a querem monotonamente igual a tantas outras. Resiste usando a matéria de que foi feita e da que foi inventando.

É noite de luar descarado quando nos dirigimos ao Teatro de la Zarzuela , um dos seus órgãos mais vitais e de que fomos aprendendo as notas, os cantos, os recantos e as manhas.



Ali se irá cantar e bailar flamenco com roupa nova. A raiva, tão dele própria , vai-se adequando aos tempos sem nunca desprezar o útero onde foi gerada.


Não vamos aos bastidores perturbar a concentração de Eva Durán, cantaora, nem de Fuensanta “ la Moneta”, bailaora.



Sabemos que quase todos os artistas necessitam serenidade antes de entrar para o palco como sabemos que o flamenco implica uma espécie de religiosidade por parte dos celebrantes.
Rituais que chamam a memória ao sangue.
Tem-se muitas vezes a sensação que o corpo abandona aquelas mentes e se faz emissário de fúria. Para catarse de todas as penas.


Não é preciso avançar muito para se perceber fogo desvairado na La Moneta.
No fim, a lembrança daquela tormenta criativa acentua-se quando nos aparece com os seus parcos 25 anos, voz doce e frágil, a rondar o tímido, face a gente mais crescida.

Não saberá explicar donde lhe veio tal “temperamento”, palavra que em castelhano significa a junção do talento à vontade indómita activa.

Encolhe os ombros. A família, apesar de ser de um dos berços do flamenco, Granada, nunca foi ligada a tais cantos nem danças. Só se lembra de ter visto, muito pequenina, um vídeo de Carmen Amaya. Só se lembra de querer ser como ela. Como se La Amaya lhe indicasse ao ouvido o destino.

Dançou em várias companhias. Lisboa? Veio cá várias vezes a servir estrelas, mais ou menos turísticas, que enchem CCBs e Coliseus.

Começou a olhar em volta e resolveu dançar o que pensava em relação a estereótipos de mulheres na sociedade espanhola e na sua raça.



Percebeu que não podia manter a passividade frente à "imutabilidade" do género. Ou dos géneros.




Magicou. Lançou-se na aventura de conceber espectáculo próprio na companhia da voz cheia e cúmplice no pensamento da malaguenha Eva Durán e do cenógrafo, virado à magia, Hansel Cereza

Há momentos em que ela, virtual, dança com ela, realíssima, ali, no palco que nunca perdoa.






Soa a introspecção em diálogo entre o passado e o futuro. Ali, naquele presente, sente-se a tensão no público madrileno como se a Velha Senhora Madrid interrompesse o seu dormitar e abrisse os olhos.

Mais tarde, muito mais tarde, apesar de ninguém ter dormido a siesta, tão europeísticamente incorrecta no aproveitamento dos dias,




as ruas enchem-se de gente. Entre risos, ralhos, palavrões e palavras doces. As gentes reclamam, assim, o pleno direito às horas da noite.




Algures, num semáforo vermelho, uma rapariga muito nova, sai do carro e canta em voz rouca para a lua cheia:

Quítate de la ventana
Porque voy a suspirar
Mis suspiros son de fuego
Y te pueden abrasar


Na algazarra anónima de olés, váles, vira o semáforo a verde e, ou foi impressão minha, ou a Velha Senhora se levantou do sofá e sorriu como peixe afoito que não se assusta com a largueza do mar.





Ou com qualquer outra água mais pequena!


(para quem se dê ao trabalho, um bocadinho do espectáculo está no youtube. Basta escrever Fuensanta la moneta de entre la luna y los hombres e é o primeiro que aparece, com uma espécie de desenhos em néon em fundo preto. Vále?)

quarta-feira, 11 de março de 2009

mera dedução sobre a rapariga que pede os sonhos emprestados




No sítio da minha morada a imagem é ligada ao som, ou seja, ao pensamento audível e bem expresso: qualquer pessoa nova que apareça, nem que seja dentro dum carro a perguntar qual a estrada para um endereço, é imediatamente comentada e directa ou indirectamente questionada pelos nativos. Ela, o seu propósito e qual a razão da deslocação. As especulações mais frequentes são as festas de anos ou, à cabeça, um óbito, mais passível de romance virado à inacreditável tragédia.




Com tanta “gente de Lisboa” a abandonar a clausura dos apartamentos e a mudar-se para ali, a colectânea já ultrapassa, em décuplo qualquer edição do Moby Dick.

Ainda não há muito tempo, em rodagem pelo Alentejo e desviando-nos da estrada principal, perguntámos a um grupo qual a estrada para Montemor: é aquela da drêta, sempre em frenti! Atão o que vâ lá fazere? A reposta evasiva de passear foi dada a vários narizes encostados aos vidros com os arredores dos olhos em ansiedade e rigor de microscópio.

Nas grandes cidades, sobretudo depois da invenção necessária dos transportes públicos, as palavras abandonaram a visão.

As conjecturas tornaram-se privadas. No metro ou no autocarro, podemos levar longos minutos rodeados de gente sem que ninguém dirija a palavra a ninguém. A nossa avaliação dos outros utiliza os códigos da roupa, dos gestos, dos traços fisionómicos, das expressões. É a partir dessas linguagens que inventamos as histórias.




Das poucas vezes que ando de metro, não raro e por espantosa coincidência, se sentou à minha frente uma rapariga de raça negra, muito alta.

Levou-me imediatamente à memória do que, em Nova Iorque, por exemplo, se chama afro american junkie, aqueles para quem os cantos espirituais negros não passam de ritmos vazios da melodia de Deus.



O cabelo a precisar de sabonária , vários exércitos de glutões para a roupa, olhar ausente sem focagem em ponto algum, braços abandonados ao longo do corpo, pernas e pés incoerentes na postura, como se pertencessem a pessoas diferentes. A personificação de um sono acordado.

De uma das vezes calhou caminhar à minha frente. Andar curvado, bamboleante com um certo arrasto, ombros a dar balanço aos braços, como um rapper falido no orgulho e na energia denunciado pela cabeça baixa.





Entrou na Fnac.

Foi, como em estrada marcada, à prateleira da ópera.

Soube eu, como se estivesse sentada num banco de aldeia entre comadres, que vai buscar sempre Orpheu e Euridice de Gluck.

Pôs os auscultadores num dos pontos de escuta e vi-lhe a metamorfose da expressão.

Torna-se altiva: gira ligeiramente a cabeça, sobe um ombro, levanta o queixo. Abre os braços e pelos trejeitos quase adivinho qual a área que mima.

Transpira a música pelo corpo numa interpretação digna de qualquer manual clássico de arte dramática. Vejo ali a técnica de Delsarte, de que já aqui falei.




Repete várias vezes. Faz gestos de frustração como se, num ensaio, a miragem de perfeição lhe fugisse.

Quem circula vai sorrindo, com aquele sorriso de complacente temor que se tem face à loucura alheia.



Quando se sacia, agradece, de olhar vago em direcção a ninguém, com a vénia contida e braço em retribuição que o bel canto ou outro espectáculo,agora, solene recomendam.



A seguir vai o rap, vais ver!, dizem-me do encosto no largo principal da aldeia.

E lá se contorce o corpo em ritmo sincopado mas na verticalidade que os auscultadores exigem. Folia de braços, mãos fechadas mas com o dedo indicador esticado a apontar revoltas. O tronco desarticula-se. Leva a mão à parte pudenda enquanto o sobrolho se franze até ao limite possível. Inventa um microfone. Desligado.

Cansada, termina a secção até uma próxima visita.

Vai sem que ninguém lhe dirija palavra, não se dirige a ninguém.

Dentro do meu silêncio sem perguntas, imagino-a, com a ajuda da memória e não fosse a oceãnica distãncia, a sentar-se numas escadas em Harlem ou no Bronx, entre sisters e brothers rodeada de "mans"



a ver o fucking day passar, enquanto a old mammie , indiferente ao mudar dos tempos e cega a tempestades, vai comentando sem que quase ninguém a ouça que our good Lord Jesus´s giving us again a very shiny day, yehah he is!



É o que me sugerem, a roupa, o cabelo, a expressão, o andar e os sonhos nos gestos.


(Boto aqui a referida ária que, suponho, ela escuta. Se só se ouvirem 30 segundos, bom, desta vez, corresponde-quase- ao tempo que nos é permitido ouvir de cada faixa nos tais pontos de escuta. No meio da sua performance "privada", ela vai carregando vezes sem conta no rewind.)


che faró senza euridici - c willibald gluck/kathleen ferrier

quarta-feira, 4 de março de 2009

E para que o Capitão Haddock, figura abrangente dos 7 aos 77 anos, e os demais dos 8 aos 88, não se enfadem com descrições de períodos asteriscais, vou neste falar na coroa de Chanel, já que não há moeda que tenha só cara.
Temos assim o

cocktail do deus nostálgico que sonhava corrigir a natureza


Christian Dior de seu nome.

Nasceu em 1905 na Normandia vindo a morrer em 1957 em circunstâncias de ataque cardíaco, dizem uns que no banho de piscina, outros que durante o bridge, outros que em grande esforço na ebulição de uma orgia jetsetiana.

O que interessa, em todo o caso, é que só produziu moda entre 1947 e aquela data. Dez anos de reinado entre as nuvens que sempre pairam no ar enquanto o tempo térreo avança.

Nasceu de uma família cuja riqueza vinha do estrume. Mais tarde, já famoso na elite europeia, modificaria a incómoda palavra estrume para a expressão industria da fertilização.
Sempre foi criança virada para as artes e à chegada a Paris, o deslumbramento citadino levou-o a querer ser pintor. Depois galerista. Ambas as actividades não demoraram a conhecer a falência.

Imaginou-se então, talvez por força do destino, o sucessor do considerado primeiro estilista da Alta Costura, o americano Charles Frederick Worth, sobre quem a Edith Wharton escreveu deliciosos retratos (perdoem-me este meu pendor para a literatura americana mas estes contos…).

Para Dior nada havia de mais fóbico que pobres, até remediados, e a pobreza geral da Guerra.
Foram proibidos os tecidos caros, normalmente importados, bem como as meias de seda.


Havia racionamento de tecidos e desenvolveu-se, por isso, a arte da reciclagem em costura caseira: de calças de homem aproveitavam-se as partes menos puídas para fazer saias, de saias inventavam-se vestidos para crianças, cerziam-se meias, viravam-se colarinhos. Revistas ensinavam até a transformar cortinados em vestidos de noiva.



A roupa tinha tendência a ser prática e masculinizada, sem acentuar a anatomia feminina, como já havia sido nos anos 20, a chamada silhueta tubular, para permitir às damas dançar jazz, foxtrot, charleston e o que mais soasse a viver a vida em movimento.

Em Londres, por indicação, e exemplo, da Rainha Mãe, Elizabeth, (a quem em privado Dior chamava o equivalente de matrafona)


os estilistas retiraram ornamentos e luxos das suas criações. Inventaram os soquetes de algodão.
Por outro lado, estrelas afoitas de Hollywood, como Marlene Dietrich ou Katherine Hepburn, não se coibiam de trajar literalmente à homem enquanto a publicidade promovia, para as mulheres, hábitos descaradamente masculinos, como o de fumar.





Tudo isto causava arrepios medulares a Dior, preso ao ideal da mulher vitoriana: casta e espalhando públicas virtudes em salões aristocráticos e da alta burguesia. Olhos inocentes e fechados para o mundo em transformação.
Em termos estéticos, enlevava-se com os bibelots femininos do Estilo Segundo Império: em forma e conteúdo as mulheres seriam irmãs naturais das flores.



Estando a família já falida do negócio estrumeiro, um empresário financiou Dior e nasceu a Maison Dior, em Paris, instituição que restituiu àquela cidade o estatuto de capital da moda, sobretudo no domínio da Alta Costura e hoje chefiada por um dos estilistas, a meu ver, mais excêntricos e criativos da actualidade: John Galliano.



Revoltadíssimo contra a revolução americana do ready-to-wear, prêt-a-porter, Dior começou a desenhar modelos exclusivos para cada dama milionária que tivesse o dom santificado do sacrifício físico.

Seria pecado digno de profunda vergonha, duas mulheres aparecerem em sociedade, ou em privado, com roupa igual ou serem vistas duas vezes com o mesmo traje. Surgiu o conceito de peça de colecção estacionada no armário. Estreia e guarda.

A isto e ao que há-de vir a seguir chamou de New Look, nome que para sempre lhe ficou associado. E, introduziu os desfiles temáticos: Carole, Tulipe, Silhouette8

Em plena ressaca da Guerra, utilizou os materiais mais caros que imaginar se possa. Através de cintas, barbatanas e gomas na roupa interior, moldou a silhueta até à clausura da alma.

Chanel viria a dizer que, com tais atavios e apertos, era impossível qualquer mulher ter a liberdade necessária para ser inteligente. Médicos voltaram a alertar para os perigos de voltar ao passado.




Os fatos para cocktail, em que se devia produzir conversa circulante nos salões, e por via da estreiteza da cintura, não permitiam sequer assento. Era dada um bocadinho mais de folga nos vestidos destinados a chás ou a jantares de forma a permitir a entrada de 50 gramas de comida no estômago.


Um embaixador inglês chegou mesmo dizer que a mulher demorava mais tempo a vestir-se para ir às compras que ele a analisar dossiers e a ler os jornais todos do dia.




Em resposta, Dior congratulou-o pela sorte: é dever de uma senhora compôr, com a sua elegância, a posição social do marido.

Enquanto Chanel falava de mulheres (femmes) em geral, Dior passou a distinguir, com traço forte, entre femmes e madames.



Dizia que era o grande mestre da simplicidade mas um “simples” vestido de passeio, podia consumir 40 (quarenta) metros de tecido.

Se Cennino Cennini, nos alvores do séc.XV, escreveu que nada havia mais desequilibrado e feio que o corpo nu de uma mulher, Dior sempre apregoou que o seu sonho era salvar as mulheres das características imperfeitas que a natureza lhes tinha dado.

Saída infeliz que lhe custou bombardeamento de femmes, de algumas soltas madames, de gente das artes e da cultura à excepção do coreógrafo Balanchine, considerado um dos pais da anorexia e adepto da silhueta "tábua de engomar".

Tal como qualquer deus com obra feita, ainda hoje é discutido por fiéis, agnósticos e ateus. E, andará, quiçá, por um Olimpo Supra Universal, entre querubins com aspirações a Apolos, à procura de uma Vénus que não viva nem envelheça.


Sans doute!

E, já agora, se não se importam e só porque me apetece, boto uma das canções que mais gosto da fraca femme, Edith Piaf.




la vie, l´amour - edith piaf