Salada alcoviteira acerca da mulher que disse odiar o amor
ou de como uma fotografia pode ser completa no retrato porque nesta

está a síntese de tudo quanto foi e o que nunca se deixou ser. Acho eu.
Como aconteceu com outras e muitas personalidades que deixaram, com boa ou má letra, assinatura no séc. XX, a vida de Chanel, nascida Gabrielle, começou mal: mãe precocemente morta, pai diletante e fugidio, humilhação, orfanato.
Ainda muito nova inventou a sua biografia (aliás foi-a sempre inventando) e começou uma extraordinária colecção estratégica de amantes homens, passando, dizem os coscuvilheiros, por umas quantas mulheres, também algumas delas bem colocadas na linha da frente na sua batalha de ascensão e comando da sorte.
Até morrer, aos 87 anos, sempre declarou que nunca teve amizades nem paixões, sendo estes, conjuntamente com o amor, uma forma patética de cada um se esquecer de si.
Sempre recusou ser posse ou vitima de ser vivo algum.

Apresentava como sua antítese fóbica pela falta de autonomia e força na vontade, Edith Piaf,

condescendia, mais ou menos empática em história amorosa, com Marlene Dietrich. Admirava, com reservas competitivas, o génio criativo e o temperamento tempestuoso de Martha Graham.
Começou a carreira como cantora medíocre em espectáculos de cabaret.

Por não ter dinheiro e querer penetrar na alta roda, começou a costurar a sua própria roupa sem saber que esta maneira de rodear o destino haveria de mudar (e influenciar) a moda até hoje.

Os tecidos utilizados nas roupagens femininas de então, e estamos a falar, obviamente, das classes altas europeias, eram extraordinariamente caros. Mademoiselle , teve a brilhante ideia de recorrer aos tecidos "masculinos", bastante mais acessíveis . Como o algodão, por exemplo. E fez escola.
Diz a lenda que já ao tempo não desenhava nem marcava com giz os cortes: pegava na tesoura e, com a mesma precisão veloz que manteve até aos oitenta e tal anos, manejava-a como doida fibras fora: nunca sobrou ou faltou centímetro que fosse.
Continuando, a improvisadora Coco quebrou outra regra: o uso do preto.
Se até ela era cor ou exclusivamente masculina ou associada, nas mulheres, ao luto, copiando-lhe o arrojo, muitas senhoras de sociedade começaram a usá-lo, sempre com um recomendado toque de branco nos acessórios. Estas duas cores, tão estigmatizadas em dor e pureza, ficaram como a sua marca na definição da sobriedade da elegância.

Em plena Grande Depressão económica, dois dos seus amantes financiaram a sua primeira loja em Paris. Já Coco tinha recusado casamento com o Duque de Westminster: numa carta ao aristocratíssimo pretendente escreveu que Duquesas de Westminster tinha havido muitas mas Chanel só uma e casamentos com proles derivadas eram prisões e desperdícios de talento.
Espantava toda a gente com a rapidez das suas decisões: demorou segundos a escolher uma entre cinco das fragrâncias perfumadas criadas por Ernest Beaux, como foi com a velocidade de um raio divino que a baptizou de Chanel nº 5, a sua maior fonte financeira de rendimento até morrer.
O seu carisma já fazia os europeus acreditar em mentiras ainda hoje tidas como verdades.
Diz-se que vestiu calças às mulheres, quando na realidade, do outro lado do Atlântico e já desde o muito início do séc. XX , Amélia Bloomer, vestindo-as de forma despudorada , já tinha rejeitado toda a moda (mais destinada à sedução e aos olhares masculinos que ao conforto feminino), imposta pelas revistas de trajes e etiquetas.
Nos Estados Unidos já se seguiam as exigências da vida prática cujo paradigma era o automóvel (só a relação moda-carro-fotografia-cinema dava um tratado em vinte cinco episódios postisticos)

e o crescente apetite pelos desportos até então proíbidos às docilidades e fragilidades femiminas.

Há quem tenha dúvidas se foi realmente ela que, ao assistir a uma coreografia de Martha Graham, em que os braços eram agitados como pás de ventoína epiléctica, primeiro cortou de forma a que, em traje semi formal ou em Alta Costura, a manga permitisse ao cotovelo ser elevado livremente até á altura da cabeça sem que houvesse abertura na zona da axila, como acontece ainda hoje nos trajes dos toureiros.
Talvez não seja mentira que as linhas do seu famoso tailleur, foram inspiradas na farda de um militar nazi de quem foi amante, como verdade foi o seu prolongado exílio na Suíça: nunca escondeu os seus anti semitismo e homofobia, embora tenha sido conviva de Jean Cocteau e Diaghilev, entre muitos outros, não propriamente fascinados pelos dotes femininos, como não desdenhou vestir muitas estrelas de Hollywood a convite dos, maioritariamente judeus, patrões da sétima arte.
Aliás colaboradores e biógrafos não autorizados por ela, não deixaram de estranhar, em mulher tão redundantemente fria, o seu entusiasmo, falado e escrito, quase descontrolado, em relação a Katherine Hepburn, bem como os seus ataques vulcãnicos à recatada Greta Garbo, tida então como amante daquela.

Mais tarde viraria os ódios ferozes para Spencer Tracy por quem a referida Katherine quase desfaleceria de paixão.
Há quem defenda que a actriz e o dandy ocioso Arthur Capel (fonte inspiradora de muitos escritores como Scott Fitzgerald) foram as únicas brechas num edifício cansado de ser publicamente bruto.
Se tais paradoxos não bastassem, também é difícil de perceber que, batendo-se pela maior simplicidade possível na roupa, chapéus, acessórios e sapatos, (com linhas extensíveis até à baixa-média burguesia), tivesse nos arabescos da Art Deco o seu movimento artístico preferido, como se vê neste pormenor da sua sala de jantar, recheada de vários dos seus objectos com estatuto de obcesssão: os espelhos.

A figura miúda, morreu sem grandes hesitações num domingo. Sempre foi o único dia que em que durante toda a vida, dava obrigatoriamente descanso às ideias. E finou-se no Ritz de Paris, capital que nunca lhe perdoou o passado.
Morreu com autoritarismo a disfarçar, provavelmente, a solidão.
Duvido que, face à obra preocupada com todas as mulheres, tivesse um coração tão superficial que fosse incapaz de sentir dor.
Mas enfim, nisto como em muitas outras coisas, em campo aberto ou no sussurro de um canto escuro, o que se lembra é tão ou mais importante do que se tenta esquecer.

Talvez a verdadeira verdade tenha morrido com ela.












Lembro-me da Lálá, uma senhora diminuta, com os ossos a tentar sair da pele, olhos fundos e imensos, carrapito grisalho e bata às florinhas para os arrumos da casa que, em tardes de estio alentejano, me punha pão e sumo em cima da comprida mesa de mármore da cozinha.

do cair da face e do acentuar dos vincos nela quando a desilusão caía como uma pedra a sepultar os já míseros dez reis de esperança. 


Posso-me lá esquecer daquela vez…as gargalhadas… a surpresa...também chovia a cântaros, não chovia?

