

E foi em Boston que conheceu uma portuguesa que remexia pauzinhos em águas paradas.E foi lá que foram escolhidas para integrar uma parte da companhia vocacionada para a dança contemporãnea, às vezes experimental. Eram quase sempre escolhidas para fazer pas-de-deux. Muito sofreu a portuguesa, mais nova, com as exigências perfeccionistas dela. Os ataques espanhóis de mau génio. A portuguesa rendeu-se à evidência quando a viu dançar o Lago dos Cisnes na maior das perfeições, técnica clássica apuradíssima, ela que já era perita na técnica de Graham. Com toda o à vontade foi subtituir uma colega lesionada.
Vem isto a propósito de ser dama de achar que tudo se deve fazer com conhecimento das origens e causas das coisas, com trabalho e investigação. Àrvore com atenção ao estado das raízes. Por isso um dia em Madrid, numa recepção formal, vestido de gala, foi ter com um senhor e disse-lhe: ay dos classes de críticos: los que escriben y los que cagan palabras. Usted recibirá muy pronto el Nobel de la segunda.Buenas noches!
Dizia ela que a criatividade ficava por conta da loucura da portuguesa. Gentileza mentirosa a dela. Mas já em Madrid fizeram-se amigas com muitas viagens e histórias para contar. Um dia a portuguesa caiu e se não fosse o improviso aliado à força cumplice e solidária daquela mão que a agarrou e aos olhos que gritaram, tinha desmaiado logo ali. Mas continuou a dançar. Só desmaiou nos bastidores. Os bailarinos só mostram todas as dores em privado. Para o público reservam a perfeição ilusória.E até hoje,a portuguesa tem a sensação que, em dias azedos, a maldita da espanhola está lá a mostrar-lhe o caminho.Aparece de repente a amparar os cansaços.

E dançou até aos 41 anos cantares de amigo e amor, poetas cheios emoções , músicos de todas as épocas.A cara com que nasceu, carismática com duas características marcantes, permitiu-lhe usar todas as máscaras. Sempre a trabalhar com tanto afinco e ilusíon que não reparou num ser gorducho que, lhe ia mandando setas ao coração. Um dia o Cupido aborreceu-se, virou espanhol e cravou-lhe uma farpa tão grande que ela até hoje não foi capaz de arrancar. Anda com ela pendurada. Ao sabor do vento. É uma farpa de extremidade vagabunda.
Agora tem bailarinos e danças a cargo, decifra mapas de movimentos e amanhã, amanhã dia 7 vai começar uma nova fase da sua vida. O sentido da responsabilidade trá-la nervosa. Como em qualquer estreia que se preze.
À portuguesa, que é babada de orgulho, apetecia-lhe esticar braços e olhos para ir até lá dar-lhe um suave empurrão nas costas para ela entrar mais confiante naquele palco que nunca conheceu. Assim manda-lhe esta flor para que os dias lhe sorriam até às portas do infinito.

Vete a la mierda,cariño!
Hasta luego!







