quinta-feira, 9 de agosto de 2007



Só te posso pedir que resistas.

Que lhe dês um pontapé até daqui a muitos anos.

Sei que é difícil,mas é duelo que tens que vencer.
Estás em boas mãos.Eles são de arma pronta a qualquer hora.Já te disse que os conheço.

Daqui a seis meses havemos de ir comemorar a vitória,tá bem,tem que ser com sumo de laranja,paciência,no cimo de uma coisa qualquer.Tu vais escolher.
Agora só te posso dizer que gostamos muito de ti.
Por isso,por aqui,te desejamos

força


quarta-feira, 8 de agosto de 2007

os esquecidos






As pessoas chegam ao átrio,
compram o programa,sentam-se na sala,dão uma vista de olhos.Esquecem-se,normalmente de olhar para os outros artífices de

sonhos:maquilhadores,costureiras,cabeleireiros,fotografos.Os que ficam na sombra dos

holofotes,os que não sobem ao palco para a devida vénia final,para receber as flores.




Conchita Prada vai-se reformar em Setembro.Não é licenciada,não tirou curso,nasceu com a vontade de emitir passaportes para a beleza,de abrir as cancelas para as personagens.






"Sienta en la silla,niña,qué me voy a hacer contigo?"E remexe naquela panafernália de pincéis suaves,de lápis,de cremes.Refilona com o seu quê de autoritarismo maternal.




"cállate!", e tira dez anos com a habilidade de desenhar o tempo.Gostava de o inventar.De brincar com as rugas,com os cansaços.Mas diz que por mais operações plásticas que se façam,nada tira a expressão da idade real nos olhos,nada disfarça o pescoço.


Acabado o trabalho,puxa,de inverno ou de verão,do seu

leque sevilhano.Abana-se:"Aún no,quieta".Fica a contemplar a obra.Tomba a cabeça para um lado,para o outro,pensa em retoques,enquanto a tela viva está até proíbida de pestanejar.

Depois chama o cabeleireiro,a seguir o fotógrafo acompanhado das costureiras que hão-de prender ou soltar um tecido insubmisso.




Quando o espelho aparece abrem-se as bocas.Ninguém se reconhece:o que é que me fizeste aos olhos?O meu nariz?A minha cova no queixo?Eu tenho a boca mais pequena.Enlouqueceste,mulher?

Conchita solta uma gargalhada.Foram-lhe contagiosas as personagens do cinema mudo.Gargalhada lançada com a cabeça caricaturalmente descaída para trás.Histriónica.


Em Setembro,arrumará a mala carregada de segredos,pequenos segredos,que bailarinos e actores nunca suspeitaram ter.
Mas o leque,esse,ficará para sempre.Carregado de abraços,com uma plateia de trinta e cinco anos de efémeros a curvarem-se na merecida vénia.

terça-feira, 7 de agosto de 2007

Eva



Às vezes passamos pelo atelier dela.Respira-se ali ambiente de paz.Sentamo-nos à conversa.Bebericamos qualquer coisa.Vamos olhando os quadros em gestação envolvidos no aroma de trabalho: tubos e frascos de tintas espalhados ao acaso,papéis avulsos deitados onde calha.Parecem alimentos abandonados.Ideias em repouso.

Sabe que não é o meu estilo favorito,que não o uso.Demasiado contido,ritmo muito certo.Digo-lhe que o meu coração tem batimento irregular,que sou viciada no gesto repentino e livre,que nunca sei o que vou pensar,que me cansa pensar.Ela,a espanholissíma Navarro ri-se,quem diria,uma portuguesa indisciplinada.Existem em todo o lado,respondo-lhe.Como em todo o lado existe o olhar sereno,sensível e atento,mesmo em Castela."Ay la gillipollas de la portuguesa ".

Mas gosto da forma como ela coloca as personagens: isoladas em paisagem sem reino.Pode ser em Madrid,em Lisboa,em Nova Iorque.Pessoas num campo abstracto.Podemos ser nós apanhados em dias de nada. Claro que nos faz lembrar um palco. Claro que as imaginamos a perderem a imobilidade.Digo-lhe:olha,Eva,aquela está com vontade de gritar.E gritamos.Se aquele ali não se mexer,vai morrer de espera."Lo qué?".Sabes que existe um mito português da espera,um messias menino chamado Sebastião?
E os olhos dela ganham brilho.Quer saber mais.Aliás quer saber sempre mais.

Depois vamo-nos embora.A inventar vidas nos traços de cor que a Eva traçou.Estará aquele ,naquela luz forte, à espera de quê?

Sei lá,de Godot,não estamos todos?







.
Se calhar... cada um na sua direcção...
sabe-se lá
o que cada um guarda escondido
na cabeça apressada...
ou parada...
apetece-te um gelado?
não, estou de dieta!
Uma vez por outra...