
Andámos à deriva por ruas,esplanadas,cafés de horas tardias à procura deles,a imaginá-los.Eles, que nos iriam sustentar os gestos,que nos iriam forrar a alma de um qualquer e indefinido abandono,que nos enchiam de palavras e especulações inúteis.
Acabámos por encontrá-los.
Estão em todos os tempos e lugares,em todas as esquinas onde o amor se vê contrariado na sua expanção eufórica de partilha.
Andam de olhos sempre baixos.Pisam o chão como se fosse alcatifado de vidro traiçoeiro.Sussurram as esperanças em bocas censuradas.Desconfiam da pretensa harmonia ancestral e melódica do mundo.Fazem parte de uma orquestra para os outros desafinada:sons que se ouvem sempre fora do tempo.Assustadores.
Mas são felizes na sua solidão enclausurada.Sabem o que os outros já esqueceram ou nunca chegaram a conhecer.Sabem que no calor de uma dança escondida pode estar toda a filosofia do mundo,a ternura de um segredo.E nasce a força nem que seja durante o tempo de uma ilusão.
Vi-os hoje,Chiado fora.Sei lá se tinham raça ou género.Ganhei o hábito,desde esses tenros anos, de só lhes olhar os passos fugidios no meio da muldidão entorpecida.
Só por isso,valeu a pena.Só por isso nos valeu a pena.




