segunda-feira, 6 de agosto de 2007

valsa dos tristes amantes



Andámos à deriva por ruas,esplanadas,cafés de horas tardias à procura deles,a imaginá-los.Eles, que nos iriam sustentar os gestos,que nos iriam forrar a alma de um qualquer e indefinido abandono,que nos enchiam de palavras e especulações inúteis.

Acabámos por encontrá-los.

Estão em todos os tempos e lugares,em todas as esquinas onde o amor se vê contrariado na sua expanção eufórica de partilha.

Andam de olhos sempre baixos.Pisam o chão como se fosse alcatifado de vidro traiçoeiro.Sussurram as esperanças em bocas censuradas.Desconfiam da pretensa harmonia ancestral e melódica do mundo.Fazem parte de uma orquestra para os outros desafinada:sons que se ouvem sempre fora do tempo.Assustadores.

Mas são felizes na sua solidão enclausurada.Sabem o que os outros já esqueceram ou nunca chegaram a conhecer.Sabem que no calor de uma dança escondida pode estar toda a filosofia do mundo,a ternura de um segredo.E nasce a força nem que seja durante o tempo de uma ilusão.

Vi-os hoje,Chiado fora.Sei lá se tinham raça ou género.Ganhei o hábito,desde esses tenros anos, de só lhes olhar os passos fugidios no meio da muldidão entorpecida.

Só por isso,valeu a pena.Só por isso nos valeu a pena.



sexta-feira, 3 de agosto de 2007

Ai,que aflição...




...que,daqui,já lhes ouço os gritos.Já me aparecem,vestidas de sossego e maresia em todos os meus pesares , cansaços e saudades.Sobrevoam-me os sonhos antecipados e sublinham-me as









rotinas já pálidas de exaustão.

Já falta pouco para que os muros se movam na direcção dos encontros,







que nesta vida a que nos obrigam a existir,são eles,quantas vezes?,que nos modelam o destino.

O tempo é relativo consoante a urgência,e,uma semana parece eterna.

Peço-me calma neste estender das horas que o mar é permanente na espera.Sempre esperou e o mundo,embora doente,não tem sinais de morte súbita.Ainda é capaz de aguentar uns tempos.

Não vou fazer o que já fiz



porque,como já toda a gente sabe,ou virá a saber,com a idade a cabeça fica mole com paciência.

Ai,ai,valha-me o fim de semana,que,vendo bem,não sou tão velha como isso.

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

A conversa



A noite vai gotejando escuridão.Ilumina-se a conversa corrida.Vão surgindo palcos e peças de teatro vivido e por viver.Fala-se como se Godot espreitasse por entre os ramos das árvores,ou o trágico Shakespeare,ou o Ionesco,sei lá...saibam os actores ainda sem rosto.

Somos estóicos na atitude de olhar a vida com riso,nós os pequenos na grandeza de existir.Sentados na plateia,vamos compondo as personagens:um bocadinho de ironia aqui,um pedaço de melodrama ali.Vagueamos por entre a sensatez e o absurdo.A vida,a morte.Apalpamos os afectos,entre a macieza da seda e a rugosidade da serapilheira tosca.Definimos os figurinos.Poucas personagens andam completamente despidas.Guardamos-lhes um pouco de privacidade:uma estratégia para abrir as portas à imaginação.
Continuamos a rir da forma mais séria.Rimo-nos até da dor da ferroada de um insecto:uma perna e um braço marcados por ferrão desconhecido."Ay qué coño, te doele a tí?"

Levantamo-nos da esplanada,escolhemos caminho vigiados pelo canto das cigarras.Fugimos dos repuxos de água imprevisíveis,brincamos com os arbustos colocados no cenário.Continuamos a falar das teias.A urdir argumentos num tribunal imaginário.Está quase delineada a peça sem fim que se veja solucionado.Ficará para o próximo chá à luz da amizade.

Despedimo-nos ao som contagiante de movimento do "no llores chaparrita,qué tu amor está en el campo...ay,ay",canção cubana, ronfenha, dos anos trinta.

Atendo o telefone:" hablaran de qué,vosotros?"
"De todo,de nada,de la vida...Yo qué sé...?"

Deito-me,vejo uma aranha a tecer a teia na floreira da janela,debaixo do foco da lua, penso que seria necessário um palco maior.Vejo-o vir da esquerda alta em direcção à boca de cena,em passo cadenciado. Sorrio-lhe.Aninho-me.E adormeço.