

Coitadinha!
Eu olho para eles. Começam a chegar em Junho e vão-se embora em Setembro. Nascem desasados, já pesados e tristes.Cheios de medos, com maus deuses a sussurrarem-lhes ao ouvido ameaças de infernos e outras desditas de carbonizar autónomas vontades. Pelo menos a maior parte. Vivem a vida como um ensaio geral para o grande espectáculo da eternidade. Não vão os sonhos tece-las.
Passam um ano a pensar em mim e na minha morada. Chegam com ar de enfado e enfadados continuam. A fazer contas. Lembro-me daqueles homens que leêm o jornal silenciosos. Dos que seguem a rapariga escultural areal fora.Dá-lhes a fúria da perda abdominal. Outros olham para o longe com olhar perdido. As mulheres dão o yogurt aos filhos, massagam as costas, com saudades da eterna noite de núpcias, aos maridos.
Mas também há as que apanham pedrinhas e outros vestígios de inocência. Riem-se muito, dizem disparates, comem choco frito, bebem vinho branco em tascas de pescadores. Ficam no meu território até o sol adormecer, saboreiam o sal à meia-noite, de corpo nu.
Viram as costas aos deuses que lhes vestiram a roupa. Cada um vive com a pele que nasce. Dizem que assim ampliam os parcos sentidos, entre a liberdade e a escuridão. Depois dão pulos, batem os dentes e riem-se outra vez como se tivessem sido acabadas de nascer do ventre da água. Quase que lhes tenho ternura, pelo peso da gravidade que as condena. Bípedes algemadas à sobrevivência.
Depois partem. Vestem a roupa para entrar em cena. Penduram a leveza em cabides. Despedem-se do mar, de mim. Fazem-se à vida obrigatória. Resistem. Fazem promessas de voltar. Cá as espero, de olhos postos no horizonte alto. Até para o ano, que se faz tarde.
E que a espera não os endoide. Num qualquer dia. Ao nascer do sol.
3 comentários:
Pois Ripley não viveu com a pele com que nasceu.
Pois não há ensaio geral sem excepção... :)
Pois voltam sempre.
Não é fácil esquecer quem mima e quem trata bem, genuinamente, neste mundo de almas danadas, a uivar por lugar ao sol em vez de lugar no céu...:)
Paz aos seus danos.
Beijos em teu pandémico core.
Pois que é melhor não fazer mais posts às segundas feiras.
Pois que fica meu "pandémico core" mais exposto a tais agruras, mais aos atrasos do metabolismo.Temos como meta banho, o mais tardar até às nove da noite,que sempre esteve fria.
Bastas vezes me lembrei de ti e dos teus tascos.Fado pescador e espontãneo.Foi a primeira vez que a Bea,irmã mais nova da C e amiga da Mar.,ouviu tal coisa.Boquiaberta com flamenco tão sereno.Os dias fazem-se assim.De pedrinha em pedrinha mais uns pedaços de madeira devolvidos pelo mar.
Hei-de voltar à praia deserta mas não áquela que à noite vira discoteca com som de matar gaivotas.A bem do turismo,dizem eles.
Silêncios e silêncios tranquilos...
the unbearable... ali. em ponto.
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