quinta-feira, 13 de setembro de 2007

duende ao virar da esquina


Pertence ao reino da noite. É cafe-cantante. Fica na volta da esquina. Começa a encher por volta das vinte e três.

Entramos e a dona, Consuelo, abre os braços . Gába-nos o aspecto bronzeado. Porque agora não estamos amarillo-pollo del hiper, (amarelo-frango do hipermercado). Sim, porque ela diz que os frangos lá da terra dela, Jaen, mesmo mortos e depenados têm algum viço. Consuelo é toda ela roliça, cabelo apanhado, rosa no decote profundo e justo.Da simbologia das cores e flores falarei noutra altura. No meio do peito luzem três medalhas com três santinhas diferentes. Cada uma com a sua especialidade. Mas santo é santo, todos eles abarcam a vida terrestre. Diz ela que é uma mulher previdente. Se alguma delas estiver distraída a protecções e pedidos, pois que lá estão as outras duas. Alguma delas há-de ouvir.

O fumo começa a nublar o ambiente. Consuelo diz que a inspira e que não há puñetero gobierno que impeça o fumo de frequentar o seu espaço. Os espanhóis são naturalmente desobedientes.

Senta-se à mesa a Mercedes, amiga da Mar. Diz que estava em casa e lhe deram ganas. É professora de história e está a fazer especialidade na Baixa Idade Média - onde é que eu já ouvi isto?- e é bailaora de flamenco quando lhe apetece. Quando o sangue lhe aquece os instintos. Em Lisboa gosta da Bica. É uma paixão. E foi de lá que apanhou um cachorrinho rafeiro sem dono. Chama-se Poeta, porque é melancólico e uiva como se cantasse fado. Falo-lhe no miúdo da Bica, o Fernando Farinha. Curiosa personagem.

E tudo se começa a animar. Sobem para o palco pequeno guitarristas reunidos pelas ganas.
Lentamente os que irão bailar mudam a expressão. Parecem bichos selvagens ansiosos pela abertura da jaula. E chega a vez da Mercedes. Muito direita a três-quartos, estende o braço e dedica o baile à portuguesa de Lisboa. Eu digo que parece o Mao Tze Tung e levo, por baixo da mesa, um pontapé histórico. E começa, animal ferido no meio da selva de amores traídos. Castiga o corpo quase demente.





Começa o jaleo, traduzindo, palmas e exclamações .

Depois regressa à mesa. Suada, com sensualidade felina. Bebe de uma vez só um copo de sangria. E bate com ele no tampo da mesa. O sangue demora a esfriar. Para acalmar uma senhora de provecta idade canta a palo seco, à capella. Segue-se intervalo para o gazpacho com gelo em tijelas de barro, como Dios manda e umas tapas. Nem as ventoínhas coloniais de tecto arrefecem o calor.Um americano pede à Mercedes que case com ela. Faz o relatório das posses no Texas. Ela diz-lhe que por el..........., a la ............madre e por fim a.........( aprendi esta forma com Mi C. lá no comentário). Ele não percebe mas sorri na ingenuidade da bebedeira.Sim que ali não é nenhum putíclub.

O duende, sentimento indefinido, contagioso e mágico com origem, pensa-se nos rituais a Dionísio, já está instalado. E lá sobe outro bailaor, Lozano, violinista numa orquestra que anteriormente já me tinha explicado o sistema de afinação da guitarra flamenca, sistema árabe, coisa que não fixei a não ser que é parecido com o alaúde. Toda aquela loucura espontãnea adormece a aprendizagem. Fico-me pelo sentido e imediato.


Dedica o baile a alguem doente e, do alto dos tacões, transpira a dor de uma perda, de um amigo, sangrento como ele, que partiu para terras distantes:

El barco se hace pequeño quando se va en el mar...../ a la hora de partir me duele el alma....quando un amigo se va....

chora com o torcer do corpo, calca a tristeza, mais uma sensualidade desbragada sem tento nos nervos e

já são seis da manhã. A adrenalina colectiva esgotada pede um chocolate quente com uma rosquilla no café ao lado. Despedimo-nos. Até Lisboa , ali para os lados da Bica com o Tejo ao fundo.

Vejo no duche que tenho uma marca vermelha na perna. É para aprender. Válha-me Santa Guadalupe ou outra qualquer que esteja desperta áquela hora.

7 comentários:

Emma Larbos disse...

Cara Lizzie, espero que a Senhora negra de Guadalupe, ali para as bandas de Cáceres, lhe tenha já desfeito a negra nódoa da perna!

Bela crónica madrilena, onde ficamos a saber que as medievalistas espanholas têm vidas paralelas quando lhes salta o pé para o flamenco.

Também gostei dos olhos da sua gaivota no post anterior. Tinha uma expressão vagamente familiar...

Lizzie disse...

Pois que em Cáceres me caiu no goto a Plaza de San Mateo. Que quer? Sinto-me intemporal no meio de tanta pedra antiga. E a minha nódoa negra não será nada ao pé das memórias de uma antiga prisão que lá está.Noutro sítio de que não me lembro o nome.
E em Cáceres realiza-se todos os anos um festival de flamenco. É melhor eu não ir a este, porque... coitadas das minhas pernas com tanto disparate que me sai boca fora.
Saiba que tal medievalista, apesar de amadora (no flamenco), já tem reputação.Imagino-a sempre a decifrar gatafunhos em livros sépia-terra-de-Siena-queimada e a bater o pézinho. Mas olhe que se fôr com aquela força fogem os caracteres livros e bibliotecas fora. Credo, valha-nos a Macarena!
Mas olhe, que antes de lhe entrar o frenesin explicou,se bem ouvi no meio da algazarra, que os portugueses do sul são tristinhos como o Poeta porque aqui estiveram uns árabes de uma tribo e em Espanha são alegres, desobedientes e guerreiros porque eram de outra estirpe. Fiquei com as orelhas espetadas. Tenho que perguntar tal coisa a uma amiga que entende dessas coisas.Mas tem que me explicar como se fosse um conto infantil porque eu ando um bocado obtusa.
Ai Carríssima Emma as gaivotas, as gaivotas...

Abraço

Anónimo disse...

Uma vez assisti a essa loucura. Contagiante.
Sensual.

Contigo voltei lá.
Que calor.




Um abraço

João F.

nnannarella disse...

As tuas histórias, ou talvez o modo como as contas, fazem-me lembrar aqueles rios que lá têm tantos e tantos salmões a viver, que se pode andar a pé sobre as águas.

Sempre Arcanjo, de espanto e de prodígio. Desde o dia em que surgiste de Greta e Garbo.


Foi mesmo como se lá tivesse estado.

patricia highsmith disse...

Manda-me o seu Anjo agradecer-lhe pessoalmente os oiros rasgados que teceu sobre mim, em Positano.

Já estou em parte incerta, pois que olho em volta e não sei se estou entre anjinhos ou diabinhos, mas as minhas sete vidas felinas não deixam escapar nenhum sopro que por mim sussurre...

Mais me pede o seu Anjo que lhe diga, que por via de ter de ir à escola dos demónios, azuar-lhes a cabeça, não pode cá vir hoje, mas que a misoginia está correctíssima, se lhe tirar o acento. Diz ainda que a testa se lhe iluminou com os romances tempestuosos daquela de quem falou, que imagina o que será ter romances tempestuosos em lugar tão belo, mas que por via da sua condição angelical, nada mais pode fazer senão imaginar.

Pela minha parte, a minha alma gozou de frémitos etéreos ao ler este seu nocturno, onde nem faltaram cadáveres, mesmo que de frangos se tratassem, onde a cor dominante era a do sangue e onde o sagrado e o profano se entrelaçam perversamente, à boa maneira de Almodóvar, que foi meu discípulo, com mais sentido de humor, folclore e cores mais quentes.

E assim me despeço, grata, e agora admiradora aqui no céu e com pena de não o ter sido lá na terra.

mr. ripley disse...

Falei com Madame Lizzie, a propósito do sítio para enterrar frangos suspeitos de sofrerem de espirros crónicos e cirrose natalícia,mandam os tempos que se prescinda de perú por via do controlo orçamental, e mandou-me ela agradecer as laudas que aos seus relatos se referem. Madame Lizzie foi encomentar ida a Madrid para ver a exposição da outra filha da minha criadora,Paula Rego, que está enterrada por baixo das minhas perversas rosas da mais elevada estirpe, sendo os quadros mais recentes magníficamente falsificados por um doente de doença de diagnóstico incerto.Por agora me despeço porque o gato persa que me custou 15000 dólares e é descendente em linha recta do sagrado gato de Tutankamon (desculpem-me mas também sou disléxico em evolução continua)a rir para dentro, jurou que me vai denunciar à Interpol ajudado pelo elefante que está farto de andar em pontas no circo.

A todos Madame Lizzie agradece sentada na sua sala Laura Ashley tomando o seu chá de cultivo exclusivo.

Lizzie disse...

e face a isto resta-me esclarecer que Paula Rego está viva e de boa saúde e que lhe seja longa a vida e talento, que as paredes da minha casa são pintadas de branco e que estou a beber chá de saquinho comprado no Carrefour. Tenho é dúvida se sou pessoa ou fantasma,hoje que é segunda feira e o gel de duche me parece cheirar demasiado a rosas principe negro.

Esclarecimentos feitos, uma boa semana para todos.