quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Um violoncelo chamado Passarinho



Ainda a memória da carícia da água nos forra os dedos quando nos sentamos na sala, Madrid a sussurar o fim da tarde.

Pomos o concerto para violoncelo e orquestra em B menor,adagio ma non troppo, de Dvorak.

A orquestra está sentada ali. Vai falando,entretida.

O violoncelo, tímido, surge na porta. De repente reconheço-o. Gestos tímidos, quase lãnguidos. Corpo trágico e narrativo. Olhar triste como são quase sempre os olhos grandes. Mãos no rosto. Acorda de um pesadelo chamado Inês, conhecido como sonho. Tráz o cabelo solto. Acentua-lhe o movimento e o dramatismo.

Digo-lhe que é a Ana Lacerda feita som.

No evoluir surge uma flauta.É Mi C.,que não será mulher de som agudo mas, com tal versatilidade que sempre teve,terá todo o prazer de apoiar os revezes a que o violoncelo está sujeito.É um som, aqui, cordato.

E, ali no meio da sala, quando toda a orquestra surge com a violência dos metais, o violoncelo justifica-se em pontas, , tronco inclinado para a esquerda, braços ondulantes como ramos de uma árvore que aspiram à fuga. Uma Giselle em súplica.


Depois,mais à frente, senta-se num banco de jardim,mal-me-quer-bem-me -quer. Parece uma criança, um Passarinho a tentar agarrar,ou não deixar fugir,os sonhos arquitectados no amor.

Muito discretos os violinos ,quase nem se dá por eles, apoiam o monólogo do violoncelo em gestos circulares. São os meus braços, ali de cabeça baixa, sentada no sofá cor de pano crú.

O violoncelo dirige-se para o umbral da varanda, jardim suspenso. Até os metais se amainam face áquele som rasgado que vira, a cabeça para trás. A flauta brinca com as folhas da pequena buganvília. E, depois de mais um gesto de lamento, o violoncelo vai pelo chão da varanda, move-se arrastando-se, cabeça ora caída para trás ora para a frente, apoada num clarinete que me parece ser o Mano R.

Parece que desaparece na folhagem. Mas não. Olho para fora e vejo um avião brilhar,muito muito lá no alto, no céu onde o sol se despede quando na terra já o crepusculo se instalou.
É o violoncelo acompanhado de um rasto branco como uma linha. Parece-me a flauta.

Vão juntos porque quer uma quer outra hão-de ser visceralmente bailarinas mesmo para lá da eternidade.

"-En qué direccion se van?"

-pues al futuro..."

-qué tontorrona es mi Élis!"



E faz-se noite em Madrid. E em Lisboa. E em qualquer sítio onde as mãos se abraçam.
Seja qual fôr o nome da dança.
Ou a forma.
Ou o som.

11 comentários:

Lizzie disse...

É delírio frequente "ver" pessoas,animais,paisagens, situações associadas a sons.E,movimentos e expressões. Acho graça.
Já agora que estou com a mão na massa,mais digo que há uma outra música que me faz lembrar a referida bailarina Passarinho:um Nocturne de Tchaikovsky.Também para violoncelo.Que nem uma luva.

E,pronto,Nnanna,foi assim que me lembrei de Mi Cosita.

Para ti,deixa-me cá pensar...por acaso há uma do Carlos Paredes mas agora não me lembro o nome.Faz lembrar o voo de uma cegonha ou gaivota.Ou a duas.Barquinho no mar...

Emma Larbos disse...

Cara Lizzie, que Deus nunca lhe falte com as visões, que as visões são coisas com que podemos viver a vida toda embevecidas. Mais se forem feitas de sons e de desenhos de pés a voar como cegonhas sobre as torres e as portas com que se abre a noite e as mãos a fantasias.
Um dia destes tenho de ir ver Su Cosita...

nnannarella disse...

E já é larga noite em Lisboa.

Como larga e tão doce, docemente sóbria a voz e a forma do violoncelo, Man Ray à parte...

E Tu Cosita,Passarinho, só pode ser sereia antiga, das verdadeiras, daquelas de cujas escamas de oiro não se cansam poetas e povo de cantar. Ou porque odiles ou porque anjos. Escamas escamas de histórias de encantar.

E tu Soberba de e em as contar. E eu Soberba de as encontrar.

Troppi e troppi deles.

Lizzie disse...

Descanse cara Emma,beba um copo desta fresca água que aqui tenho,nascida perto de Toledo, dizem até que cura os males da alma.Para ter tantas visões devo dela ter bebibo,quiçá ainda no ventre de minha mãe.
Tive até uma de si ao ouvir uma ária:voz feminina acompanhada pelo veludo do violoncelo da autoria do Villa-Lobos e pertencente às bachianas brasileiras.Liga com as suas pílulas.


Ai que há Anjos poéticos e soberbos infiltrados em noites largas.Ai que houvem cantos de sereias com visões adquiridas nas escarpas de Napoles,ai que daqui não resisto a pôr as mãos em concha e gritar:


Oiros e oiros deles

Lizzie disse...

Errata Ulisses:

Até eu sei que não se escreve Houvem mas sim ouvem.
Com tanto espanhol lido e falado devo estar linda de ortografia...

A. disse...

... doce.decente.mente e sem
sono. voltarei...


... quero deixar-te alguns sons
em tom de comovido agradecimento.







... palavras assim?
não sinto que te mereça.
obrigada, Eli.



[... e o mano R. virà ler,
com toda a sua doce atenção.]

________________________________...




grande abraço.meu.

Lizzie disse...

Pois Passarinho eu é que agradeço.
O público é que agradece.


Muitos beijinhos para ti,para o Mano R. e para vocês todos.
Que corra tudo bem,se possível,nos próximos tempos e direcções.

Abraço


ps.tu não me fales em sono que esta semana tenho andado com um olho aberto e outro fechado.De manhã só penso em cama e à noite fico às voltas nela.Maus hábitos.

A. disse...

... são os meu também, Eli. maus.



e alguém me diz que vivo
fora de todos os timings





... sou fora. tão fora.

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"Creemos, sin embargo, que el saber y el entender pertenecen más al arte que a la experiencia y consideramos más sabios a los conocedores del arte que a los expertos, pensando que la sabiduría corresponde en todos al saber. Y esto, porque unos saben la causa y los otros no. Pues los expertos saben el qué, pero no el porqué. Aquéllos, en cambio, conocen el porqué y la causa. Por eso a los jefes de obras los consideramos en cada caso más valiosos, y pensamos que entienden más y son más sabios que los simples operarios, porque saben las causas de lo que se está haciendo; éstos, en cambio, como algunos seres inanimados, hacen, sí, pero hacen sin saber lo que hacen, del mismo modo que quema el fuego. Los seres inanimados hacen estas operaciones por cierto impulso natural y los operarios, por costumbre. Así pues, no consideramos a los jefes de obras más sabios por su habilidad práctica, sino por su dominio de la teoría y su conocimiento de las causas. En definitiva, lo que distingue al sabio del ignorante es el poder enseñar, y por esto consideramos que el arte es más ciencia que la experiencia, pues aquéllos pueden y éstos no pueden enseñar. "


( Metafísica, Aristóteles )



...um grande beijo.

Anónimo disse...

É desta fibra que se fazem os grandes criadores.

Com tanta gente armada em coreógrafo...cheia de peneiras!

E tu...


Grande abraço



J. Fazenda

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