quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Los festivos






Não sei se chego tarde ou cedo, à cidade que se esquece de dormir, sei que a esta hora Lisboa é um silêncio interrompido por um ou outro fugidio de olhar vago, cansado e mãos nos bolsos ou no volante, de qualquer forma com imagem de errância na tristeza.


Em Madrid, são cinco da manhã, (quatro em Portugal), ou melhor, da noite e ainda há quem , na rua gelada, cante e dance, renascido no poder da lua.








É tempo de loucura , agora com pretexto festivo. Já passou o Natal, com tradições parecidas com as portuguesas. Los belenes (presépios) são tradição obrigatória, assim como os retratos de família, como este que don Argimiro me mostra, escarrapachado no jornal, ou não andasse a casa com propensão para o desarrumo:




Nem pode faltar o puñetero yate, onde o rey se passeia Comporta e Baía de Cascais fora. Dizem eles, que eu nunca tive o prazer de ver a real navegação de perto.


E chega o dia 28 de Dezembro, dia dos Santos Inocentes, aqueles que Herodes mandou degolar, à procura da garganta de Cristo.




Equivale ao dia das mentiras da restante Europa e afins. Também me pregaram, los mios, partida de pouco estrago, sabendo que não sou receptiva a tais práticas. Doña Pilar enviou-me rosquilla com forma que me escusei de fotografar, tal era o hiperrealismo da figura. Talvez memória do defunto esposo. Sabe-se-lá da vida de cada um... e quais as grandiosas paisagens inspiradoras...

Um jornal publicou a gravidez da Rainha Sofia, outro a saída de Espanha da União Europeia. Se a primeira lembrou os cidadãos dos hábitos do dia, a segunda deixou muita gente eufórica.


Com la nochevieja chega a tradição de só se pregar olho quando o sol já vai alto. Dá azar para o novo ano ter sono no escuro. Da varanda de casa ouve-se e vê-se o imenso turbilhão. Entra pelo interior dentro. Invade todos os recantos em forma de voz falada , cantada ou buzina, que até os carros se esquizofrenizam.






E é agora, nestes dias até à noite de Reis que continua em força a febre das compras. Eles oferecem as prendas a familiares e amigos no dia de Reis. Temos que as pedir e prestar contas do bom comportamento às três judiciais criaturas. O Santa Claus com o seu riso de ho-ho-ho, não tem ali muito público. Não é conhecido em nenhum escrito anterior ao séc. XIX, nem consta de nenhum presépio. Os espanhóis são, nestas coisas, fiéis à história, conservadores. Há até quem o represente , chegado às castelhanas terras , neste estado:





Coitado, não é preciso chegar a tanto.



É tradição comer-se o roscón de reyes, parecido na forma e conteúdo com o nosso bolo rei. Para eles é obrigatório o enfeite de frutas cristalizadas, simbolo dos rubis e esmeraldas que ornamentavam as vestes orientais das reais criaturas. São também símbolo da riqueza que se espera para o novo ano. Não sei se tem a mesma simbologia em Portugal, mas com os ordenados, em média já a passar da duplicação dos nossos, é capaz de não ter.


No dia 7 de Janeiro, volta-se às lides normais. Dorme-se mais um bocadinho, mas pouco mais, como disse uma bailarina belga que, contrariada, lá trabalha. Chamou-lhe cidade seca, ruidosa, desordenada, doida, com pressa.

Prefiro considerá-la uma cidade onde toda a gente tem a ousadia de fugir à morte, com a ilusão de todos os dias a enganar. A cidade onde todos os dias, mesmo no silêncio monumental, se tem a oportunidade de viver mais um bocadinho. Há uma certa loucura que tem o dom de ensinar. Seria um desperdício não aprender.






15 comentários:

Emma Larbos disse...

Fui um pulinho do Quénia a Madrid, não? Estas companhias aéreas de hoje são duma eficiência!....

E a influência orientalizante espanhola continua a fazer dos reis a festa mais importante.

Ah! E hás-de dizer-me, cara Lizzie, como conseguiste (e a quanto montou) o patrocínio da Fnac patente na quinta fotografia. Também ando a precisar de uns rendimentos extra, que o meu patrão diz que este ano os aumentos ainda não vão ser acima da inflação.

Lizzie disse...

Ai Mi Emma, que avião tão esquisito que eu apanhei, vê lá tu que nunca tirou as rodas do chão numa pista que não paga portagem e a comer combustível mais barato, deve jorrar o dito, cá para mim, das terras andaluzas.
Consegui o patrocínio botando-me à porta da dita multinacional com um cartaz a dizer trabalho em Portugal e logo se comoveram e até me venderam uns devedês a um euro e meio e uns livros a três e a cinco. Nem foi preciso mostrar-lhes que uma pessoa com a minha profissão ganha mais 200% porque eles já sabem. Deve ter sido o Rei que lhes disse.
Quando lá voltar, estou a pensar ir para a porta do Carrefour ou do Sol com a percentagem de aumento que o meu patrão me vai dar. Só espero que não me obriguem a fazer publicidade ao fuet que é o chouriço mais horroroso que conheço.
Tu podes tentar o Urende ou o Corte Inglês.
Nem precisamos de falar porque eles também já sabem que somos muito calados além de bem educados. E nem sequer "pobretes mas alegretes".

Haddock disse...

lizzie, ainda bem que sobrevivestes à barafunda queniana e que vos encontrais em terras de brandos e sorumbáticos costumes.
é certo que os vizinhos têm mais encanto. aqui que ninguém nos lê, confessamos que em espanha até nós toleraríamos a quadrinhola asteriscal... malfadado cinzentismo lusitano!!
e que visão essa a do pai *asterisco* em slips e em proporção sancho pança...
e a rosquilla da doña pilar está primorosamente fotografada na descrição que fizésteis.

vénia...

Emma Larbos disse...

Lizzie, fico-me com o Carrefour. O El Corte Inglés - pelo menos em Portugal - é demasiado possidónio para o meu gosto.
É pena não podermos propor aos nuestros hermanos um patrocínio global. Mandávamos escrever no mapa, por cima do nosso rectangulozinho "Espanha-Filial" e eles pagavam-nos uns ordenados como pagam aos deles. Só que eles já disseram várias vezes que não nos querem nem dados, quanto mais pagando!... E pensar que já houve tempos em que transaccionávamos rainhas de um lado para o outro da fronteira com proveito mútuo...
Onde será que isto começou a correr mal?

Lizzie disse...

Pois aqui vos digo, Capitão, que depois de alguns anos a lá viver a quadra "asteriscal", a deste lado nos parece de enterro.
Doña Pilar cumpre nestas esculturas efémeras em massa de rosquilla uma tradição da natal terra dela: dá sorte e torna a terra fecunda. Para os homens do prédio, o presente é o oposto. Achamos graça à sobrevivência destes rituais pagãos no meio da pudica cristandade.

Continência

Lizzie disse...

Boa ideia,Mi Emma, sobretudo agora que o dito acabou em Portugal.Até fico com pena, que os quase monopólios nos tiram a opção de escolha.
E também grande ideia essa da filial, mas tens razão: eles não nos querem a não ser para passar férias e comer "bacalau dorado", ou seja à Brás.
Em algumas coisas até nos mandam os restos. Vê lá tu que sou compradora de uma revista que vem sempre com interessantes suplementos e que cá é vendida com dois meses de atraso e sem apendice algum. Tenho a sorte de a mandar guardar lá. E quem não tem?
Enfim...

Emma Larbos disse...

Quanto à rosquilla, ora aí está uma coisa que temos em comum. Em Amarante, S.Gonçalo é celebrado com uma cavaca com a mesma fisionomia (só a masculina). Dizem que é por ser casamenteiro de velhas mas isso é treta. Não só porque a associação do santinho aos casamentos das velhas tem uma uma tradição tardia como porque as ditas cavacas são evidentemente sobrevivência de cultos agrários muito anteriores à existência do santinho. Uma vez ofereceram-me uma e era tão perfeitinha, tão perfeitinha (e de tão generoso tamanho) que a guardei por mais de um ano congelada. Era um regalo para a vista e dava pena comer.

MGB disse...

As cidades são turbilhões, verdadeiros desafios para olhos penetrantes. Também gosto de olhar para elas, mesmo de longe que, aliás, é como se vêem melhor algumas das suas várias dimensões. Claro, a presença no terreno é indispensável à percepção do invisível, momentos e movimentos que não se mostram ao olho nú, mas estão lá, a pulular. Um gosto para mim visitar esta à boleia no teu olhar.
Fim-de-semana retemperante para ti.

Lizzie disse...

Mi Emma, pois eu vim a comer a minha rosquilla no avião rodoviário. Tão grande que serviu de refeição acompanhada da limonada, que é coisa que muito se bebe em Madrid, da lavra de Don Argimiro.
Se fôr lá no Carnaval, devo trazer outra, esta, por tradição, com enfeites. Talvez a traga para a repartir contigo. Doña Pilar é generosa na quantidade.


mgb
por acaso acho que Madrid é das cidades que se conhecem vivendo-as.
É filme cheio de ricas personagens abertas no seu modo de ser e falar. Só tenho pena de não lhes poder reproduzir aqui a riqueza dos gestos e das entoações de voz.
Hoje já falei de mais um. Penso falar de mais alguns.

Vou ver se ponho o sono em dia, ou melhor se acerto as horas.

Bom fim de semana também para ti.

nnannarella disse...

poije... je... je...



jestô cumacadela de xôno quenemtedigonadacarago!

poisjeudigoqu'afestaéondeojasmigojestãomailasCadelinhas!porénhe... arcanjoLindo

que fejtas lindas nos constastesS!!!!

Lizzie disse...

Ai Nnanninha do meu coraxão queme quereis vesga axim a xeparar palabras carago.
Oh xenor de matuzinhoz, oh xenôra da buoa hóra....

dá cá um xicuração...

Frioleiras disse...

tb lá estive...

ADORO

Madrid..........

Frioleiras disse...

tb lá estive...

ADORO

Madrid..........

Lizzie disse...

Também eu, Frioleiras!
Vivi lá uns anos e não me arrependo.
E volto lá sempre com a sensação de não ter de lá saído.
Talvez se chame a isso raízes.

Obrigada pela visita.

Anónimo disse...

necessario verificar:)