segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Soberanas vaidades e afins




Esta vistosa criatura é Luis XIV, enquanto Sol.

Além de outros gostos tinha paixão pela dança, fazendo-se sempre bailar como Sol ou Apolo. A duração da dança, , chamada de Ballet de la Nuit, e a que corresponde a gravura acima era de treze horas. Foi criada por um italiano chamado Giovanni Baptista Lulli, mais conhecido, depois de ter abandonado a pátria por não lhe serem concedidos poderes sobrenaturais, por Jean Baptiste Lully. Quando se tornou superintendente da música real, tomou a soberba decisão de despedir todos os funcionários italianos. A corte tinha ouvido para o estilo italiano, ele queria-o francês, apoiado na Real vontade.

E, fez saber que foi sobre sua influência que Luis criou a Real Academia de Dança, instituição que viria a ter extraórdinária importância na génese do que é hoje conhecido por Ballet Clássico. Pela primeira vez, na dança, se percebeu que para se exercer bem uma função é necessário ser-se profissional, ou seja, perceber do assunto, trabalhar e receber salário por isso.

Também foi aqui , e por autorização real, que as mulheres foram autorizadas a mostrar os seus dotes dançarinos. Até aí eram os homens a desempenharem os papéis femininos. Ninfas e musas. E foi também aqui que se inventaram e começaram a desenvolver posturas e passos ainda hoje utilizados, como o fundamental en dehors, mais conhecido pelos leigos como o dez-para-as-duas, ou, como se diz em Espanha, la marcha de pato. Ora vejam os pézinhos para fora





tão responsáveis por dores e lesões desde antanho até ao correr dos nossos tempos mais os que hão-de vir. Tal viragem começa na rotação para o exterior da anca , desce perna fora até à extremidade, passando pelo sacrificado joelho.

Foi também aqui que se iniciou o léxico técnico. Daí que toda a linguagem balética seja em françês. Nunca se conseguiu que tivesse outra língua, embora se tentasse.
E foi também aí que surgiram os cenógrafos, figurinistas e músicos em nome individual. Até aí, vários artistas botavam ideias para uma mesma cena e era grande a confusão. O homem do leme na unidade dramática foi Molière.

Toda a corte, tivesse ou não jeito era obrigada a dançar. O mesmo Molière, explica numa carta, que os desastres militares, económicos e mesmo, subtilmente, sexuais, se deviam aos falhos não saberem dançar em condições. Fazia parte da etiqueta social de então adoptar, mesmo a falar da meteorologia, poses com a dança conotadas. E o cumprimento de bons dias, tardes ou noites não dispensava um vasto leque de salamaleques, todos eles rococós de elegância.







E foi aqui parar o considerado melhor bailarino do século. E o mais vaidoso. E o mais intriguista. E o mais bajulador para quem de interesse.

Chamava-se Gaetano Vestris, florentino aterrado em Paris.





Através de maledicência e segredos de alcova, conseguiu varrer os mais directos concorrentes, ou seja, os bailarinos principais da Real Companhia. E instalou-se.

Modesto, dizia que só havia três homens grandes na Europa: o rei da Prússia, Voltaire e ele próprio. Quando uma vez foi descuidadamente pisado por uma dama disse-lhe que acabava, com tal falta de atenção, de pôr Paris de luto durante quinze dias. E não aceitou o sucesso de um dos seus vários filhos, dizendo que o tal tinha tido a sorte de o ter como pai, ele não era pai dele próprio, portanto era superior ao tal filho Auguste. Silogismo rudimentar. Dizia de si ser o Deus da dança. Filho directo de Terpsicore.
E a lista não acaba. Recomenda-se a vaidosos ou infiltrantes no jet-set com falhas de imaginação.

Estabeleceu, ainda, as regras de comportamento que qualquer bailarino devia ter, dentro ou fora da dança. Felizmente, tal receituário teve efémero prazo de validade. Tinha como pressuposto aquele je ne sais quoi entre a frivolidade e a altivez.

Dizia ainda que tinha sido o primeiro a mostrar o seu apolíneo rosto na função (até aí usava-se máscara para ilustrar os sentimentos). Contestam os historiadores dizendo que, de facto, foi uma mulher, Marie Sallé, ao interpretar a história de Pigmaleão, em Londres.

Bom, o rapaz, conseguiu, de facto aliar a desordem gesticular e expressiva da Comedia Dell´Arte italiana à disciplina da dança francesa. Para além de ter inventado, em feto, a pirouette. Aliou a emoção ao virtuosismo. Justiça lhe seja feita.

Não espanta que, por esta aliança, Leonid Jacobson, coreógrafo russo , tenha escolhido Mikail Baryshikov para homenagear Gaetano. Sublime bailarino e ao que consta, sem ilusões de divindade.




Com o pôr do Sol e o cansaço do público, Gaetano, foi, desiludido com o crescente ateísmo das almas, para Viena. O céu da dança em Paris ficou nublado e em Milão, mais discretamente, um senhor chamado Carlo Brassis, lá foi montando todos os principios da técnica de Ballet tal e qual a conhecemos hoje.


Provávelmente Vestris foi pisado por Deus e na sua cabeça ainda hoje o Universo está às escuras, em profundo luto.
Raramente as vaidades se perdem, só se transformam.

14 comentários:

nnannarella disse...

Meu Arcanjo Lizziel-Sol, mais outro historial em piruetas para nos pôr de cabecinha às dez para as duas, a olhar os astros e a pensar nas tantas maravilhas deste mundo e do outro.
Não sabia nada do petulante florentino, mas os florentinos (e em geral os toscanos) são assim mesmo, petulantes e soberbos, também da sua pronúncia que dizem ser a mais correcta do itálico linguajar, pois descendentes directos da divina tríade Dante-Petrarca-Boccaccio (este último, ao contrário de Lulli, nascido em Paris, mas com vida e obra feitas na Toscana). E olha, soles e piruetas deles!:)

Lia Bettencourt disse...

forte surpresa ao descobrir este blog. principalmente pelo tema e pela forma "desanuviada" com que é tratado. não escondo paixão profunda pela dança (do balleticismo e outras artes).

com a certeza que voltarei

Lizzie disse...

Meu Anjo, falas-me em Florença e lá me estou eu a lembrar de mais histórias da Graham e seus arredores, ou seja, nós enquanto das ideias dela vassalas.Vassalas a soldo, claro, que a nossa cabecinha sempre se manteve crítica como já sabes e já aqui fiz eco.
E tens razão:aquele público é arrogante.
Talvez no próximo postal(como diria o Capitão) fale disso.
E olha, aberturas e aberturas de espírito deles.

Lizzie disse...

Lia:
obrigada pela " forte surpresa".
A história da dança é tão complicada, se calhar como as outras histórias todas, que só com desanuviamento se traga.
Este período foi fértil em nomes e vaidades. Cada cabeça sua sentença a tentar erguer-se na fama mais alta que as anteriores. Guerras imensas que davam folhetim.
Faltou falar de Giulio Mazarini, um cardeal que se dedicava a organizar festas dançantes, alta figura do jet-set da altura, e das rivalidades entre as duas principais bailarinas da época. Odiavam-se de morte.
Talvez um dia destes fale delas, de Catarina de Médicis e de Elizabeth I, duas que se fartaram de empurrar a dança para o que foi a história futura.
Volte sempre.

Haddock disse...

interessantíssimo, lizzie!!
nunca como agora demos tantas graças por não termos vivido esse iluminismo culto e polido. seguramente que paris ficaria de luto por, pelo menos, um ano à conta do nosso desastroso desempenho balético... (mais sorte teríamos na comédia da arte...)
é claro que sempre podíamos deixar a vida mundana de salão e jacobinamente conspirar a revolução...

que giro...

vénia....

Anónimo disse...

Absolutamente espantoso!!!




Devias ser professora!





Beijos




P.

Menina_marota disse...

Um tema tão sério e pesado escrito de uma forma tão leve, que se tornou encantador.
Parabéns. Adorei ler.
Um abraço e feliz 2008 ;)

Anónimo disse...

Ler o que escreve e como escreve é ganhar asas para um país distante.







Anseio conhecer os seus passos.





Mas tardo:(

Lizzie disse...

Capitão, também nós não gostaríamos de ter vivido em tal época. Já pensaitéis o que seria para nós andar sempre a dançar sem tirar FÉRIAS?
Além disso lembramo-nos sempre da piolagem debaixo da cabeleira pois que ainda não havia Quitoso, da sífilis pois que ninguém conhecia o lado bom do bolor, e do pulguedo pois que ainda não havia Frontline para canídeo e felídeo.

E se pensais que com a Revolução se acabou a dança, tirai daí a ideia.
O ar jacobino, com a barba que tendes deve-vos ficar bem. Para não falar do boné. E o cigarrito dá-vos um ar clandestino.
Continência.

Lizzie disse...

Oh P., viraste sádica, foi?
Já te estás a rir enquanto eu tremo?
Se eu fosse professora tinha que dar récita ao final da tarde, senão, minha filha, à mais pequena falta de respeito à balética autoridade ia tudo corrido à dentada.


Beijinhos

Lizzie disse...

Menina Marota (que nome tão giro), obrigada pela visita e pela simpatia do comentário. Um bom ano também para si. Mais um abraço retribuído.

Lizzie disse...

Anónimo:
Como não sei quem é só me resta dizer:

Eu tardo
tu tardas
ele tarda
nós tardamos
vós tardais
eles tardam

Anónimo disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blogue.
Lizzie disse...

É triste ver-me obrigada a apagar ordinarices e insultos a mim e a quem muito gosto.

Isto não é sítio para intrigas, nem para diz-que-disse nem arredores!


Comporte-se como uma pessoa adulta. Tenha, ao menos pena de si e dê-se uma fatia de dignidade.

Espero que seja a última vez que isto acontece.

Trate-se.