sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Amizades bostonianas



Foi quase uma inversão de papéis.

A história vai do último terço do séc XIX até ao final dos anos vinte. Enfim, mais ou menos.

Com forte influência inglesa, vivia-se até então em Boston, e estamos a falar da média-alta burguesia, na mais completa vacuidade dos dias. As damas dedicavam-se à família e a receber; os cavalheiros geriam os negócios, frequentavam as casas de passe e os clubes encharutados de rigorosa selecção por nome e estatuto. Tanto elas como eles mudavam de traje dez vezes ao dia consoante o ambiente e ocasião que iriam frequentar. Assim mandavam os livros de etiqueta, que sempre achei de deliciosa leitura, sociológicamente falando, também pródigos em frases feitas adequadas a cada circunstância. Proper or not proper, there´s the question.

As damas recebiam em suas casas, rotativamente, e era moda o prenúncio dos blogues: cada uma tinha albuns com recortes de jornais e as demais comentavam a selecção entre goles de chá e dentadinhas nos scones. As notícias de crimes eram as preferidas.

Também era moda receber, como criadas, presidiárias em liberdade condicional, e comentar-lhes fisionomias, hábitos e modos em presença viva. Discutia-se socialmente psiquiatria como se fosse assunto de estar calor ou frio. Não admira que muitos cutelos saíssem da cozinha e fossem viajar até aos senhoriais aposentos. Houve até uma faca de trinchar que voou oito vezes.

Talvez inspiradas pela florescente economia ou pelo aprofundamento da arte de bem coleccionar e comentar, algumas, mais novas, começaram a querer aprender as causas das coisas para melhor opinar. Também bateram o pé contra casamentos combinados ao dólar. Fartas da função apática começaram a querer trabalhar. A estudar. Saíram da casa de família e juntaram-se em casas que repartiam consoante a sua vontade de futuro. É aqui que entra a designação de amizades bostonianas, conceito divulgado e expandido pelas revistas de moda. É engraçado que, pela primeira vez, também se promovia a vida ao ar livre. Salões fechados fora, rosetas nas faces. A palidez tuberculosa morria com os espartilhos. Arejado funeral.





Fundaram editoras para a nova literatura assinada com nome próprio de mulher, já que até aí, eram frequentes as ousadias mas com pseudónimo masculino. Livros de descarada componente sexual, acerca do desejo activo feminino, crítica social mordaz e satírica e vida do tempo em geral. Algumas chegam a lembrar o fino corte do Eça.






Voltaram-se para as artes e retrataram novas, mais seguras e afoitas expressões



(este de Sarah Wyman Whitman)


( e este de Lilian Hale)




Muito espernearam os mais conservadores! De forma inútil porque entretanto esse motor de libertação que é o poder económico, delas, tinha crescido. Largados os paternais tutores das heranças, eram muitas as que geriam os negócios. E muitos homens até talvez concordassem, mais ou menos, com a frase inscrita na parede de uma universidade (não sei se foi o princípio dos grafittis, mas ainda está lá , conservada em prol da História):

There is nothing that men can do that is not done by women now in Boston.

E tinham razão, porque enquanto no Sul, os negros ainda viviam com prática de escravatura, aterrorizados com o klux-klux-klan, em Boston esta pastora da igreja, Nnannie Ellen, organizava um sindicado para defesa das empregadas domésticas, pobres emigrantes engravidadas na sua maior parte.









Vivacidade de olhar, convenhamos, não lhe faltava. Escreveu também uma tese revolucionária sobre o papel das mulheres na Biblia. Teóloga de respeito.

As universidades começaram a encher-se de saias. Deu luta e trabalho a especialização em campos como a física, a medicina, a engenharia, a arquitectura, antropologia. Campos até então exclusivos da inteligência masculina, até se conseguir o primeiro doutoramento com chefia posterior de departamento. Tinha começado a bola de neve,





que se estendeu à paranóia ainda hoje existente do desporto universitário com a criação de equipas femininas a representarem as instituições:






Mentes de espírito práctico abriram escolas de ensino técnico que ia desde a culinária à carpintaria passando pela mecãnica de automóveis.






para grande ataque cardíaco de Henri Ford.

E, por falar em locomoção, há registo de uma sociedade de inventonas com registo de patentes, muito dedicadas ao design. Estávamos no início da pressa executiva de viver. Surgiu o famoso e muito acelerado americano dito do time is money, aqui só para nós, poderoso motivo da minha pessoal irritação.




E já agora, algumas fundaram ginásios de manutenção e não só, orgulhando-se de exibir farto treino:





Linda! Com exacta proporção no chapéu!


E tudo isto foi onda que se foi espanhando pelo território e arte fora. Até chegar ao vibrar do corpo como veículo expressivo, ou seja, à dança. A frequência das Universidades foi crucial para não falar no uso de botas e mochilas de viagem a caminho do estudo de outras culturas, outros gestos, outros movimentos até então considerados disgusting and so native. Olhou-se sobretudo para o Oriente, para os índios, para os negros, para o Jazz.


Começou a escrita dos pensamentos e afectos através da fibras do corpo. Sentido. . . na tal memória do sangue.


A tal memória que deveria alimentar o futuro.





18 comentários:

Lizzie disse...

E, já agora, faltou dizer que, passado o choque, foram muitos os homens que se juntaram ao movimento.Como diria um articulista na altura,era o fim do bocejo abúlico da tradicional masculinidade também ela encharcada de futilidade.

Madame Maigret disse...

Madame Lizzie, bonjour,regresso e é com imense plaisir que reencontro o seu fino humeur a contar as várias coisas da vida. Da expressão "amizades bostoniana"nada sabia e da emancipação ouvi falar mas hélás! não a cheguei a viver...:-) Mas nc é tarde!Aproveito para cumprimentá-la pelo magnífico texto que escrveu no blog de madame Nnannarella sobre essas obscuras pessoas movidas a invejas e a estupidez.Bonne année, bonne journée,au revoir!

Anónimo disse...

Obrigada por aquilo que divulgas!!!


Obrigada por aquilo que ÉS!!!!!!!


Eu já vi!!!!



Tenho dores nas pernas!


Só fiz 100:)))))))))))




P.

Lia Bettencourt disse...

menina lizzie,

partilhamos gostos, está visto! excelente texto, com uma fina mas sustentada película de humor.
não conhecia a expressão "amizades bostonianas". temos de fazer uma espécie de adaptação ao nosso portugal...assim, de repente...não me consigo lembrar de nenhuma sem me rir...

Lizzie disse...

Madame:
como é bom o seu regresso!
Este fenómeno, como outros, da la vie americane não são de facto muito conhecidos cá por este europeu continente. E são tantas as histórias, Madame.

E merci bien pelo seu outro cumprimento.Deixemos os obscuros com os obscuros e alegremo-nos com os claros.

Bonne année aussi pour vous.
Au revoir

Lizzie disse...

Pêzinha:
Cada um é como cada qual. Até me apetecia a expressão espanhola mas, vaya, uma senhora não diz essas coisas...aqui, em Portugal.
Pronto.


E eu acho que te mandei fazer 150, não foi? Mas está bem. 100 pliés já é bastante. Estás perdoada. Por agora.
A propósito, a 1ª fotografia corresponde a?


Beijinhos e obrigada

Lizzie disse...

Lia:
Obrigada também a si.
Por acaso não estava a pensar no Clube das Donas de Casa,pois não?
Nem na Mocidade Feminina?
Sabe? não conheço muito da história de Portugal, nem das outras, mas às vezes penso que por aqui o relógio andou ao contrário.
Quando li, já lá vão uns anos, alguns daqueles livrinhos, fiquei de mente parva com a surpresa. Com a maneira elegante de expor a vida e os sentimentos. Uma maneira honesta e livre de dizer eu quero ou não quero, gosto ou não gosto.

Mas olhe que por reacção, outras mulheres se juntaram a defender o conforto da sua ignorãncia e dependência. Se calhar em todos os tempos e lugares se seguiu o lema Deus, Pátria e Família, enquanto se bebe chá de costas viradas para a vida.

casa de passe disse...

comungamos do texto;
comungamos dos comentários
e
comungamos do lema "Deus, Pátria e Família".

a vida está cheia de contradições e nós somos gente.

gente = habitantes da vida.

Haddock disse...

...
"Deus, Pátria e Família", ouvimos bem???? mas vindo dos aposentos de uma casa de passe até tem graça...
pois, lizzie, também nós, para não variar, desconhecíamos essas amizades bostonianas. mas gostamos de aprender essas beligerâncias pacíficas no torpor dos costumes...
bravos!

e é favor não dizer mal da crónica feminina e das fotonovelas!!!

vénia...

Lia Bettencourt disse...

pois não duvido que tal tenha acontecido!de facto, não me referi a nenhum exemplo em concreto. e concordo, em absoluto, com "cá, o relógio andou ao contrário".

abraços

Anónimo disse...
Este comentário foi removido por um gestor do blogue.
Lizzie disse...

Casa de passe, ou melhor, habitantes da vida (adorável expressão):
De Deus não sei, ele que me livre, a mim terráquea, de me meter nos seus divinos assuntos, mas claro que sois parte integrante da Pátria e da Família.
Da Pátria nem falo, por desnecessário já que basta ouvir, nem que seja meia a dormir os noticiários; da Família, pois bem, não era tradição a frequência para sublinhar o masculino caractér ao mesmo tempo que se enaltecia a santidade da legítima esposa?
Por alguma razão na época vitoriana, cheia de moral e bons costumes,havia habitantes da vida porta sim-porta não.

Quem sou eu para não vos considerar gente...por quem sois...
haja respeito pela ocupação mais antiga do mundo.
E a penicilina é um antibiótico já muito estudado.
Continuai, que a mim não me aflige apesar de não ter vocação.

Lizzie disse...

Capitão:
era lá eu capaz de dizer mal da crónica feminina? Em formato de bolso. Onde íriamos aprender, qual almanaque, a tirar nódoas de chocolate ou pingo de vinho? Além de nos dar motivo de ficar na cama todo o dia porque o signo diz que vai ser um dia para esquecer? E sexual?
Nas fotonovelas gostamos do movimento fotografado do pescoço e do arquear das sobrancelhas das damas. Os cavalheiros têm tendência a olhar para o lado. O charme do homem do Martini ainda não tinha sido inventado. Supomos.


Continência.

Lizzie disse...

Lia, devagar devagarinho porque a esperança é a última a morrer, talvez se acertem os relógios. Com eles a ajudar, de preferência.

Abraços também.

MGB disse...

Lizzie

Vejo que Boston estava ao rubro no final do XIX princípios do XX com as mulheres a atearem fogos pelos cantos da cidade. A riqueza do tema e do detalhe, a ironia fina que se adivinha por entre algumas linhas da tua prosa, mais a absoluta pertinência das imagens escolhidas fazem deste texto um documento. Diria mesmo uma espécie de testemunho. Não me admiraria nada se descobrisse que estiveste lá e fizeste parte do movimento. Mas não, se tivesse sido o caso, acho que terias dito à senhora da musculatura que tão orgulhosamente exibe tal protuberância, que não era preciso exagerar. Fiquei sem perceber se a Lady ganhou aquele alto no braço a apertar as porcas na oficina, ou se tinha sido no ginásio. Mas isso também não interessa, porque o que verdadeiramente conta é o enorme contributo para o progresso dado por essas senhoras e o facto de aprender algo com prazer sempre que passo por aqui.

Beijinhos.

Cici

Lizzie disse...

Cici:
Não estive de facto lá. Naquela altura ainda não era nascida. Tu suponho que também não.
A mim parece-me que os tais bícepes da senhora foram adquiridos no ginásio. Mas também podia ser com as porcas, sim senhora. Assim a rodar a mão...pois podia.
E tens razão: aquele movimento foi decisivo para muita coisa que se passou até na Europa. Toda aquela loucura da Belle Époque em Paris teve muita menina afoita. Aliás o Henri James (adoro) é testemunho disso:a contenção formal das ladies europeias em contraste com o folguedo e cultura viva livre de ácaros daquelas americanas.~
E a conquista do direito de voto assim como a redução do nº de horas de trabalho. Até elas fazerem barulho era, nas fábricas, de 12 ou 14 horas diárias.

Beijinhos e obrigada

Emma Larbos disse...

Lizzie, que bem que sabe estar de regresso depois de uma pequena ausência! E chego com as moças bostonianas.Confesso que, assim à partida e em termos gerais, não sou grande fã das américas nem da cultura americana. Mas estas moças merecem-me respeito e vindas assim embrulhadas na tua prosa saborosa ainda mais.

Lizzie disse...

Mi Emma:
ainda bem que voltaste. Já tinha saudades tuas.
Pois que também não sou fã incondicional da cultura americana no que tem de mau. Detestável. No que tem de bom, adoro. Artes plásticas, literatura, dança. Grandes contrastes num país que é feito de muitas gentes como o são todos os países novos de emigração.
É portanto, quase uma relação amor-ódio.