terça-feira, 23 de outubro de 2007

Os outros III


Se tu quiseres ir... e fomos. A um clube de jazz escondido numa viela, com aura programada de quase clandestinidade, como convém.
Porque eram eles, aqueles sem nome feito em festival mediático, nem em platina de c.d., e estavam como há tantos anos se nos tinham fixado na memória esforçada de estudo, como é sempre preciso que se entra em mundo novo, real, fora de livros e relatos terceiros.

E sem palavras vimos e ouvimos o que a vida lhes congelou : as vozes roucas, as pupilas negras nuns olhos sanguíneos de álcool, os corpos magros e altos.

Vieram de New Orleans, a terra onde ainda na barriga das mães já se tem a música a formar o coração. Nascem e morrem com a música. Com a música e infiltrados no seu djisas, um Jesus que não mora em teologias, Vaticanos ou catedrais: vive-lhes dentro, corre-lhes no sangue, anda-lhes ao lado como uma companhia colada à sombra. Aliás, apesar do evil, que se chamou Katrina, e os varreu dos destroços, continuam a acreditar, como acreditam num pai severo que castiga os filhos pelas más acções, embora eles não saibam que as praticaram. Alguma coisa deve ter sido. Djisas is always just and right, there´s no mistake on the king´s mind, m´am !

E lá vão cantando e tocando, entre a euforia iluminada e uma dor rochosa que se sente, que me faz lembrar a dor difusa , informe e sem paradeiro em orgão fixo chamada saudade. Lembramo-nos da carta dançada, em que uma mãe chorava a distãncia de um filho para as ricas e livres terras do Mistic River.



Dança negra de corpo pelo chão, cara suja, que a dor nunca foi nem será de tronco erguido e limpa. Sobretudo para eles, que foram engendrados no trabalho dos campos de algodão, entre outros.

E lá se descalçam, como gostam de cantar na memória que têm da sua história. E também de chapéu porque aquela gente sentada nas mesas é uma massa amorfa e estrangeira sem definição de individuo. Um deles tira-o quando lhe dizem para falar connosco, agora já nos pode olhar nos olhos. Conta que um espanhol os viu e os convidou a vir à Europa. Que para eles é Paris. As outras cidades são abtracções. E vieram, porque desde que o king lhes deu o tal castigo, ficaram sem nada e não parece que mister president of u.s.a. tivesse grande vontade de ajudar aquele estado de preguiçosos, terra seca de petróleo.

Pegaram na Biblía e abriram-na ao acaso, como sempre fazem quando têm que tomar alguma decisão, fecharam os olhos e puzeram o dedo numa frase. Leram-na e interpretaram-na: Deus aconselhou-os a partir. Já anteriormente os dados, ao caírem, tinham apontado nesta direcção.

Quem nunca tinha falado ao vivo com eles espanta-se com aquela espécie de resignação, calma, sorriso pronto, por detrás da pronúncia arrastada cheia de saltos entre os agudos e graves. Parece que a voz anda doida entre a surpresa e a espera.

Pede uma Coca-Cola e lá volta cambaleante e gingão sem idade que se adivinhe para o palco, para cantar louvores e amores, uns perdidos outros acabadinhos de achar.

E diz, sem que algum espanhol ali perceba, no meio de graças a Deus e expressões que podiam ser versos de poemas oníricos, que lhes prometeram para final de viagem uma actuação em Paris, a terra onde os artistas são imunes à loucura e à morte.





E ainda tenho na cabeça, aquela confusão de acordes, parece que cada instrumento toca para seu lado, mas com uma harmonia de espantar Bach, o canto de mais um deles:

Sing alelluia, i´m walking with the King, walking with the King....to everywere i´m walking with the King....

and so on, ao Deus dará, quando não se esquecer, ou castigar

4 comentários:

Emma Larbos disse...

Antes de mais nada, um recado para as minhas afilhadas, que ontem não tive tempo e a parteira delas tem uma costela de Speedy Gonzalez e não deixa a gente tomar fôlego.
Tão lindas que as meninas estão! Ainda no outro dia (já lá vão 6 meses)as vi aconchegadas de olhos fechados no já mencionado saco e agora ali estão como umas mulherzinhas sedutoras e coquetes!Não há-de a madrinha ter cabelos brancos!
O recado é o seguinte: esta madrinha promete a cada uma delas um par de chinelos peludos e fofinhos para elas estraçalharem à vontade!
Agora o jazz e as suas dores negras. Como todas as músicas (e cantos) saídas directamente das almas que não dependem do filtro constante da racionalização, atravessa-nos os ouvidos na busca da linha directa que os liga ao coração, ou à alma, fazendo aquele percurso por causa do qual the king nos moldou uns ouvidos no barro primordial.

Lizzie disse...

Pois que as meninas se pelam por chinelos.E felpudos? Havia de ser bonito. Podes-me até imaginar de vassoura na mão a mal dizer os meus pecados. Tanto se habituaram uma à outra que dormem sempre juntas e abraçadas.

Parece tudo muito saído da alma e direccionado para a alma. Chega a ser comovente como aquela música se desenrola tendo por base uns poucos princípios básicos que depois os sabedores tentam pôr em pautas confusas e disciplinadas. Às vezes começam muito certinhos e de repente é uma folia de improviso: uma conversa em que todos se entendem numa espiral de entusiasmo. Vê-los agora é como se o tempo tivesse parado: a mesma forma de vestir, a mesma maneira de andar com inclinação para o lado direito e o mesmo king e a mesma desconfiança por pessoas de olhos verdes, associados à serpente tentadora, aquela que desvia as pessoas dos caminhos que se devem seguir. Aliás sempre me pareceu que o king tem uma força controladora face a distúrbios e transtornos pessoais e sociais. Se não a tivesse a história da região teria sido outra. E é grande a noção de culpa, porque o king "efectivamente"está ali ao lado, presente, a ver o mais pequeno pensamento.

musashi, fidelíssima samurai disse...

Vidas épicas, Senhora.
Magníficos baluartes.
Almas em sessenta graus de inferno.
Nem sempre é uma boa mãe, a vida.

Lizzie disse...

E tendes Vós fidelissíma Oriental, toda a razão, que cada causa sempre tem o seu efeito