terça-feira, 9 de outubro de 2007



O preencher o vazio de cadernos pode começar de maneira vadia: íamos avenidas e vielas fora e lembrei-me que um banco pode ser espera, encontro, fluir das horas, refúgio. E lembrei-me daquele em Madrid. Digo-lhe que nele se sentava todos os dias uma mulher de meia-idade, aquela que fica entre o nascimento e a expectativa longa e inevitável da morte.Tinha sempre com ela uma espécie de livro . Parecia-me que escrevia uma palavra, parava, olhava ao longe,escrevia outra. Devia viver no intervalo das palavras. Talvez tivesse medo do espelho delas. Não sei. E havia aquele rapaz em Alvalade, tido como louco, que falava para um interlocutor vestido de inexistência.

Digo-lhe que para a personagem que vai criar, lhe ficaria bem um banco colorido de crepúsculo: a cor intermédia da eterna espera, da ausência que dói como ferro em brasa. E quem espera não dorme, não tem noite, só anseia.




Mais conversamos que, por vezes, a espera é prisão , fica-se preso a uma ideia estática, imutável no desejo da imagem que se criou. É corpo envolto em fios enredados de silêncios. Ficaria bem aquele canto de autor anónimo medieval, canto circular, paisagem sem norte. Voz contida.

Já agora a Escada de Jacob veio à lembrança, continuamos a falar de ideais, de como trepamos até eles, de como é penoso construí-los, e mais ainda deixá-los cair à medida que a paixão se evapora deixando o mito a nu. Desorientam-se os afectos, fogem as ilusões. Às vezes, fica o amor cimentado, dizemos nós, que não somos fatalistas.



E vamos compondo tudo passo a passo. Inventando percursos a fingir que são mentira. Música aqui, literatura ali, quadro acolá que do resto tratarão os corpos num palco pronto a ser julgado, como o são todos. E este há-de ser um onde todas as artes se amam, ponte entre universos, assim como este cipreste azul e viajante dedicado às melhoras da

Nnanna, atchim, coitadinha. Pertence a um outro caderno que começou com uma outra viagem.Nada nasce do acaso. Acho eu.

9 comentários:

Anónimo disse...

[E quem espera não dorme, não tem noite, só anseia.]








Sempre tão certa.

Um beijo meu.

nnannarella disse...

Como tenho passado estes dias sem voz, estorcida numa solidão fungosa, o banco onde me sentei foi no do Jardim das Amoreiras. Estive por lá este fim de semana, eu comigo, a controlar o ouro do Inverno e a recordar a interlocutora eterna, que não só colora telas como o faz à vida das pessoas e bichos tropeçados em canalhices das vidas.
Ainda é o verde que impera no jardim e as manchas sanguíneas dos hibiscos ou cardeais.
O laguinho estava límpido e pus um pauzinho a alegrá-lo de rosinhas concêntricas.
Ouro, por enquanto, só o das jubilosas lembranças. E o dos milagres... E agora este cipreste. Azul. Pois claro. Ouro sobre azul...:)


Mil gratos, esmerados, gentis, arpejantes, veludosos, citrínicos, ubérrimos deles!

Lizzie disse...

Caro/a anónimo, obrigada.
Mas olhe que só quem julga que é dono da vida tem certezas.Eu limito-me a olhar tentando ver.Sei lá se acerto...se não acerto.São tudo probabilidades e cada um tem as suas próprias noites às vezes transformadas em longos dias.

Lizzie disse...

Oh minha fadista de voz virada para os confins de dentro como os chafarizes,estás afónica?
Pois que imagino canto de coração azul em olhos doirados pelas lembranças, assim sentadinha num banco com as folhas pasmadas que elas não precisam de ouvidos para escutar o tremor das almas. Ficam tão atentas que se esquecem de cair.Milagres que os sons escondidos tecem.
Vê lá se ficas melhor e é tão grande a adjectivação agradecida que sou eu que agora engulo a voz do que mais não sou capaz de soar.

Cadernos e cadernos deles

# disse...

"A sperança como um fósforo inda aceso,
Deixei no chão, e entardeceu no chão ileso.
A falha social do meu destino
Reconheci, como um mendigo preso.
Cada dia me traz com que sperar
O que dia nenhum poderá dar.
Cada dia me cansa da sperança
Mas viver é sperar e se cansar.
O prometido nunca será dado
Porque no prometer cumpriu-se o fado,
O que se espera, se a esperança é gosto,
Gastou-se no esperá-lo, e está acabado.
Quanta ache vingança contra o fado
Nem deu o verso que a dissesse, e o dado
Rolou da mesa abaixo, oculta a carta,
Nem o buscou o jogador cansado."

F.Pessoa




[E aqui, o tempo perdido em esperar, equivale ao tempo prometido pelo fado. Logo, não há como desvendar o mistério da vida se todo o tempo hábil para isso foi desperdiçado quando ainda existia o prazer da espera.

Em meio a uma profunda tristeza, o poeta (jogador), cansado de esperar, não se importa mais em desvendar o Oculto, nem em jogar o dado para, quem sabe, poder ver a face que corresponda, simbolicamente, ao mundo divino, ao indecifrável.]


:)

Lizzie disse...

Entre esperas e desesperas existe quase aqui,entre Oculto e indecifrável, criatura devotada à Cabala, que é mais ou menos uma forma de rodear e decifrar as inevitabilidades da vida.

E com as minhas células inglesas lhe digo que se ninguém apagar o fósforo ele arderá até ao fim e acaba-se;
com as espanholas digo-lhe que às vezes é melhor pisar o fósforo com toda a força antes que ele pegue fogo a alguma coisa preciosa e com as portuguesas parece-me que grandes foram e serão os Fados cantados por quem não sabe se vale a pena esperar ou partir.

Cada sangue tem os poetas que merece.

:)

Anónimo disse...

Bolas :)))))))

# disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
nnannarella disse...

Nem me lembro se já to confirmei ou não, mas segui os teus conselhos do avinha-te abafa-te e abifa-te, que me deixaste nos limões, e fiquei fina como relvinha tenra para pasto de cordeiros. Avinhei-me, por acaso, com alguns Pasmados, bem tintos, tais as folhas que vislumbraste no banco. Abafei-me com o cipreste azul. Abifei-ne nas tuas releituras. De modo que já tenho a voz e a alma reviradas para os confins de fora, pronta para o faduncho ou para um repasto ao relento, enfim, umas jornadas de afecto ao vivo. Células e células e células trilingues deles!