terça-feira, 16 de outubro de 2007

Os outros II



Este senhor não está sentado confortávelmente no mundo. Nem os óculos lhe adocicam a visão.
Chama-se Bill T. Jones e é um dos maiores e mais criativos coreógrafos e bailarinos que pelo tempo passaram e passam.

Sem grande indiscrição, posso dizer que nasceu em 1952, nos EUA. E sem ser alcoviteira também posso dizer que fundou com o seu colega e tão grande amor Arnie Zane uma companhia trans-universal de dança: Bill T Jones and Arnie Zane Dance Company, mantendo ainda, por memória e devoção, o nome do defunto, embarcado nos anos 80.




E, este senhor, tanto antes como depois de estar sózinho, sempre entendeu a Arte como um cruzamento entre a cultura e a vida de todos os dias, aquela das pessoas esquecidas pelos protagonistas da história.

E entendeu que não é de cesto mendicante na rua, que se grita contra as discriminações sociais, raciais, sexuais, religiosas. É através da escola, da escola, da escola.

Tanto repetiu que tem agora uma espécie de Universidade, onde gente de todo o mundo vai ligar a dança a todas as outras artes, que ninguém aprende fechado só numa.

Todo o seu trabalho se baseia na diversidade e , Nnanna, até chamou a Mísia até si, tão fundo lhe tocou a dor de um povo que canta o Fado, de xaile negro traçado. Não precisará de muitas lições para perceber o que seja a saudade.

De Harlem, New York parte para os continentes a dançar contra os extremismos venham eles da sede do petróleo, das febres adulteradas de Alá ou das torneiras de oiro polidas por pessoas famintas. A dor da morte e de outras perdas é igual para quem as sente de perto.


Tem bailarinos de todas as culturas e com voz calma lhes pede que interpretem o que sentem e com eles cozinha os espectáculos.

Por isso se ouvem palavras e literaturas em todas as linguas, com tradução em vídeo hall, não vão os espectadores distraír-se, ou fingir que não percebem, que a par de guerras políticas existem as pessoais, as de condomínio e até as do preço da fruta, em que todos somos peões com mais ou menos arma, ensinados por um Deus que daí lavará as suas mãos.

A última vez que o vi, ou melhor, os vi, foi no CCB, no espectáculo Blind Date. Uma metáfora redonda sobre a ausência de futuro quando não se aprende o passado, seja lá a que nível fôr.

Bem ao jeito do pregador ou político, fato e gravata, imponente e seguro ia dizendo números de guerras , catástrofes, acidentes de viação, desemprego, rematando, irónicamente, com o "praise the Lord". Algum público riu-se da figura. Outro arrepiou-se.


Nos bastidores disse que é um religioso sem fé, que vive a angústia e sente o desamparo de viver um tempo que corre muito mais depressa que ele: enquanto pensa já tudo mudou, enquanto se preocupa já tudo se resolveu sem que se perceba qual foi a raiz da decisão.
Mas tem esperança nos novos, aqueles que de um momento para o outro e sem aviso prévio metem as mãos à obra, lembrando-se e recriando tudo aquilo que os professores lhes ensinaram a descobrir,

ou seja, a ter consciência dos seus próprios movimentos. Que nunca são iguais nem se repetem.

11 comentários:

# disse...

E deu-me o abraço mais forte, e diz-me para nunca deixar de Sentir, assim, desta maneira bruta, desta... que me faz correr.






Comovi-me, brutalmente.
Obrigada, E.

Emma Larbos disse...

Lizzie, ainda estou com o nó na garganta! Muda, sem palavras que decentemente aqui diga em público sobre a tua profunda sabedoria. Não daquela que se aprende nos livros mas daquela que se deixa que a vida construa em nós.
Tiro o meu chapéu emplumado e com ele varro o chão que pisas.

Também me enterneceu a miniatura do Cancioneiro da Ajuda, com a soldadeira e seu pandeiro a acompanhar o jogral. Era das tais que, como diz a Nnanna, era acusada de má vida por livremente dispor do que Deus lhe dera.

nnannarella disse...

Tenho para mim que, infelizmente, não há óculos que adociquem a visão. E digo-o de experiência própria. Só a Arte e a Beleza o conseguem, aquilo que ilumina ou aguada o teu olhar.
Adocicar, no sentido de serenar e desbarbarizar.

Mais uma vez, és tu própria que nos serenas, ainda que esses arcos-nas-íris que nos escreves tenham pontos de vertigem e de compunção.

Mais uma vez caio na tentação feia de pensar que toda a Arte de intenção é inglória. Que todas as gravatas armani e sapatos chaneles que aplaudem os espectáculos de comoção nas mãos, assim que lá fora estão, prestes voltam aos seus papéis de indiferentes algozes e de fúteis aparências. Que os outros, os médio-rascas e os rascas, logo voltam aos seus poderzinhos, ganâncias, preconceitos e mesquinhos juízos de valor.
Tanta Arte, tanta Mensagem, para Nada. Pérolas a porcos. Porque ir à Arte tomou-se de alto status. E por mais legendas e didascálias que se ponham para os seres entenderem as coisas, de nada vale. Não sabem interpretar, têm preguiça ou medo de ler, se calhar nem ler sabem ou tão-só vergonha de pôr os óculos desfiguradores no meio da plateia.
Basta olhar em volta. Está tudo cada vez mais na mesma e em nenhuma parte do mundo são os partidos da transformação ou do coração que têm os votos dos que aplaudem as Artes.


Miríades de Bills e Arnies deles!

Lizzie disse...

#:
mesmo por entre essa grade gráfica ainda tenho braços para a si (a ti) chegar, mas sem brutalidades que eu ando fraquinha das articulações e ainda me desmancho.
Olha que nunca fui pessoa de abraços lassos porque são coisas que se sentem ou não se sentem. Se és quem eu penso toma lá mais outro, pela comoção com que existes.

E, se eu fizesse um buraco nesta coisa e tu me aparecesses aqui dentro a sorrir?

Lizzie disse...

Mi Emma:
eu tenho pouca interferência na vida, a vida é que vai tendo comigo. Só vou olhando e aprendendo o que me vão ensinando,(ai credo tanto gerúndio)desde o Cancioneiro da Ajuda a este desgraçado do homem da limpeza que anda aqui com tuberculose. Ensina-nos até que ponto vai a resistência quando se sobrevive. "Praise the Lord".

Quanto a chapéus, e muito comovida, fico com vontade de trocar o meu com o teu, que quanto a chãos,olha, parecem-me feitos da mesma lage.

Lizzie disse...

Meu Anjo cheio de Fado, quão certeira és, que na sua maior parte se enchem as salas porque o vizinho assim os chama de cultos, seja ao verem o Bill ou a Companhia Nacional de Bailado, ou uma exposição ou uma música. Há até quem compre revistas de livros e leia os resumos: gostei muito, escreve bem!

No tal espectáculo também houve metáfora ao amor, à amizade e à confiança: os bailarinos gritavam ME -eu- e caíam para a frente. Caíriam se os outros não os fossem impedir de bater com o nariz no chão.
Muito a assistência se ria como se de palhaçada se tratasse. Vê lá tu se é difícil perceber que não há coisa melhor que, quando caímos,exista alguém que nos ampare. Ou nos pegue ao colo para sítio seguro.
Andam as pessoas a dormir esquecidas da História e da vida. Ele tem razão.

Vidas e vidas acordadas deles

-pirata-vermelho- disse...

Então...
sendo assim...
vá ver o Pilobolus Dance Theatre, no dia 19, no Coliseu.

O que hoje aparece banalizado e frequentemente desprovido de densidade foi, há trinta! anos domínio desta extraordinária Companhia - o teatro dança.
Têm a particularidade de, além das coreografias notáveis e dos desempenhos admiráveis, poderem mostrar duas coisas que os distinguem - os figurinos e o facto de nunca! deixarem de dançar, mesmo no meio de muitas acrobacias, gritos e batidelas c'os pés no chão do palco.

Não perca!

-pirata-vermelho- disse...

PERMITO-ME PÔR EM EVIDÊNCIA 'ISTO',
DITO ALI ACIMA COM GRANDE ACUIDADE
"Mais uma vez caio na tentação feia de pensar que toda a Arte de intenção é inglória. Que todas as gravatas armani e sapatos chaneles que aplaudem os espectáculos de comoção nas mãos, assim que lá fora estão, prestes voltam aos seus papéis de indiferentes algozes e de fúteis aparências. Que os outros, os médio-rascas e os rascas, logo voltam aos seus poderzinhos, ganâncias, preconceitos e mesquinhos juízos de valor."

Lizzie disse...

Pirata:
Já tive o prazer de os ver 2 vezes em Madrid.

Quanto à dança-teatro é a menina dos meus olhos ou não tivesse eu passado pela experiência com tudo o que isso implica.
Claro que se tornou uma banalidade, sobretudo quando existem já receitas aplicadas até à exaustão. Vejo, com grande agrado, que algumas companhias tentam uma renovação do género,sem cair nos exageros egocêntricos e herméticos de alguma dança pós-moderna sobretudo quando se misturou com a tão fashion e quase obrigatória performance. Lembra-se?
É certo que tudo faz parte da evolução natural e experimental da arte, mas há coisas que ,e isto é uma opinião pessoal, preferia nunca ter visto. Não sei como é que foi em Portugal.
De qualquer modo o que acho importante respeitar, goste-se ou não, é a linguagem pessoal de cada criador, desde que seja integro, desde que se dê, a tal "loucura com integridade" de que o Bill T Jones fala.
Será essa a que fará história, porque fala do que já foi perpectuando-se no tempo. De modas intelectual-verão, pensador-inverno, já andamos todos cheios. Como das gentes de que fala a Nnanna e vocemecê tão bem sublinha.

Efemerum disse...

quem lhe ensinou a prosar assim?

é virtude certamente.

peço à Emma o chapéu para varrer o resto do chão...
e ainda lhe atiro a capa aos pés.




magnífico texto...

deixo-lhe um beijo debaixo da capa.

Lizzie disse...

Efemerum:
"diz o roto para o nú: porque não te vestes tu?" que de escrita é sabedora e talentosa a merecer não uma mas várias capas pelo chão.

A literatura é Arte de que não percebo nada. Sempre li por prazer e só isso.
Tudo o que escrevo, ou pinto sai-me sem grandes pensamentos. Vai ao correr da pena ou do pincél. Tenho este enorme defeito de não ter método nem disciplina. Já me chegou, para isso, a dança e mesmo assim tinha que ter, e felizmente tive, quem me fosse segurando as pontas.Quem me ordenasse, até porque é Arte em que não se vive sózinha: amparamos e somos amparados, responsabilizamos e somos responsabilizados.

Beijo também para si e muito obrigada