sexta-feira, 27 de março de 2009

Postagem profusamente ilustrada, sonolenta e ataviada nas ideias, por via dos males da ibérica primavera que, como em todo o lado mas mais descaradamente, antecede os meus males de verão, ai de mim, coitadinha, que sou filha genética, com comprovativo científico, do frio.

Ai, se ao menos elas, as malvadas, não existissem…


0.45am
Apago a luz depois de ter percebido, não muito claramente dados os halteres de peso progressivo nas pálpebras, que Patrícia Highsmith se agarrava à dualidade de Proust para a escrita de pequenos contos onde se vingava das diferenças em relação ao que sentia e o que o resto do mundo esperava que ela sentisse.

1.30am
Sou chamada, lá do alto dos meus sonhos, por um bzum, bzem, bzum em volta do ouvido, se bem me lembro, esquerdo, embora tal pormenor de orientação anatómica não seja relevante para a questão. Na mão direita uma aureola vermelha, ainda agora abstractamente desenhada, justifica a comichão. A mosquita das longas pernas, do alto da parede, lambe os lábios de agulha e gargalha de satisfação.


Não sou pessoa dada a saudosismos, a nostalgias e, do passado, sempre que me lembro e perco a fragilidade de ser humana, aproveito lições, de preferência em letras gordas. Como diria quem me ofereceu um chapéu verde num restaurante chinês, sou mais virada para o futuro. Para andar para a frente.

Mas a mosquita traz-me a lembrança de primavera onde a natureza, nevada enquanto na gravidez de inverno, acaba por parir campos verdes, sol que acaricia como um amante sereno e sem pressas, luz de flamengo barroco que doseia, com sensatez, a euforia e o recolhimento…


2. 45am
A mosquita está obviamente mais gorda! Já não consegue subir até ao tecto! Gostou do joelho. E da coxa. Deve ser tenrinha. Mas mantém a agilidade na fuga ao torpedo de fabrico Almofada. Deve ter olhos até nas patas.

Jantei pouco. Muito pouco. Tenho fome.
Apesar de ser primavera, lá a noite pede todos os aconchegos. Talvez me apetecesse, protegida por um grosso casaco acolchoado, parar numa qualquer tasca à beira da estrada. Daquelas onde se juntam todos os viajantes, acabadinhos de chegar de um sítio irregular da vida.



Alguns contarão histórias míticas de orgulhos familiares cumpridos.


Outros irão em fuga para o sítio onde moram sonhos grandes de outros tempos, agora já partidos em mil pedaços, como o cristal.



Outros ainda apresentarão poses com lendas ilusórias nos desejos.


Há sempre quem conte acontecidos, mesmo que ninguém ouça, como se estivesse num concurso de especularidade.
Não faltarão os que têm nas faces de olhar parado, histórias de procurados, mas com vontade como todos os outros, de uma boa dose de batatas fritas com ovos estrelados, baked beans, batido de…gelado…naaaataaaass….



3. 50 am
Afinal chegou todo o regimento. Houve pasto no braço.
Lá estão elas, que me disse o biólogo que são elas que picam. Vampiras inestéticas. Eles, os mosquitos, limitam-se à tarefa de fertilizar. Nada que alguns outros de várias espécies, de maiores a enormes, não se limitem a fazer.

Será que tanto Fenistil não me fará mal? Será que envenena?

Pareciam de filme, aqueles amores fogosos de manifestação e exuberância inadiáveis, rádios aos berros…nós ríamos, comentávamos que era da primavera… os ninhos da primavera...


as bestas microscópicas já não devem picar mais…estão de barriga cheia, a fazer a digest….

5. 10am
Porra! Coño!*****!******! Como é que vou pôr creme nesta parte da orelha? Daqui a pouco pareço o homem elefante.
Em Espanha são 6 e 10. O David deve estar a embarcar para lá, para a vida nova.
Oxalá tudo lhe corra bem.

Não lhe vai faltar inspiração, logo a ele que gosta de desenhar roupa tendo como fundo histórias anónimas, de holofotes fundidos.
Falámos-lhe tanto nas raparigas e rapazes que se vêem nos alpendres, a apanhar o ar limpo e fresco das tardes de primavera. Como aquela escultora intrigante e silenciosa.


Ou o rapaz da janela, tão estranho. Quase literário

Amanhã tenho que tirar o edredon. Que calor, credo.

Pronto, tu não me picas mais. Que nojo…1 a 0 no marcador!

Não, ali mais para norte, não há moscas nem mosquitos. Estupores. Pode-se ficar a gozar a limpidez da atmosfera primaveril sem intrusos incómodos.
Só havia formigas viradas para as morais das histórias. Não me lembro se havia cigarras bichos. Só me lembro do canto duma espécie de grilos: um canto alegre e despreocupado como uma gargalhada espontânea…que a vida é para ser vivida à superfície das afrontas. Tantos contrastes fazem a riqueza...

7. 30am
Que pi-pi-pi-pi a piscar será este? Mosquita ampliada? Do Parque Jurássico dos mosquitos? Filme de terror? Spielberg à solta? Quando for dia… ainda é cedo...só mais cinco minutos...

8.am
Sei lá se estou acordada a sonhar ou se estou a sonhar que acordei.
Talvez a primavera, com todo o seu carisma de renascimento, perca a nitidez racional das coisas.
Quem é que nasce pleno de pensamentos lúcidos? E morre cheio de certezas?
Lá terei que voltar, picadinha de todo, para a vida tímida, contrária às vontades.
No sítio onde a primavera é fresca e o verão, tão púdico e discreto, veste um casaquinho a guardar recato, alguém há-de gozar o esplendor da cor.
Livre, numa estrada irresponsável. Aparentemente sem curvas. Como se o destino não tivesse outonos.

Ou qualquer outra estação.





banjo fever - highway cowboys


9 comentários:

Alien8 disse...

Lizzie,

Já li, mas não estou em condições de comentar agora. Se calhar são as mosquitas. Ou uns arranhões da gata mais velha da casa. Ou o sono. Ou um pouco de tudo isso. Vou ver se alguma mosquita se atreve a acordar-me. Sim, ainda é relativamente cedo, mas o dia foi longo... e às 3 e tal AM lá tenho que saír... o que vale é que volto depressa :)

Afinal comentei um bocadinho. Mas eu volto, como as mosquitas e as estações... :)

Bom fim de semana, bem dormido!

Um beijo.

Arabica disse...

Lizzie,


mas que epopeia de melgas de perna fina!!!!

Que noite!

Tens que encomendar redes mosqueteiras para as tuas janelas! :)

Imagino o sofrimento.


Uma overdose de Caladryl :)) e muitas pinturas de guerra :))

(recordando-me de mim e das minhas filhotas em certas noites selvagens na barragem de montargil, eheheh)

Um abraço, petisco de melguinha :)

Alien8 disse...

Lizzie,

Acabando o comentário, isso foi uma daquelas noites! Por isso já te vejo de mota, lançada ao vento, como os dois da imagem...:)

Uma sugestão: a leitura é muito importante. Por isso, convém ter sempre um jornal ou uma revista à mão: são bem mais eficazes e manejáveis do que a almofada... :)

Imagens:
a) Isso não se faz ao gato!
b) Ugly but Honest :))))

E as outras também. A mosquita mete medo. É fêmea, pois, são as que alimentam de sangue. Os machos não fazem maldades dessas :)))

Oxalá tudo lhe corra bem, ao David. E a ti!

Uma boa semana, beijos da Lola e meus.

Lizzie disse...

Alien:

e eu não estou em condições de responder!

O fim de semana foi parco, oh tão parco, de sono.

Não fui de Harley Davidson mas de carro (abençoado gasto de 5 litros aos 100 mesmo a 160km/h que os italianos foram feitos para as crises, que é como quem diz Ugly but Honest:))),para Mérida, rodando noite fora. E pensando. E cantando, em coro, coplas, flamenco e Handel. Coitadinho que voltas deve ter dado na tumba...

E depois o peso da responsabilidade na tarefa que fui ajudar a cumprir tirou-me o sono. Mais valia, para o descanso, ter-me posto a imitar o gato. Mas sem engordar assim. Credo, aquilo deve ser do tele-shop...e falta ali uma travessa de batatas fritas.:)

Vou passar por cima das atribuições maléficas de machos e femeas até porque eu, mulher, só gosto de bifes carbonizados: não como nada em sangue. O Drácula, por acaso, era travesti? Hum?

Já tenho mostrado aqui criações do David. Talento puro que faz pena ver partir para Nova Iorque. Costumamos chamar-lhe o "estilista literário".
Em nome dele e do meu, agradecemos os teus votos.

E tu e a Lola tenham uma boa semana.
Sem mosquitas de qualquer espécie:)

Um abraço

Lizzie disse...

Arabica:

Na minha morada existem muitas mosquitas elegantes porque é sítio cheio de água.

Tenho redes mosquiteiras de malha fina mas é tal o atrevimento que entram na mesma. As coscuvilheiras devassas!Intrometidas sem convite para banquete!

O que as afasta são as ventoínhas. Odeiam vento. Provavelmente não gostam de ser despenteadas.

E também ajuda botar um pequeno recipiente com gasóleo. Adoram e ficam lá a embebedar-se de combustível. Gasoólicas!

Hoje já lhes vou servir o vício à porta do quarto. Já não me lembro é se gostam mais de Galp ou BP. Logo se vê.

Também comprei um aparelho parecido com uma lanterna das Mil e Uma Noites, com uma luzinha lá dentro tipo bar de alterne em monte alentejano que, em principio as atrai. Não é preciso dizer mais nada, que já tinha suspeitado o tipo de mosquitas que são.

E também não imaginas as cenas de auto flagelação: as bofetadas que me dei na esperança de as matar na prática do acto. Bati-me mas em vão:))
Até em Mérida me bati.Apesar do frio que estava. Estas devem bzar em castelhano e em flamenco...e devem pintar os "beços" ao fim da tarde.

Vamos lá ver se hoje durmo em quantidade e qualidade. Entre lanternas suspeitas e vícios, algum genocídio mosquital se há-de conseguir.

Besos

audrey disse...

eu também sou gente de frio e adoro o frio

e
detesto


mosquitos..

coxa e marreca disse...

uma pérola de imaginação bem humorada.


Bom, eu faço assim (e resulta): saio da cama com todas as luzes apagadas. sento-me na sanita durante cinco minutos (mais ou menos) com a luz da casa de banho acesa. As malditas entram e eu saio (sempre com a luz do wc acesa) e fecho a porta.
Depois é só dormir regaladamente.

(Não esquecer de apagar a luz da casa de banho).

Lizzie disse...

Audrey:

quanto ao frio, bom já tinha percebido que o teu gosto ia para aí:)

Credo, cruzes: os mosquitos são do calor. Chatos.

Lizzie disse...

Coxa e marreca e sei lá que mais:

A gargalhada que eu dei agora com o comentário!

Então e não se adormece na sanita?

Vou experimentar.

De apagar a luz é que não sei se me lembro. depende da hora:))