quarta-feira, 4 de março de 2009

E para que o Capitão Haddock, figura abrangente dos 7 aos 77 anos, e os demais dos 8 aos 88, não se enfadem com descrições de períodos asteriscais, vou neste falar na coroa de Chanel, já que não há moeda que tenha só cara.
Temos assim o

cocktail do deus nostálgico que sonhava corrigir a natureza


Christian Dior de seu nome.

Nasceu em 1905 na Normandia vindo a morrer em 1957 em circunstâncias de ataque cardíaco, dizem uns que no banho de piscina, outros que durante o bridge, outros que em grande esforço na ebulição de uma orgia jetsetiana.

O que interessa, em todo o caso, é que só produziu moda entre 1947 e aquela data. Dez anos de reinado entre as nuvens que sempre pairam no ar enquanto o tempo térreo avança.

Nasceu de uma família cuja riqueza vinha do estrume. Mais tarde, já famoso na elite europeia, modificaria a incómoda palavra estrume para a expressão industria da fertilização.
Sempre foi criança virada para as artes e à chegada a Paris, o deslumbramento citadino levou-o a querer ser pintor. Depois galerista. Ambas as actividades não demoraram a conhecer a falência.

Imaginou-se então, talvez por força do destino, o sucessor do considerado primeiro estilista da Alta Costura, o americano Charles Frederick Worth, sobre quem a Edith Wharton escreveu deliciosos retratos (perdoem-me este meu pendor para a literatura americana mas estes contos…).

Para Dior nada havia de mais fóbico que pobres, até remediados, e a pobreza geral da Guerra.
Foram proibidos os tecidos caros, normalmente importados, bem como as meias de seda.


Havia racionamento de tecidos e desenvolveu-se, por isso, a arte da reciclagem em costura caseira: de calças de homem aproveitavam-se as partes menos puídas para fazer saias, de saias inventavam-se vestidos para crianças, cerziam-se meias, viravam-se colarinhos. Revistas ensinavam até a transformar cortinados em vestidos de noiva.



A roupa tinha tendência a ser prática e masculinizada, sem acentuar a anatomia feminina, como já havia sido nos anos 20, a chamada silhueta tubular, para permitir às damas dançar jazz, foxtrot, charleston e o que mais soasse a viver a vida em movimento.

Em Londres, por indicação, e exemplo, da Rainha Mãe, Elizabeth, (a quem em privado Dior chamava o equivalente de matrafona)


os estilistas retiraram ornamentos e luxos das suas criações. Inventaram os soquetes de algodão.
Por outro lado, estrelas afoitas de Hollywood, como Marlene Dietrich ou Katherine Hepburn, não se coibiam de trajar literalmente à homem enquanto a publicidade promovia, para as mulheres, hábitos descaradamente masculinos, como o de fumar.





Tudo isto causava arrepios medulares a Dior, preso ao ideal da mulher vitoriana: casta e espalhando públicas virtudes em salões aristocráticos e da alta burguesia. Olhos inocentes e fechados para o mundo em transformação.
Em termos estéticos, enlevava-se com os bibelots femininos do Estilo Segundo Império: em forma e conteúdo as mulheres seriam irmãs naturais das flores.



Estando a família já falida do negócio estrumeiro, um empresário financiou Dior e nasceu a Maison Dior, em Paris, instituição que restituiu àquela cidade o estatuto de capital da moda, sobretudo no domínio da Alta Costura e hoje chefiada por um dos estilistas, a meu ver, mais excêntricos e criativos da actualidade: John Galliano.



Revoltadíssimo contra a revolução americana do ready-to-wear, prêt-a-porter, Dior começou a desenhar modelos exclusivos para cada dama milionária que tivesse o dom santificado do sacrifício físico.

Seria pecado digno de profunda vergonha, duas mulheres aparecerem em sociedade, ou em privado, com roupa igual ou serem vistas duas vezes com o mesmo traje. Surgiu o conceito de peça de colecção estacionada no armário. Estreia e guarda.

A isto e ao que há-de vir a seguir chamou de New Look, nome que para sempre lhe ficou associado. E, introduziu os desfiles temáticos: Carole, Tulipe, Silhouette8

Em plena ressaca da Guerra, utilizou os materiais mais caros que imaginar se possa. Através de cintas, barbatanas e gomas na roupa interior, moldou a silhueta até à clausura da alma.

Chanel viria a dizer que, com tais atavios e apertos, era impossível qualquer mulher ter a liberdade necessária para ser inteligente. Médicos voltaram a alertar para os perigos de voltar ao passado.




Os fatos para cocktail, em que se devia produzir conversa circulante nos salões, e por via da estreiteza da cintura, não permitiam sequer assento. Era dada um bocadinho mais de folga nos vestidos destinados a chás ou a jantares de forma a permitir a entrada de 50 gramas de comida no estômago.


Um embaixador inglês chegou mesmo dizer que a mulher demorava mais tempo a vestir-se para ir às compras que ele a analisar dossiers e a ler os jornais todos do dia.




Em resposta, Dior congratulou-o pela sorte: é dever de uma senhora compôr, com a sua elegância, a posição social do marido.

Enquanto Chanel falava de mulheres (femmes) em geral, Dior passou a distinguir, com traço forte, entre femmes e madames.



Dizia que era o grande mestre da simplicidade mas um “simples” vestido de passeio, podia consumir 40 (quarenta) metros de tecido.

Se Cennino Cennini, nos alvores do séc.XV, escreveu que nada havia mais desequilibrado e feio que o corpo nu de uma mulher, Dior sempre apregoou que o seu sonho era salvar as mulheres das características imperfeitas que a natureza lhes tinha dado.

Saída infeliz que lhe custou bombardeamento de femmes, de algumas soltas madames, de gente das artes e da cultura à excepção do coreógrafo Balanchine, considerado um dos pais da anorexia e adepto da silhueta "tábua de engomar".

Tal como qualquer deus com obra feita, ainda hoje é discutido por fiéis, agnósticos e ateus. E, andará, quiçá, por um Olimpo Supra Universal, entre querubins com aspirações a Apolos, à procura de uma Vénus que não viva nem envelheça.


Sans doute!

E, já agora, se não se importam e só porque me apetece, boto uma das canções que mais gosto da fraca femme, Edith Piaf.




la vie, l´amour - edith piaf

23 comentários:

Anónimo disse...

Não é fácil ouvir-se a música, mas o que interessa é a tua história galopante, como nem Pégasos nem Bucéfalos sequer sonharam, pobrezinhos.

Quantos detalhes giros e desconhecidos, para se comentar num bistrot de Paris, em entardecer ameno e préprimaveril.

De tailleur cor de salmão
e boquilha de cerejeira,
tua

prestes-a-ir-a-Paris-de-França

Teresa Durães disse...

Ainda bem que as mulheres caíram-lhe em cima que era o que mais faltava não se poder ter imperfeições sem críticas contudentes

Arabica disse...

Lizzie,


talvez não por acaso, hoje, estes 30 segundos de música parecem-me da mais pura provocação...gosto muito da voz boémia de Edith Piaf arreliando os conceitos indecorosos de Dior :) sobre a utópica busca da perfeição no corpo feminino...

De resto, vestidas por ele, como poderíamos nós jantar "chez Alien" nas suas robustas e reboscadas mesas, de verdadeiro atentado ao pecado da gula, já há muito medido em pelo menos 500 gramas por pessoa? :)

Beijos de vento e de bom dia...

Lizzie disse...

Aiiiii (suspiro profundo de diafragma livre)

antes ir a Paris de França que a Paris-Texas, que o Win Wenders e a Natascha Kinski me perdoem.

Pois lá iremos a Paris de França, tu com essa boquilha vintage e eu com este anel (já de diamante) que me esforço por não perder nestes relatos de Delírios.

Havemos de nos sentar, crinolinas ao vento com um toque urbano chic de rayon e contar muitas histórias cheias de pormenores e pormaiores inesperados. Até que desçam anjos pela noite.

Tenho pena que não ouças esta música da Piaf. Não é das mais conhecidas mas faz-me lembrar danças...a três idades, a três tempos, a três espaços.

Aiiiiiii(suspiro de cintura solta) como há coisas que parecem eternas...

Aiiiii(rodopio em saia evasé, anos 50/60, braços abertos qual Doris Day no Música no Coração, ou melhor ainda, "que sera, sera")

Lizzie disse...

Teresa:

ao longo da história, os trajes nunca foram inocentes. Sempre houve uma razão para serem assim ou assado como houve razões para pintores e escultores exaltarem mais a parte abdominal,a mamária ou dos quadris.

O problema do Dior foi ter nascido, coitado, fora do tempo em que deveria ter nascido. Teria sido mais feliz cem anos antes.
Os seus desenhos também são espelho dos conflitos sociais do pós guerra bem como do confronto, em valores, entre os EUA e a velha Europa.

Abstraíndo de tudo o que para nós é negativo, acho algumas criações dele, em termos de linhas, absolutamente geniais.
Para vestir em modelos não humanos, claro.

Lizzie disse...

Arábica:

Ironia: os célebres vestidos pretos da Piaf, de linhas direitas e simples, foram pensados pela Chanel (embora outro se apropriasse da ideia)para lhe acentuar o dramatismo no palco. E, com já disse lá em baixo, a Chanel não suportava a Piaf.

E nunca poderíamos ir de Dior aos jantares do Alien até pela simples razão que ele considerava as mulheres para além dos quarenta acabadas, embora o pique do charme estivesse entre os 35 e os tais 40.

Vamos de Chanel que para essa cada mulher tinha a idade que merecia. Merecemos 20:))

Besos

M. Angélus disse...

bem Lizzie, parece uma serie de pequenas biografias de estilistas, nao sei muito sobre Dior, muito menos sobre moda, interesso-me mais pelas pessoas, e sem duvida Dior tem muito a dizer.
nao sou ao certo adepto da cultura da anorexia, nao axo que a mulher deve ser tida como um biblô, nem k esta sirva para aumentar o ego de qualquer marido. noto hoje em dia nas mulheres uma espontaneedade que me agrada. por isso, nao sendo machista ou fiminista....1000vivas á channel

dark kisses

Arabica disse...

Lizzie


20??? tantos? :)))


E estes teus 30 segundos de Piaf fazem-me fome de mais voz...vou pois ver, se algum rasgo de criatividade se abate sobre mim, de forma a incorporá-la por lá...

Je t'embrasse ainda de pijama pret a porter :)

Lizzie disse...

Aiiiiiii, ERRATA na resposta a "anónimo disse..."

tenho andado a ouvir tanto, mas tanto, canções da "Música no coração" para um pequeno momento de comédia irónica e, por outro lado o "que sera, sera", para uma pequena reflexão sobre os imponderáveis do destino, que até botei a Doris Day no lugar da Julie Andrews.

Credo, o seu a seu dono, oh Paris à vista...

Lizzie disse...

M. Angélus:

Podia continuar a série de biografias, que as há, continuando no mundo da moda, bem interessantes.

A biografia da anorexia também é muito interessante, complicadinha e, em certos aspectos arrepiante. Nasceu bem antes do Dior e do Balanchine.

Também não sou machista (conheço mulheres que o são)nem feminista pelo menos nos sentidos tradicionais do termo, como a Chanel também não era.

Também lhe dou mil vivas: nem bibelôts nem submissão com total autonomia dentro da feminilidade. Para as mulheres terem "poder" não precisam de imitar o raciocínio e comportamento geralmente considerado masculino.Devem valer por aquilo que são.

Dark kiss

Lizzie disse...

Arábica:

quando me levanto de manhã, mereço ter oitenta. Quando vejo que alguém, como tu, ainda está de pijama numa sexta-feira, às 10.02, fico com a rabugisse dos 90.

Depois vou regredindo,às vezes, até perder a noção da idade.

Já não faltam muitas semanas para ouvir em alto e bom som esta canção tão dançável da Piaf. Irei ficar com o brilho dos quinze.

Esta canção está num cd raro e dela constam três versões com orquestrações e interpretações diferentes.

Esta versão,a mais festiva,cantou-a em "celebração" do seu escandaloso casamento com Théo Sarapo, vinte anos mais novo que ela.

Bom dia, rrrrr, ainda de pijama?

Lizzie disse...

E ainda cá volto, para quem gostar de música, para dizer que estranhas e fascinantes são as versões de canções da Piaf, nomeadamente esta, em flamenco/jazz, cantadas no mais sonoro castelhano, por Eva Dúran.
De tal registo é que já sei que não vai além dos míseros 30 segundos.

Qué lástima, coño!

Arabica disse...

Pois que despido o pijama e as olheiras se vestiu lá para o meio dia de saudade por Barcelona e meteu pés a caminho até ao cinema mais próximo...

Pois que reveu Barcelona e as ramblas de raval e Gaudi coño e o lugar de mercearias (não serão todos iguais?) e o lagarto do parque de Guel e La Pedreira e a modos que sentiu saudades dos portões do bairro gótico, onde sem tinta escreveu com os olhos adeus, tem mesmo de ser. E sorriu porque, entre dos águas, a música de Paco de Lúcia ali estava também, quase a dizer-lhe: nao te esqueci portuguesita dos olhos d'água que aqui andaste como se aqui nasceras, e coño -Juan António que te mato!

E assim, fui a Barcelona e voltei,com mais uns anos em cima mas menos malas de porão ;) menos peso, sim. :))


E obrigada pela Eva Duran, que já vou ouvir e pesquisar a pente fino.


Besos de pés cansados :))

Anónimo disse...

a lizie é tão inteligente e culta!

Anónimo disse...

um espanto a menina!

A. disse...

...belíssimo post.





chic chic, querida Eli.


são beijos.
**

Lizzie disse...

Arábica:
que bem se estaria hoje, com este sol, na loucura tão específica de Barcelona...e onde Juan se pronuncia Chuan o que dá Chuan Antonío quel vats a matá(mais ou menos):))

Não será em Barcelona mas em Madrid que irei ver e ouvir a Eva num projecto de fusão entre flamenco e tango. Com dança também fusicionada. Me muero de ganas, coño.

Com sorte talvez ainda se ouça o, por ela tão fogoso:
ná,
ná de ná,
ná,
no me arrepiendo de ná.
Ni del del mal que me hicieron
ni del bien
......:))

Besos

Lizzie disse...

Anónimo:
cheira-me a ironia e,por isso é melhor ficar-me por aqui. Também me cheira que já sabe como elas mordem.

Não fora dar-lhe o benefício da dúvida, diria que a minha inteligência é directamente propocional à sua...bom, ao seu atrevimento.
Uma questão de fazer as contas.

Lizzie disse...

Passarinho:

não fosse ficar demasiado longo teria falado da influência do New Look/Nouvelle Vague na dança, a "parente pobre" e discreta, que sendo tão pouco falada, é sempre espelho e reflexo de tudo.

Há bichinhos, cá dentro, que nunca morrem e dão posts. Por esta ou aquela razão.
Se calhar a Chanel e o Dior também se dançam...:)

E por chic, no sentido de únicos e distintos, tenho cá para mim mais dois: Uma Thurman e Johnny Deep. Sans doute
Coincidências.


Grande, grande abraço.

Arabica disse...

Encontrei pouca coisa da Eva, Lizzie.

Ai que inveja! Ouvir assim o je ne regrette rien em voz diferente :) et aprés tout;))) o "Je vous salue, Madame ":)


Je te salue aussi, Madame.


:)

Lizzie disse...

Arábica:
sorte a minha que tenho os cds irritantemente protegidos a cópias seja para onde for, mesmo com intenções generosas:)

E sorte de ter, volta e meia, a Eva feita sempre fogo e inteligência, mas com toda a sua calma,a partilhar experiências e churros ou tapas.

E é das tais que vive mais para trabalhar, para dar a volta às coisas, que para dar entrevistas.

Besos

Arabica disse...

Ai esses cds protegidos!!! :)


anti roubo anti plagio anti areia anti dedadas anti vento anti queda :)

Alien8 disse...

Lizzie,

Já tardo, e muito... mas só agora pude ler e comentar a saga de um homem que salta do estrume para o luxo ostentado, desdenhando do necessário e do prático, tentando moldar a mulher, que considera imperfeita - enfim, tudo natural, atentas as raízes.

Uma vez mais, muito bem contado, com as ilustrações rigorosas do costume (a memória fotográfica, pois:) e uma excelente Piaf numa excelente canção: belíssimo remate.

Um beijo, que agora vou ao outro post:)