terça-feira, 24 de março de 2009

Advertência chamada credo…cruzes, canhoto, assim tanto também não:

Quem ler este não se assuste: foi escrito, agora, para servir de mote interpretativo numa audição para uma espécie de dança. Fosse eu uma das três criaturas que o terão que traduzir com o corpo e apanharia o avião para me assassinar.
Baseia-se, em recurso aflito e antes de matar quem me fez a encomenda, nos diários privados da grande Patrícia Highsmith, que ando a ler, num conto de Dorothy Parker e, talvez a mais residual e comovida parte, venha dos escritos de uma bailarina americana, internada num hospital psiquiátrico aos 22 anos. As três viajaram pela loucura, com descrições da paisagem do outro lado, que nunca se esquece.

A voz do pássaro luminoso.


Não olhe assim para mim!

Faça como os outros: finja que escreve do alto da sua sabedoria!

É casada? Tem um marido arrumado na prateleira de um amor que sonhou?

Tem filhos virados para o sucesso? De fato e gravata durante a semana e de camisa aos quadrados fora das calças nas folgas? De curso tirado em altura própria, por quem as raparigas suspiram futuros para além da morte?

Tem alguma filha, ai sim, mais nova que o rapaz, boa aluna, exímia no tricot e arrumada na casa, bonita e serena como um anjo dado por Deus como prenda pelo seu juízo ordenado pelo esquema da multidão?


Eu nasci de padrasto sentado na sala.
Já nasci substituída.

O meu pai natural era caixeiro viajante na venda de desgostos. Andava de terra em terra com uma barraca de títeres. Sou filha de um espermatozóide ambulante e de um óvulo apaixonado.
Quando me veio ver, trazia um pirata numa mão e um soldado na outra.
Tinha cara de cágado com bigode como aquele homem que há pouco lhe trouxe aquele papel para assinar.E fazias vozes ridículas.

Apeteceu-me matá-lo outra vez. Matei-o muitas vezes. Escrevi, no papel pousado dentro da minha cabeça, mortes infindáveis.

Não sei que idade tinha eu então.


Nunca me medi pelos anos que me passaram pela pele.


Ali nunca tive dias diferentes e quando os dias são iguais deixa de se fazer anos. Para que é que se precisa de um marcador de páginas quando num livro elas estão todas em branco?




Só fiz anos até aos vinte e dois. Acha muitos? Depois meteram-me aqui. Não sei, não me lembro. Talvez tenha morrido. Mas não me lembro de semelhante coisa. Acha que se uma pessoa morrer se lembra que viveu?


Que pena! Era tão inteligente! As enfermeiras falavam de mim com se fala de um electrodoméstico. Nunca falaram de si como se fosse um frigorífico, com essa cara de fogão?
Queimei as minhas ideias com os livros que li e escrevi.
E com o voo dos pássaros luminosos que, na dispensa escura onde a minha mãe me fechava, desenhavam círculos.



A minha mãe sentava-se na cozinha a ouvir folhetins. Quanto mais se esquecia de amar, mais absorvia aquelas vozes sem corpo. Acabavam sempre com
-I love you so much, honey! marry me!
- Oh sugar, i´m your baby for the rest of my life".
-Kiss me
e entrava uma música com som de acorde final, encharcada de violinos felizes.



A minha mãe via retratos do Gary Grant em revistas de papel amarelo. Como aquelas que você gosta de ver para saber como se viveu antes de ter nascido. Com essa mania de nascer ao contrário.
E da Vivien Leigh que não precisava como ela da pasta de cremes da Elizabeth Arden com bichos que lhe comessem a flacidez da papada em noites de luar enquanto o Bing Crosby cantava com voz de amaciador de sonhos.

O meu padrasto ouvia os discursos do Roosevelt para a cura do mundo feito prato partido.

O amor deles só sabia andar em marcha atrás: um motor a pôr cada vez mais longe a linha do horizonte numa espécie de manobra de urgência para salvar a espécie humana dos desiludidos.



Um dia, o meu padrasto mostrou à minha mãe o cabeçalho do New York Times. Conhece? Ainda existe?

Tudo porque eu estava a dar nomes às criaturas de Deus que eram os feijões a passearem no prato por ordem do garfo.

Dizia assim: Women´s personalities changed by adrenal gland operations.

Não sei se foi por isso que o Dostoievsy me mandou fugir, nua pela neve de Dezembro, para Paris ouvir música e dançar longes.

Não me lembro se foi ele se foi o Thomas Mann. Ou o homem que punha vampiros nas noites calmas das pessoas tranquilas.



Não me lembro quem me falou com voz de pássaro luminoso.

Foi você?

Já escreveu tudo enquanto me imagina, com tinta de resumo, sentada à sua frente? A juntar pedaços soltos de memória para me construir? Para me mandar?




Como é que se chama?

Eu sei! Eu digo:
o olho desse lado chama-se Manuel, o do outro lado Francisco, o nariz António, o ombro do lado do Manuel chama-se Carlos, o do lado do Francisco chama-se……… !

11 comentários:

Anónimo disse...

não tenho coragem

não consigo respirar

evaporo-Me neste texto

reconheço-Me





quem é a lizie?

como se chega até si?


vou de olhos vendados;-)

Emma Larbos disse...

Ai mujer, que tens que despedir-te dessas encomendas!
Entonces com tão lindos dias de sol que tem feito andas aí a dicursar psico-dramas ?
E olha que já andam anónimos a querer abrir o baile...

Lizzie disse...

Anónimo:
Se se reconhece totalmente tenho pena...
não deve ser agradável andar (completamente) no sofrimento, e para além dos limites,da desordem mental.

Hoje em dia já há ajudas menos "nazis" e muita gente faz a sua vida sem ficar encarcerada.

Quem sou eu, basta consultar o perfil. Mais coisa menos coisa.


E last but not least, vai-me desculpar, mas há as pessoas perturbadas com desassossego de ideias

(por quem tenho empatia e o maior dos respeitos)

e as que se fazem por uma questão de estilo.
Ou me engano muito ou está na...segunda categoria.

Lizzie disse...

Ay Emma Mía, que cosas tienes...

então recebo eu um telefonema castelhano (às 9 da manhã, imagina...) género "bota aí uma coisa difícil para desempatar" logo à tarde, que tem que ser hoje,

ponho-me eu aos berros que não sou fábrica de coisa nenhuma,

escrevo em espanhol, mando por mail, traduzo amputando, a olhar para o sol lá fora e que bem estaria eu a ler, ou sem fazer ponta de corno, repousada romanticamente na praia com o meu gorro verde de delinquente na cabeça, ai que bem que me saberia um ice tea de limão,

imagino-me eu e/ou titular da encomenda ( com a respectiva ferrugem) mais as três criaturas de idade ainda polida,na audição

e tu falas em psico-dramas?

Então e as desgraçadas que foi ler, memorizar e actuar?

Vê lá tu que só quando li e vi que tinha botado determinadas ideias é que percebi o meu inconsciente maquiavelismo (como o caso dos feijões).

Não te preocupes que ainda ninguém me assassinou.

Há noite houve brincadeira porque me disseram que a jarra Pilar se tinha partido e eu disse que o carro Hermenegildo precisava de mudar de pneus e a garganta Callas estava a arranhar por causa dos pólens Silvas.

Emma Larbos disse...

Ai, pobrecita, que te explorán!

Mais valia uma encomenda de bolos, que, pelo menos, sempre podias rapar a tijela.

Produzir sofrimento nesta encantadora Primavera é muito cruel.
Eu estou aqui a ouvir os pardais chilrear nas árvores que me acenam na minha janela de trabalho e foge-me a concentração para uns dias de férias na Páscoa. Planeio fazer gazeta e ir-me embora para casa mais cedo hoje e ponho nos ouvidos o meu mp3 cheio de sons de violino de Fauré e de Grieg e - venha lá o que vier agora - não me apetece nada sofrer.
Se me viessem fazer uma encomenda dessas, atirava-lhes com qualquer coisa à cabeça!
Por falar em cabeça, o gorro verde é aquele em que eu estou a pensar, ofertado durante um jantar chinês? Ainda não te vi com ele, mas adorava!

Lizzie disse...

Emma

que hóstia Tía, por supuesto tu não me desconcentres que ainda falta muito para a Páscoa e ando com os pés a precisar de ondas.

O gorro não é esse. O ofertado chama-se
"Ai Maria não me mates que sou tua mãe",
em homenagem a quem mo ofereceu:)
e, a bem dizer, é mais chapéu que gorro.
Ouvi dizer que me fica bem e que pareço uma inglesa escura que vai down town fazer compras.

Não tenho, em geral, grandes amores pelo Grieg mas adoro Fauré sobretudo nas sonatas para violoncelo.

Neste preciso momento estou a ouvir uns romances que eram cantados, à fogueira, por viajantes americanos no séc.XIX e princípio do séc. XX.
Ay que ganas de viaje, Tía.

Antes estive embalada numas músicas judias do séc XIV.

Lizzie disse...

E Emma mais te digo que:

-nos diários privados da Patricia Highsmith,ainda vou só no fim da adolescência (são só 800 páginas de livro),e já descobri o como e o porquê de Mr Ripley.
Acho engraçado que quem estudou e editou os manuscritos foi ver as palavras rasuradas;

-as fotografias do edifício abandonado que botei, são de um antigo hospício psiquiátrico (lindíssimo) que será transformado em centro experimental de artes, sobretudo performativas.

Como diz a "encomenda", vai-se manter o espírito da coisa:)

Alien8 disse...

Lizzie,


Grrrrrrrrrrrrrrr! Para as tuas fotografias! Não falhas uma!

O texto é igualmente cativante, intrincado como a loucura e no entanto simples como as palavras de quem sabe contar. Com um tema que me passa um bocado ao lado, pois da Patricia Highsmith apenas conheço os livros que li - o Mr. Ripley, sem dúvida, e alguns outros, se bem me lembro. Será melhor dizer "passava ao lado", que agora já me iluminaste a ideia :)

Excelente.

Um abraço.

Lizzie disse...

Alien:

obrigada, obrigada, obrigada!:)

Pois que para mim a D. Highsmith está a ser uma surpresa. Também só conhecia os livros de que sou fâ.

Uma personalidade interessantíssima e pouco linear sem se poder (penso eu) chamar louca.

Quando acabar a saga,não sei quando porque ando a ler vários ao mesmo tempo, faço post em jeito de resumo.

Um abraço e um bom fim de semana para vocês.

ps: quanto a imagens...:)

Arabica disse...

Lizzie Zizzie,


cheguei tarde, mas cedo, nesta manhã limpa, em que te pude ler de forma igualmente desensarilhada de outras ideias.

Como se dança a voz de um pássaro?

Belo, muito belo.
Tão belo quanto triste.


Um beijo. Bom fim de semana.

Masturbatrix disse...

Difícil aprendizagem de vida...e a memória moldada para sempre.

Adorei. Poderoso!