segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

A menina que valia um império


E impôe-se, coño, que fale, em sequência, de uma mulher que foi estrela da dança com mais códigos que conheço . Aproveito a vinda a Lisboa, da grande cantaora, sem lhe desprezar o jeito para el taconeo, de Maria del Mar Fernandez, integrada no Nuevo Ballet Español, sobrinha neta da tal que vou falar a seguir e que respondia pelo nome que lhe botaram de Pastora Imperio, tal era a sua magnitude arrasadora.







Nasceu com vontade de cantar e dançar e foi tão boa numa coisa como na outra. Foi mote de paixões sem fim e até Manuel de Falla, sucumbiu aos seus olhos verdes e pose altiva, compondo para ela uma primeira versão, apenas para canto e guitarras, do Amor Brujo.

Um escritor, debaixo da sua janela , dedicou-lhe no silêncio da noite a seguinte prosa:

Su carne arde con el fuego de la eternidad y su cuerpo es el pilar de un santuario, palpitante como si se consumiese en la llama sagrada.

Falla não se cansou de dizer que ela era a escultura de uma chama, e um poeta que a sua negra cabeleira só era comparável à beleza e mistério de uma noite vazia de estrelas e de lua.

Foi retratada em tinta e palavra por uma pleíade de gente e serviu de inspiração e guia para Rocio Jurado, lançada por ela, passando por travestis de todos os continentes.




Esta menina não é ela mas podia ser, pois que , contra a vontade da mãe, também bailaora, começou a dar espectáculo na rua. De nada lhe serviram as monumentais sovas, porque quanto mais levava mais o duende se apoderava dela, até que fugiu para cafés e outros antros pouco próprios para a sua idade. Sem saber da existência de Delsarte, inventou um estilo próprio, uma linguagem contagiosa, libertando-se dos passos considerados correctos. Deu corpo à tragédia e ao desafio. Olhava os espectadores de frente, desafiando-os. Criou a improvisação. Movia-se a mando da alma e ao sabor da efervescência que ia criando, em crescendo, qual bolero de Ravel, até sair esgotada, de cabeça erguida, peito para a frente e braço no ar.

Inventou também, a bata de cola, ou seja, o vestido com cauda




para grande desespero de quem veio a seguir, tal é a dificuldade, de pôr tal extensão a falar.

Dotou o movimento dos braços de autonomia e graça. Até aí estava a dança muito localizada nas pernas e nos pés.

Desenvolveu e aperfeiçoou a linguagem das mãos. Só por si contam histórias e comunicam segredos ( não confundir com aquela versão comercial e turistica das sevilhanas, que se vê tanto por aí e na maior parte dos casos não tem nada a ver com coisa nenhuma).
As mãos podem chamar amores, matá-los, acariciá-los, despreza-los ou ser queixume de abandono.






O flamenco é , por natureza uma dança libertadora do que se sente, sem que se possa contar. Há sentimentos que não cabem nas palavras. É uma dor que transborda das veias ou a celebração duma alegria que não se expande no riso. A partir da Pastora, valoriza-se mais a interpretação individual. A dança pode não ser técnicamente perfeita, o que importa é o que se consegue ler nela. O desabafo sem palavra que se conheça.

E esta dama levou o espectáculo aos teatros própriamente ditos. E também para fora de Espanha. Império, com Carmen Amaya, catalã, aqui à esquerda e também inventora de um estilo








foi defensora da especificidade e garra da Raça Espanhola : mulheres cheias de genica, de acção que não recuam perante qualquer dificuldade, defensoras da Igreja, da família, da pátria, descendentes das que entornavam grandes potes de azeite a ferver para cima dos invasores franceses. Das que matam para defender homem e filhos e entram honradas na cadeia.

Por isso La Império, não podia ter deixado de casar com um toureiro afamado. No altar, sacaram da faca e fizeram-se mutuamente um golpe na mão. Era um pacto de silêncio. Acontecesse o que fosse acontecido nenhum deles abriria a boca. Separam-se ao fim de alguns meses, nunca mais trocaram olhar ou palavra e calaram-se para sempre.





Muitas foram as especulações e... nada. Às vezes, era abordada nas missas por incautos. Chamava-os para o adro da Igreja, soltava palavrão de fazer corar as pedras ancestrais, e voltava purificada para a casa do Senhor. Conta-se que também se purificou partindo um porrón de vinho em plena cabeça do Hemimgway.

Afastou-se do cinema, e muitos foram os filmes melodramáticos que fez, recheados de amor e morte, e dedicou-se ao tablao que fundou em Madrid e que várias vezes frequentamos quando tenemos ganas de jaleo, desafiados por outra também grande Mar, que não a que falo lá em cima.

Apesar de la Império ter morrido em 1979, ou é impressão minha, ou da fotografia em frente à porta, ainda ordena


a bailar, coño.





E que cada um saia mais leve e transpirado do que entrou!

12 comentários:

nnannarella disse...

Bom dia, meu Arcanjo. À primeira leitura desta maravilhosa saga feminina que tão belos frutos deu, a cena de que mais gostei foi da do "porrón de vinho" na cabeça do Hemingway. Catártica! Ai, quem me dera ter sido eu!
Pórrons e pórrons! :)

Haddock disse...

olé!!!!

ah mujer!!
também adorámos essa do porrón de vinho no cocuruto do hemingway, que tinha a mania que era esperto!
queria fiesta?? tumba!!
mas nem nos espanta. quem quer que bata vigorosa e compassadamente com os tacões no soalho inspira respeitinho!! sim, sim!! o gesto, dizeis bem, lizzie. mais o elegante revirar das mãozinhas que sempre nos causou inveja, para não falar no olho verde...

ah pastora!!

vénia...

Emma Larbos disse...

Pois, lá que a mocita é pespineta, lá isso é! No primeiro retrato noto-lhe uma sombra de buçozito a combinar com a jaqueta de toureira?
E porquê Pastora? Império combina, agora as pastoras costumam ser criaturas bucólicas que passam o dia sossegadas atrás dos seus rebanhos. Ou não era cognome?
Também eu me regozijei com o porrón na cabeça do Ernest! Bem feito! Espero que estivesse cheio!

Lizzie disse...

Antes-de-mais-errata-é-o-que-dá-escrever-à-pressa:
Onde se lê Nuevo Ballet Español deve ler-se Nuevo Ballet Flamenco.
Tanto aquelas alminhas falaram, tragando inúmeros pastéis de Belém, do movimento do novo ballet español, que me enganei.

Meu Anjo, a propósito de sagas femininas, ainda hei-de falar da minha favorita, a Carmen Amaya, tão frequentadora de Lisboa durante a guerra civil e amante de fado trágico.
Quanto a esta dama, era especialista em partir porróns e vasos (copos) a quem passasse dos limites. Se calhar tinha sangue grego, com tanta loiça partida.
A minha cena dilecta e comprovada por tanta gente, era o facto de não dizer palavrões dentro das igrejas e vir ao adro. depois benzia-se e, suponho, que o Deus dela a perdoava.O Deus espanhol é muito dado a honras cavalheiresca de sangre e palavra.

Lizzie disse...

Capitão:
parai com a inveja de olho verde, ou então, sereis, por honra, obrigado a devolver-nos intenção de herança.Bom.
E nunca pusemos pézinho em touradas nem em nada que em crueldade se pareça e muito nos irrita a mania que americanos têm de se pôr aos berros nas ditas. À pastora, defensora da Raça, também lhe dava incómodo. O que andaria o barbudo sempre a armar-se em corajoso...e a tentar seduzi-la, a ela meia cigana, ainda por cima.
E tendes razão e toda Capitão. Há lá dança onde de sinta tanta força com tão subtil elegãncia. E para se botar a alma para fora são precisos anos e anos de aprendizagem. Como tudo, para improvisar, é preciso saber a base a fundo.
E é preciso que nos deixemos contagiar para sentir tal "cante" e "baile". Sem nos importarmos que o coração bata mais depressa.

Continência

Lizzie disse...

Mi Emma:
o buço, que se foi tornando mais farfalhudo embora nunca muito exuberante, com o correr dos anos, era típico e elogiado na tribo. Ainda não há muito tempo, estávamos a ver uma entrevista com uma senhora velhinha, também bailaora, e parecia o Trotsky sentado com saia preta até aos pés e pernas abertas, ao jeito cigano.
As mais novas, já são um bocadinho mais depiladas e compostas.
E Pastora é nome próprio, também muito comum. Uma em cada dez tem tal nome e na mesma proporção, sete são chamadas de Carmen.
E como sabes, nestas andanças de cantos, danças e toureios todos têm alcunha. A desta surgiu quando um crítico importante declarou que ela valia um império. Tenho uma amiga que, em tal meio, ainda é conhecida por Mar, la Rosa.


E quanto a ser pespineta, a sobrinha neta passou de cigarro de tabaco preto em frente a um segurança que mandou apagá-lo, e não foi de modas: ele que chamá-se a polícia portuguesa, se qisesse, que o fumo lhe estava a aquecer a voz. E continuou a andar, gingona. Olé!

MGB disse...

Pois eu, Lizzie, como os detalhes interessantes já foram todos referenciados digo-te que adorei aquele repolho vermelho e a badana castanha do penteado dela. Sempre me impressionaram esses enfeites de cabelo que as espanholas usam no alto dos cocurutos. Este está em perfeita consonância com o olhar exótico e a postura da face. Forte e segura como rocha milenar.

Beijinhos.
Cici

nnannarella disse...

E antes que passe esta lembrança profunda da tia avó Império, deixo os meus respeitos à sobrinha neta que, vá lá, desta feita não provocou nenhuma atabalhoanço argimírico...:)
Apreciei também a tua cena dilecta. Mas a da faca também é um primor.
Gingonices e gingonices!

Lizzie disse...

Cici:
as espanholas são muito floridas e até entram em competição pelos enfeites capilares. Pelo menos as mais tradicionais. Este pintor botou-lhe um repolho que pela cor flor significa fogo abrangente de paixão, no sentido espanhol de ilusion, ou seja, interesse apaixonado pelas coisas, pela vida.
Já reparas-te na desproporção entre o tamanho da cabeça e do tronco?
E aquela nuvem lá atrás, será água em estado gasoso, ou o rebentamento de uma granada?

Beijinhos

Lizzie disse...

Meu Anjo:
cá estiveram as duas Mares.
A Mar Argimirica não canta, só dança e fuma um cigarrito muito de vez enquando e ralha connosco por fumarmos tanto.
A Mar sobrinha neta é mulher que tem a quem sair: canta,como actividade principal, dança, porque já assim nasceu, e ainda fuma mais que eu. E se tia avó partiu um porrón cá para mim esta partia cinco e mais que houvessem à mão.
No fim do espectáculo, nos agradecimentos, tipo encore, dançou um bocadinho do flamenco de rua. Adorei.
Olha, ruas e ruas deles.

MGB disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
MGB disse...

Lizzie, pois reparei. Acho até que essa desproporção mais o pescoço demasiado alto foram os primeiros detalhes que me prenderam a atenção. Parece-me um tipo de deformação anatómica planeda pelo pintor com intenção de representar melhor a robustez do carácter e o fascíneo da alma tornando, assim, a senhora mais atraente.
Quanto à nuvem, acho que é uma nuvem de gás, porque é delas que nascem as estrelas.
:)

Cici