segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008



Céu, flores , ossos, grutas, amores






Nasceu esta dama,Georgia O´Keeffe, destinada a viver até aos 98 anos, sabe-se-lá, se por ter genética curtida entre irlandeses e hungaros, se por ser dura de roer como as rochas do Novo México.

Fez parte de uma geração de mulheres viradas para aventuras nunca antes vividas. Manisfestou-o anunciando à família não querer ser outra coisa na vida senão artista. Era ainda criança, mas já se lhe notavam os dotes e as vontades. Foi nómada, andou por muitos sítios e escolas, onde ora aprendia ,ora ensinava. Na maior parte das vezes, tinha, simultaneamente, as duas actividades. Um dia tomou contacto com a notan, técnica japonesa de trabalhar as luzes e as sombras. Apaixonou-se também pelo rigor da simplicidade de definir formas através de linhas. E encontrou a massa que haveria de moldar.

Em Nova Iorque, descobria-se a abstracção. E Georgia disse que queria transformar as cores e os traços na mais abstracta de todas as artes, a música.

Começou, depois de ter achado que afinal não tinha talento,




(este, ainda que rejeitado; continua a ser o meu preferido)


a desenhar linhas interpretadas por ela, a carvão. Uma amiga levou os desenhos até Alfred Stielitz, que logo os expos na sua galeria, levando a rapariga a passar férias na casa de família, família que abandonou, filhos incluídos, para casar, durante uns acidentados e intermitentes 22 anos, com este novo conhecimento.

Ainda hoje existem dois partidos na opinião americana: os que dizem que Georgia é grande e os que dizem que Stielitz foi maior. Não sou militante inscrita mas, posta esta dualidade redutora , voto no primeiro.

Stielitz teve a obsessão de a fotografar, e até de a expor nua, em galeria aberta. Coisa escandalosa, tratando-se da legítima, porque das outras ninguém fala.

Bom, mas Georgia começou a ser influenciada pela fotografia, quer dele, quer de outros como o famoso Ansel Adams. Foi a conselho deste que foram passar umas férias ao Novo México.







E Georgia apaixonou-se pela luz bruta do céu, pelos vermelhos e ocres do solo, pela monumentalidade dos rochedos, pela estilização dos ossos dos animais, espalhados pelo deserto. Ou não fosse aquela terra de morte e renascimento constantes. Quem por lá passou, sentiu-lhe a magia inóspita, os sons em eco, como fantasmas perdidos sem rumo nem fim.







E, foi viver, intermitentemente para lá, e de forma permanente quando Stielitz morreu. Em 1946.









A Georgia toda aquela terra evocava sensualidade e mistério. Talvez o único ponto coincidente entre ela e Martha Graham. Esta tornou-a definitivamente hostil desde que aquela se recusou a desenhar-lhe um cenário. Georgia, frontal, disse-lhe que detestava as suas danças. Razão teve uma editora da Vogue, que as divulgou para fora dos circuitos dos habituais consumidores de artes, em ter escrito que as duas eram parecidas, senão iguais, até numa obsessão artistica: a vulva.








De facto Georgia viria a confirmar a sua intenção em assimilar a similitude entre a paisagem e a anatomia feminina. Numa carta a D H Lawrence fala das flores e das grutas. Em termos claros. Martha Graham, também as via em todo o lado, como eixo central do sentir do corpo. Mesmo nos bailarinos.








Logo choveram e continuam a chover ensaios boquiabertos, virados aos ventos de Freud . Mas talvez a mitologia dos povos se adeque às circunstâncias e, por isso, nos ritos dos índios daquela zona, tal pudenda parte seja considerada sagrada, com poder divino, fonte de vida. É uma natureza côncava: a pouca água vem dos poços, as grutas servem de abrigo. A música, de que sou fã, evoca ressonância, a dança tribal tem uma sensualidade marcadamente feminina. Até os homens se vestem de maternidade a implorar a dilúvios.

Georgia começou a pintar as flores em macro planos, monumentais em dimensão, de forma quase abstracta, fora do contexto das tradicionais naturezas mortas, embora essa tendência já viesse a esboçar-se, na pintura americana, desde meados do séc. XIX. Há também quem defenda que Dorothy Norman, com o seu sentido do pormenor, acabasse por ter alguma influência.







Os ossos acompanharam as flores: a abertura da zona pélvica, por onde se podia espreitar, dizia ela, os mistérios do céu, ou a simbiose entre a vida, flor, e a morte, esqueleto. Há quem pense tratar-se de metáfora da sua relação com Stielitz. Georgia nunca falou no assunto quer em relação a este quer a Todd Webb, assim como Juan Hamilton, que lhe foram fiéis em acto e palavra, até à morte dela, em 1986.









Depois, começou a reproduzir a arquitectura nas linhas essenciais. Lá estão quase sempre as negras aberturas








a reduzir os fluxos da natureza a traços já na fronteira entre o expressionismo abstracto e o minimalismo






ou a pintar coisas banais, como esta rocha. Dizia ela que eram coisas sem importãncia, mas que há sempre gente a gostar e sentir as coisas que, sem valor, têm forma, presença e história.





A partir de 1971 começou, lentamente a cegar. Só ficou com a visão periférica. Abandonou o óleo, interpretou com aguarela. Começou a viajar, voltando sempre ao país europeu de eleição, Espanha.


Voltou a Santa Fé para morrer.


Talvez seja uma das águias que sobrevoam o céu do deserto. Lá dizem os índios, que o espírito das mulheres ou se transforma em águia, ou incorpora a suavidade das nuvens. Afinal o futuro, mesmo no céu, é construído no pó da terra.







15 comentários:

A. disse...

...

azul...sem rumo nem fim.......






http://s79.photobucket.com/albums/j125/askim55/?action=view¤t=Ana191.jpg






...tantos e tantos.beijos.
*

Madame Maigret disse...

Ma chère amie, quelle trés belle dame esta senhora! Je ne comprends grande chose d'interpreter pinturas e fotografias, mais je pense que bordar et tricotar c'est pareil a pintar?...... Ces paysages du Novo Mexico ne se ressemblent pas du tout à ma campagne alsacienne et pour isso mesmo m'enchantent!Un gros bisous, merci,madame Lizzí:-)

Haddock disse...

jarros...
fazem interessantes jarras...
a sugestão erótica que a o'keeffe sublinhou neles (obsessivamente?) podia até ser aproveitada para aqueles testes psicológicos tipo "o que vê aqui?", sendo que, no fim, se mostrava a casinha para avaliar o grau de confusão do paciente...

o génio (o bom e o mau) não sabemos avaliar - não somos muito dados a pendurar flores -, mas a história desta senhora é poderosa!

as tubagens já chateiam, não é lizzie??
tomai lá mais uma, então... (seguramente que conheceis!)


http://www.youtube.com/watch?v=BYwKRVJaNEA&feature=related


vénia...

Hidra_de_Lerna disse...

Tia linda...! Também preferi aquela casinha, mas tudo o que dizes é tão inspirador! Acho que iria traduzir num ápice o Marco Aurélio nessa casinha ou no deserto!


Que sorte, a da Georgia!
Beijinhos.

Emma Larbos disse...

Gosto dos quadros e suas cores, embora prefira olhá-los sem me vincular à interpretação divulgada. Gostaria de ali ver o que me apetecesse, como sugere o Capitão. Acho a obsessão com o órgão uma coisa menos interessante. Se fosse um pintor homem a pintar obsessivamente o respectivo órgão e a tecer teorias sobre a fonte vital que o dito cujo é, haveria muitas vozes a levantar-se. Compreendo a circunstância da pintora, a novidade e a insurreição. Como espectadora, prefiro que o sentiro da arte se reconstrua nas leituras sem vínculo à intenção original. Como não sou historiadora desta arte, não preciso de indagar essa intenção, o que me deixa livre para apenas olhar para ela.

nnannarella disse...

Conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos....
Foi este verso de Pessanha que me veio à memória, assim que li o título do texto.
As flores são seres sensíveis maravilhosos, tão resplandecentes e efémeros quanto o foi Georgia na sua singularidade e fortaleza.
É sobretudo isso que leio nas entrelinhas do que escreves. Depois há a tristeza latente que, ao menos, ela soube corajosamente interrogar em espaços áridos e inteligentemente transformar em artes que ainda perduram e fascinam.

Magias e magias!:)

Lizzie disse...

Obrigada Passarinho.
Os azuis têm rumo, sim. O díficil é escolhe-lo.





Abraço sem fim.

Lizzie disse...

Madame:
Foi de facto uma grande senhora, goste-se ou não dela.
E naquelas paragens, Madame, o tricot e os bordados são de facto uma grande arte. Tão diferente da europeia, que parece que se muda de planeta.
Se já vos conhecesse, meteria cunha a votre mari para descobrir quem me roubou o chapéu que lá comprei. Igual ao de madame Georgia. Mais tenho ainda uma manta para le frois. Trés belle.
Je vous embrasse.

Lizzie disse...

Capitão:
obrigada pela tubagem. É um excerto de uma tubagem que dá para fazer um túnel de Lisboa a Setúbal. Trouxe-nos lembranças públicas e privadas.Disso botaremos faladura mais tarde.
Também não somos muito dadas a pendurar flores, fazem-nos atchim como à Maria Papoila.
Esta senhora ficou mais célebre por ser pioneira na exploração daquele mundo. Depois chegaram outras que essas sim, não hesitaríamos em pendurar. Temos até uma pendureza, em forma de reprodução, que ainda não nos saiu o euro-milhões para pendurar tais originais.

Continência

Lizzie disse...

Riqueza de sobrinha:
Vou-te mostrar mais casinhas, em campos abertos. Até imagino o teu cabelo (ainda está modelo francês?),ao vento do final da tarde.
Um dia destes ainda te mostro as minhas casinhas preferidas, as do norte, em uterina madeira, a cheirar a cedro, chão a ranger a acompanhar a música dos reachos. Muito apetece lá estar. Muito traduzirias tu.
Estás-me a pôr nostálgica.
Grande beijinho.

Lizzie disse...

Mi Emma:
Nas artes contemporãneas, o sentir do espectador é fundamental. Muito se faz para que a obra seja participada. Sabe-se-lá, o que os artistas pensam quando a produzem. Ainda não há muito tempo umas autoras inventaram uma história acerca de uma dança.
No entanto, embora eu também não seja historiadora de tais coisas, acho importante compreender os contextos e a evolução dos artistas. Sem grandes rebuscamentos. Para quem cria as coisas são, às vezes, tão simples. Tão lineares. E lá chegam os teóricos a complicar.
Pessoalmente, gosto mais da fase Georgiana das casas e uvas e depois a fase mais repousada das coisas "sem importância", ou os caminhos de traços largos já comandados pela cegueira.

Só percebi melhor as obsessões, depois de lhes ter lido (Georgia, Martha, Susan, Garbo, Marlene) a correspondência. E sobretudo depois das explicações de uma colega índia.
Já explico.

Lizzie disse...

Triste sim, quase tão triste como a Dorothy. Mas, meu Anjo, tão fortes que foram aqueles corações a partirem-se aos pedaços. resistentes como pedras. Sabes que a Georgia tinha, em Ghost Ranch, um conjunto de pedras que eram uma espécie de puzzle com forma de coração? Deve ter sido a natureza que o organizou para ela descobrir.E cada pedra com a sua cor.
Não conhecia tal verso. Sou uma nulidade nas artes poéticas.

Cores e cores

casa de passe disse...
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Hidra_de_Lerna disse...

Ai tia...

(não, o meu cabelo já não está modelo francês, agora está mais estilo judia-à-beira-do-forno-crematório-em-Auschwitz)

estou mesmo a precisar de ver umas casas do Norte, com o chão a ranger. e, se possível, de me ver dentro delas, em efusiva criação literária...

(a culpa é da minha mãe, da minha avó e da minha tia, que me cortaram o cabelo a seis mãos: verdadeira hidra-cabeleireira-sem-talento-nenhum!)

bom, fico à espera das casas.
ó! as casas as casas as casas!

(mas não está assim tão mau quanto imaginas, a sério)

Um dia bom!

Anónimo disse...

Oi, tenho um livro de Georgia que comprei quando estava cursando Belas Artes, senti que seus trabalhos me inspiravem profundamente e foi muito legal ler sobre ela em seu blog.Obrigada.Bjos.