quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Por aí, tão longe daqui...




Estou na fila da peixaria do hipermercado e a memória entra em trânsito desordenado, rotundas e becos à procura do sítio certo no tempo. Vejo-a a amanhar o peixe e localizo-a. Lá atrás, no colégio. Miúda alta, calada, enfezada, sem jeito para coisa alguma. Saiu das aulas de Ballet porque o corpo descoordenado não obedecia aos passos que têm que ser fixos; saiu das aulas de música porque o solfejo era escrita que o ouvido não entendia e nunca mais a vi até ao meio liceu.


Ficava sentada, encolhida como se um frio entranhado lhe paralizasse os movimentos, à excepção daquele tique de puxar os lápis na horizontal como se os quisesse esticar. Gaguejava e se ia ao quadro, deixava cair o giz continuamente. Olhava para todos os lados, com a aflição de quem tenta encontrar um ponto onde o raciocínio faça sentido e se desenvolva. Numa linha única. Mas não, era melhor a falar calada. A fazer rabiscos ou a escrever palavras soltas.








Soubemos que fora entregue mais por desvario do que por pobreza dos pais a uma madrinha, aquela instituição remediada, vestida de caridade, autoritária como convém aos superiores, cheia de orgulho por ser generosa, forrada de pena pela desgraça alheia, chamada Madrinha.


E esta tinha todos os predicados, viúva e honrada, temente a Deus e ao pároco, boa orientadora da santidade alheia, vigilante de pecados, educadora para o trabalho doméstico (por isso as mãos da afilhada tresandavam sempre a lixívia), e como remediada que se preze gostava de ir ver como se portavam os ricos no S.Carlos e no D. Maria. Talvez daí a uns anos pudesse dizer às mulheres a dias que se não fosse ela a afilhada não seria bailarina ou doutora.








E chega a minha a minha senha e conhece-me. Começa a tremer, como antes, quando lhe surgia alguma coisa inesperada. Não sei quem fica mais atrapalhado mas lá consigo que a chefe, que já me conhece, perceba que é encontro a precisar de cinco minutos de conversa.


Pergunta-me logo de entrada se casei, se tive filhos e só depois o que foi feito de todos estes anos. Respondo-lhe que tenho andado por aí, sem pormenores, só quase por aí.
Ela diz-me que trabalhou numa empresa de empacotar , mas depois conseguiu emprego ali. Ficou com o peixe, a fruta faz-lhe mais confusão.
E que teve um filho aos 17 anos, o homem tinha 40 e ...mais não disse, suponho que é fácil adivinhar.Estuda e trabalha e é bom aluno e vive com ela e trata-a bem, não bebe nem se mete em drogas.


Começa a descontrair, lá fundo os olhos brilham e lembra-se daquela vez em que a filha da actriz do D.Maria foi fazer queixa à directora da turma que a Raquel e eu a deixávamos copiar e nós, as valentes, lhes pregámos um enxerto de pancada e a avisámos que se a cena se repetisse levava outro, fora dos muros, e foi fazer e levou a dobrar.



Começa a rir ainda mais, já leve, quando lhe conto que encontrei a dita Srª Actriz no teatro Camões e me disse, imito-a, a menina é impossível , arruaceira, parecia de rua, e que pensei que gostava de prolongar a habilidade pugilistica mesmo ali, não fosse o respeito pela idade, com a professora de português, em alma, a tal que desculpava dislexias, a apoiar, que era mulher para isso. Que me desculpem a suposição os professores que lerem isto.



Mais duas ou três coisas e despedimo-nos com a vida outra vez embrulhada, lá nos confins do que já se viveu.


A imagem que me fica é a de um ser frágil, doce, que sendo cristalizado nunca aprendeu a voar.

Talvez um dia, quando os netos, quem ela mais deseja, lhe pintarem cores nas asas. De preferência sem lápis nas mãos aflitas.








Porque nestas histórias nunca aparecem príncipes e os sapatos nunca servem em pés doridos.

9 comentários:

Haddock disse...

pois também a nós a fruta faz mais confusão pois é preciso descascá-la. daí as carências vitamínicas...

belíssima cadência descritiva, lizzie.
no embalo, chegámos a pensar conhecê-la também. não fora as aulas de ballet, que avisadamente não frequentámos, até lhe daríamos nome: fátima. também ela amadrinhada pela patroa da mãe, também ela sofrida, pelas mesmas e por outras razões.

pronto, agora ficámos melancólicos...
desta vez baixamos para animar com o portentoso exemplo de lola.

vénia...

nnannarella disse...

Portentosa foi também a definição de "madrinha", meu Arcanjo amargo e doce. Essas madrinhas-patroas ou vice-versa que ressecam e ressabiam nas páginas dos livros de ficção como nas beatices e dondoquices da realidade. Madrinhas madrastas. Muito embora também as haja, madrastas e madrinhas (e patroas), mais humanas.

Assim de repente, e não mais do que de repente, apetecia-me muito ser um bom príncipe, acampar com a minha grande tenda, à la Ghedafi, à porta do supermercado, e deitar-lhe preciosa tapeçaria aos pés, quando ela saísse, para fazê-la entrar em mundo mais amistoso, antes de ser avó e acaso, quiçá, samica, nem paciência e saúde ter para achar nos netos a doçura que a vida ainda lhe não deu.

Madame Maigret disse...

Emouvant, emouvant...chére Madame Lizzí. __________ Et quelle ecriture la vôtre, Madame Lissí! ________ la petite faz-me lembrar algumas criaditas dos casos do Jules,desprotegidas, pobres. abusadas, infelizes, desprezadas.
Je m'en vais de novo às termas por alguns dias. Je vous salue madame. Bom fim de semana.

Lizzie disse...

Capitão, há muitas de muitos nomes.
Esta conseguiu ter força, sem saber, retirada da fragilidade. Apesar de ter algumas deficiências objectivas, acentuadas pelo inferno em que viveu,orienta a sua vida, criou um filho, é uma vencedora.E sabe daquilo que faz:nóses nem sabemos distinguir o cherne da corvina.

Continência a vódes pela sensibilidade e empatia.




Meu Anjo, felizmente também há madrinhas salvadoras, também conheço as que funcionam com afecto altruísta, sem cobrarem glórias retroactivas.
Bem que ela gostaria de te conhecer. Dar-lhe-ias o presente do riso, da brincadeira, da simpatia. Sei que não a julgarias com a superioridade da inteligência.
E é tão doce, com um olhar tão terno que, tens razão, apetece virarmos princípes. Tem o sorriso de bébé grande.
O grande presente que ela me deu foi ter-se lembrado que de mim não precisa ter medo, nunca gozei com ela. A confiança. À excepção de um deles, se bem me lembro, os professores também a protegiam e agora percebo, com cabeça de adulta,que deviam ver-nos passar-lhe os papelinhos nos "pontos" e faziam de conta que não viam.
Pareceu-me que, à sua maneira, sem filosofias elaboradas nem exigências existenciais, é um bocadinho feliz. Disse-me uma ruga ao canto do olho.

Ternuras e ternuras

Lizzie disse...

Cher Madame, em todos os sítios há destas criaturas vitimas do meio, vindas de rebuliços de que não têm culpa.
Não sei se conhece o ditado português (também há em inglês e em espanhol) que diz "Nunca peças a quem pediu nem sirvas a quem serviu".
Estas abusadas são vítimas quase sempre de quem se quer vingar do seu próprio passado ou ascendência. O seu Jules também deve ter visto muitas assim. Ressabiadas com diz Madame Nnánná.

Espero que desta vez as termas estejam mais do seu agrado, sem confusão de camionetas recheadas de reformados buliciosos.
Au revoir, ma cher ami.

Lizzie disse...

Madame, plus un mot:
também estou a precisar de termas. Veja que nem olhando o seu "chére" aprendo e continuo a escrever "cher". Mon Dieu.

# disse...

...hoje. sentada. com frio e sem tiques, apenas dores.









...sapos e sapos.delas.


minha Eli.

Emma Larbos disse...

A tua menina do peixe deve ser quase prima do meu peixinho voador mas com mais dificuldade em voar e com mais medo da Senhora Dona Actriz-que-já-não-é-o-que-antes-era-e-nunca-será-o-que agora-diz-que-é.

Já sabes. A Nnanna mandou-nos entrar numa corrente e tanto ela como eu, pelas razões sobejamente conhecidas, pusemos-te lá para a continuares. Como não vais poder pôr 10 filmes, vais ter que escolher 5 muito especiais. Ai as coisas em que a Nnanna nos mete!

Lizzie disse...

É a minha vez de perguntar... Espero que as dores melhorem, o que nesta altura é difícil,(demasiado esforço, suponho) e que os pés doridos arranjem princípes em forma de pantufa quente, para que fiquem tranquilamente adormecidos.
A respirar pousado e fundo.




Grande abraço,#.