quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Preto, ou quase...





já que dizem alguns especialistas na matéria que o preto nunca é puro, sendo uma combinação de tons negros. Coisa confusa.

Seja como fôr, a minha paixão por esta negação da cor ( também dizem eles ) começou com a visão destes Holbeins.

O preto, coitado, não tem estatuto de cor porque não reflecte a luz. É uma espécie de vampiro que a absorve e digere. A do escuro, da noite, em que a falta de visão pára a vida e abre as portas ao desconhecido, ao perigoso. Talvez venha daí a ideia da da bruxaria, do Diabo como Princípe da Trevas, mais do luto, mais dos totalitarismos (camisas pretas de Musullini -deve estar mal escrito, mas tenho negritude na ortografia-) ou das revoluções, como a bandeira preta da anarquia. O desgraçado de má fama também é ligado ao puritanismo e renúncia, veja-se o hábito das freiras e padres e os primeiros carros: o puritano Ford, enquanto viveu só permitiu o fabrico de carros pretos. E a sua simbologia de autoridade chega até à fardamenta dos árbitros, e dos juízes.

Nem o Ballet escapou com a introdução da maléfica mítica figura do Cisne Negro. Nem os gatos, pretos de mau agoiro à excepção de Inglaterra, onde são considerados protectores da vida doméstica.




Mas pronto, é a cor da elegância, a Chanel lá do alto que o diga, e a preferida dos artistas, a par do branco e do filho do casal, a saber, o cinzento. Família homenageada na Guernica do Picasso e divinizada no cinema. E desde pré-história que o preto é utilizado em pintura, quer para salientar as outras cores quer para definir os contornos das formas. Os Impressionistas tinham-lhe fobia, ao princípio, porque depois chegaram á conclusão que sem ele, todas as outras ficavam com um ar anémico.

Mas é também a cor da melancolia, da interioridade, da saudade.






Como dizia a Greta Garbo, com base numa oração Sufi, o preto é o espaço para um amor infinito. Aquele que não acaba nem com uma ausência violenta. Espezinhada. Aquele que rasteja pelo chão em forma de objecto sem conteúdo. Fica a arrastar-se, às vezes, já sem rosto pelos cantos da alma.






E um filósofo chinês, a quem apresento as minhas desculpas por não me lembrar do nome, dizia, metafóricamente, que quem conhece o branco e continua a entender o negro, conhece a medida do Universo. Uma forma de sabedoria que a vida ensina a quem a quiser aprender.

Talvez tenha sido por isto tudo e mais tanta coisa, que sugeri um vestido negro, agora acabadinho de chegar pelo ar cibérnético.






Ainda em prova, ó Edith. Vamos lá subverter o princípio dos alvores do cinema e do teatro em que se vestiam os bons de branco e os maus de preto, não é Bette Davis?

Sabe-se-lá se esta personagem, nem má nem boa, apenas personagem mortal comum, não deixará, com o poder de um lápis preto, numa folha em branco, uma mensagem gravada para um futuro por ora incolor?








Sabe-se-lá...

22 comentários:

Lizzie disse...

Adenda-devia-me-ter-me-lembrado-mais-cedo-mas-também-toda-a-gente-sabe:

estas considerações são gerais e referem-se, caros leitores, à cultura judaico-cristã.
Mesmo assim existem muitas variações em tom maior de país para país. Por exemplo, para nuestros hermanos, alguns simbolismos do que aqui se disse, passam para o castanho, pelo menos em Castela,porque na Catalunha, o preto ainda é mais vasto de significãncia.
Quando me apetecer,lá irei ao aberto e virginal branco.Passando pelo OMO e pelo TIDE, claro.

anoimo das negritundes disse...

Que prosa encantadora e que apanhado bem esgalhado e acrescento o fundo preto das bandeiras dos piratas e o fumo preto de quando não há papa. E o papão preto.!

# disse...

...e acrescento que mantém as intenções no anonimato. instiga a curiosidade ao mesmo tempo que consegue passar despercebido camuflando os sentidos ao exterior.


...capta o que acontece,
sem dizer a que veio.


preto. semper.



a.braços.meus.e a i n d a b e m.

Haddock disse...

outro, já??
vínhamos nós todos lampeiros, pensávamos, para comentar o vestido e ... preto!
sim porque já cá tínhamos estado, só que no momento da contribuição esmolar esquecemo-nos de tudo porque começámos a entreter-nos com a conversa dos vizinhos (aqui...). maldito vício!!

ora, preto!! também nós já nos dedicámos, como vois, lizzie, à apologia da não-cor. servimo-nos, assim como vois, do contraste: o preto em branco!! em branco sobre o preto... vejais, pois, que belos trocadinhos a não-cor nos consente.
e há lá maior elegância
(a)cromática?? e a ironia de ser ele a dar cor à cor...

na falta, que venha o antracite!

-pirata-vermelho- disse...

Au contraire, nunca apliquei preto! Não tive lata... podia sujar tudo.
O preto, em mim, foi sempre só para escurecer outras cores, às vezes...
porém,
percebo o seu uso específico; em ilustração, em pintura decorativa ou em outras áreas.

-pirata-vermelho- disse...

... e pode aceitar-se como estiloso, claro!

Emma Larbos disse...

Curiosamente, nem sempre o preto foi cor de luto. A moda só se instalou no final do séc. XV e veio importada dos reinos de além-Pirenéus. Até aí o que expressava o luto era o tecido não tingido, de cor crua e por isso às vezes confundida com o branco. Mais importante do que qualquer cor, o que exprimia o luto era o despojamento de toda e qualquer sofisticação, conforto ou bem-estar, através do uso de tecidos grosseiros e desconfortáveis que dessem conta do desconforto da alma. Às vezes bastava vestir uma roupa do avesso para ficar de luto.
Outra coisa muito interessante ligada ao luto e que já não tem a ver com cores mas que tem muito a ver com dança eram os prantos (enquanto expressão corporal ritualizada), praticados desde a Antiguidade até pelo menos o séc.XVI.
Deculpa, Lizzie, olha onde o preto me levou!

Lizzie disse...

anoimo: desde já agradeço o "bem esgalhado". Por acaso não me lembrei dos piratas, só do Errol Flynn de quem a Bette Davis dizia ter um hálito negro a propósito de uns beijos carregados de pilhagem.
E o meu papão preto da infãncia ficou ligado a uma enfermeira que me dava injecções no domicílio aquando saramposa. Se bem me lembro era uma viúva crónica devota de todos os papas.Brancos.

Lizzie disse...

#:
Pois que é a discrição (em sentido geral) uma das coisas que eu gosto no preto.Em Inglaterra e nos países nórdicos é mesmo um símbolo disso.
Quanto a absorvências, foi a pensar nisso que preenchi uma folha de caderninho com uma caixa quadrada minúscula preta: The Box of your secrets. É a cor, a par do azul, do infinito.
É caso para dizer Ainda Bem

Lizzie disse...

Capitões
fizesteis bem em estar com o vício das parlaturas e em falardes de ironias pois que outra cor, e continuo a chamar-lhe cor,não as tem tamanhas e tão versáteis e quanto a elegãncias, cá para mim não há nada que se lhe compare não senhores então se fôr acompanhado de um colar de pérolas... Perdoai-me vós e a Agatha Ruiz de la Prada o classicismo com que hoje saí da dormência envolta em lençóis brancos


bem diferentes e aqui continuo, Pirata porque o telefone está calado, da envolvência decorativa de um restaurante pós-moderno em Madrid de paredes, assentos e toalhas pretos que devo-lhe dizer, são uma boa antecipação do estar morto, suponho eu que nunca estive.
Nunca utilizo o preto para escurecer outras cores. Ele há truques que as escurecem e realçam. Tanto quanto sei, os mestres do barroco eram especialistas nisso:em escurecer sem sujar. E se há cor difícil de trabalhar é o preto. Daí o meu fascínio pelos Holbeins e por alguns contemporaneos.

Lizzie disse...

Desculpa? Mi Emma, que a tua prosa muito viaje.
Vou-te até pedir que confirmes a história dos pigmentos pretos: muito caros nas épocas, e os verdadeiros hoje ainda são, e a pouca resistência à lavagem e à luz do sol, logo tecidos desbotados, feios, e por isso pouco usados? É verdade que só a aristocracia usava cores densas e saturadas, nomeadamente o preto?

Quanto à dança, não sei se te referes à "democrática" dança da morte, baseada na pasacalle ou farandola ou àquela, não me lembro agora o nome,que teve origem na Mesopotãmia, com movimentos minimais repetitivos, chamaríamos hoje, e vagamente presentes no trabalho das carpideiras e em alguns rituais fúnebres ciganos e árabes. Não me espanta que os mortos vão bem adormecidos, ou irritados.Credo!

Anónimo disse...

Quem dá um nome destes a um blog e só fala de esperas e sonhos só pode ser pobre.


coitada da menina.

das meninas.

Lizzie disse...

Quais meninas? As do Velasquez?
Não deve ser, que nós somos mais bonitas!


Esqueci-me de dizer que o Einstein gostava do preto e dizia que só havia duas coisas infinitas: o universo e a estupidez. Ressalvava que do Universo não tinha a certeza...

Lizzie disse...

"e, afinal, desventurada, quem és tu?
Rosa enjeitada, uma mulher que sofreu"

Fado magníficamente interpretado por Maria Teresa de Noronha,uma menina que sabia usar o preto. De faróis, não sei.Quando eu morrer pergunto-lhe e depois apareço-lhe em sonhos a dizer. Ficamos assim com este acordo. Até lá, como se diz aqui neste terreno bem real, "vá coçar a micose".


(Vem no dicionário)

Anónimo disse...

Ah ganda Lizzie!!!


É rica em tudo!
Até nos sonhos em faróis!
Até na vida que transmite!
Tanta inveja!




Beijos

P.

# disse...

...nem vale o tempo que se
perde. minha Eli... enfim.





um abraço muito grande... e meu.

ana

-pirata-vermelho- disse...

Nem mais!
Esqueci-me de enfatizar o 'às vezes', ao dizer do preto para escurecer. Teria podido agora dizer 'eu também não' e era mais verdade.

A propósito de perceber o seu uso específico em ilustração, em decoração ou em outras áreas, lembra-se daquele Bérnard Buffet que sublinhava e delimitava 'tudo' a preto?
É pintura ou ilustração?

(Parcontre, a moda e as modas d'interior de consumo não m'incomodam.)

-pirata-vermelho- disse...

(...mas gosto dos seus apontamentos mostrados aqui. São pintura 'com graça')

nnann arella musashi disse...

Venerável Daymio Lizzie-san,

no karate, nobre arte marcial aperfeiçoada pelos zen da minha terra, o preto é a cor da perfeição e da força. Também por Vós, Pintora, difícil de cobrir com outra cor, porque demasiado pigmentada.

Shodan, cinturão negro, o dos mais fortes. Todavia, não fim de aprendizagem.
Tão importante é também o cinturão branco de quem se inicia em direcção ao negro que, com o tempo e as lides, se desbota, como que a caminhar de novo para branco.
Não por retrocesso, mas porque o yudansha deve continuar sempre a treinar. Círculo infinito.

Quanto ao anónimo das seis e dezanove, que já não é a primeira vez que traiçoeira e cobardemente ataca, Senhora, o meu apreço, Senhora, pela mestria com que lhe haveis cortado a cabeça, sem sequer usar a katana.

Sejamos, porém, compassivos, pois, Senhora, deve-lhe(s) ser altamente doloroso viver em tal esquálido e ignóbil estado de inveja.


Cinturões e cinturões negros a Vossos pés,

Vossa.

Lizzie disse...

Minha Querida Ana, tenho a impressão que foi a última vez que perdi tempo com estas graças. Ao mesmo tempo tenho pena, como a Nnanna. Ter inveja de alguém é, implicitamente, sentir-se inferior. E aí o problema já não é nosso.
Um abraço do teu tamanho, ou maior, também para ti.




Pirata:
Francamente, a distinção entre ilustração e pintura é assunto teórico que não me dá que fazer. Se o Buffet ilustra, o que faz o Rouaut, para quem o "contorno era a alma da pintura"?
Sinto-me, aqui só para nós, ilustradora daquilo que me vão dando. Cada pessoa ou situação me transmite qualquer coisa que transfiro para imagem. Já houve tempo em que, em privado, dançava pessoas que me tocavam. Em público perde-se essa liberdade, embora a interpretação exija também o olhar para as coisas, o senti-las.
Obrigada.





Anjo Japonês, quanta verdade no que dizes!
Não há maior riqueza que o saber-se aprender sempre. Não ficar preso numa suposta glória. Ainda há pouco tempo li um conto do Mishima onde a personagem, cinturão negro e mestre, se debate com a Sua ausência de perfeição. E é essa mesma lição que transmite ao seu aluno mais talentoso. Deves conhecer.

Cinturões e cinturões deles

# disse...

querida Eli... não sei se ainda conseguiste ler o comentário que me deixaram por lá. mas aqui fica... e tão merecido.ponto.


[cara #
permita-me um abuso embora bem intencionado
manifesto desde já o meu agrado e sintonia pelo que aqui expressa
mas não comentarei este seu post
usarei no entanto o seu espaço
pois sinto urgência em comentar um dos seus comentadores habituais

cara LIZZIE
tenho seguido os seus comentários aqui
com um prazer em crescendo
sábias e certeiras palavras as suas
atentos e adequados comentários
relevantes e oportunas observações
os comentários são muito importantes
e reveladores
apenas isto
expressar-lhe a minha sintonia
embora se antecipe e me roube as palavras
não seria capaz de as conjugar tão bem
razão que me leva a uma inesperada contenção
quando frequento a sua lighthouse
hoje, faço uma vez mais
das suas as minhas palavras
com muito gosto e consideração

um bom feriado para ambas.]







...bravos e bravos.
:)

Lizzie disse...

Não cheguei a ver, não, mas agradeço-lhe e agradeço-te.

A Lhe digo que pode ir à vontade ao farol, ninguém antecipa ninguém porque toda a gente decente é importante.

E a Ti por teres transcrito e pela riqueza de lá tens. Sem mote não há trova.

Um grande beijo, agora de boa semana.