quarta-feira, 21 de novembro de 2007

As escondidas



Não, não é só por não saber fazer uma baínha em condições, é porque tenho vontade de me lembrar delas, das costureiras que longe de olhares do público trabalham com engenho e ofício os fatos que hão-de completar as personagens. E trabalham ali com saber aprendido na experiência. Lembro-me da Lola, a chefe, senhora de palavreado e história sonhada nos folhetins da Corin Tellado. Vivia de amores emprestados. Sem filhos tinha sus niños e niñas, a quem conhecia o corpo e a quem ia perguntando pelos amores, na maior parte dos casos, por contágio dos romances: achava-os sempre onde não existiam com uma pitada de drama.

Mas recebia os desenhos dos figurinos, faz de conta que eram estes:




e lá começava a azáfama. Medidas, cortes, tecidos. E lá ia dando achegas que aquele desenho deixava as meninas ou os meninos sem ar, ou aquele tecido tinha muita estática, ou arrebitava.

Quando passava por lá fascinava-me aquele matraquear das máquinas e as conversas encaloradas sobre casamentos , divórcios e baptismos, quase sempre sobre gente famosa, quando não era sobre nós, claro, mas com pessoas de carne e osso conhecidas, tem-se mais tento e ternura na língua.
E é muita a dificuldade, penso eu, em coser e bordar traje que a tudo se ajuste, até a desafiar a gravidade





ou a acentuar a leveza etérea.
E tanta linha e goma fora de horas, às vezes noite dentro, madrugada fora, para que em minutos tudo brilhe, sem desmancho nem caos






porque não largam o perfeccionismo da agulha nos dedos couraçados por dedais, nem o borrifar do ferro de engomar.
Estranham, às vezes, o que lhes sai para construir, que isto de artistas são todos doidos, quem é que se lembra de fazer tal mistura de cores, parece a niña um palhaço, nunca tal se viu nos moldes da Burda





aqueles onde começaram a aprender, na casa das mães ou das tias, ou na modista, ou no alfaiate que o dinheiro não dava para estudar outras letras , artes ou ciências. Eu, filha, aos doze já virava colarinhos. Desabafo em tempo de provas. Levanta lá os braços, ai está mais magra, ai que o niño definha, o que andará ele a fazer, é da vida que levam, deixa-os largar isto que logo se compõem, olha o X, com mais dez quilos, não me digas, vistesio?

Ficavam na última fila a ver o resultado, de agulha pronta para qualquer urgência. Não queriam ficar nas primeiras que isso era lugar para gentes que circulavam no outro mundo, tão distante, aquele que via, elogiava, mas raramente se lembrava do reino do alinhavo.

E com tanto fecho de companhias de repertório, fica uma paisagem deserta


da música sábia do imenso matraquear. Já não têm rosto conhecido e fixo os romances inventados.Arranjam-se trabalhos nómadas, pagos à tarefa. Sabe-se-lá se eles já foram mais gordos ou mais magros...

9 comentários:

Virgem Maria disse...

Do que vos lembrais, minha filha:)

E eu? Com o manto neste estado!




Eu ensino-te, lá por isso...



JVR

Haddock disse...

"nos moldes da burda"... lindo!!
ahh, que memórias nos trazeis, lizzie, dos tempos da outra senhora!! a beleza do alinhavo e magnificência do exclusivo!!

é com embaraço que confessamos que também não sabemos cerzir. e também por isso admiramos a fina arte da agulha e do didal.

ainda hoje recorremos às agora profissionais do avulso, como sugeristes, para personalizar o banalizado prêt a porter. é vê-las espumar de desprezo pela displicência da produção em série.

e que injustiça do destino, essa, de passar dos bastidores da extravagância para corrigir os defeitos de máquina alheia.

mas continuam "faladeiras"...


vénia ... por mais um belo postal.

A. disse...

...e agora foste Tu

[E eu sei que ainda me esperam o colo, o consolo, e a poesia das coisas simples...]










doce, Eli. meus mores amigos.

Anónimo disse...

Mais uma atenta homenagem!

E tu és mesmo assim: olho verde aberto virado para tudo!

Sem preconceitos!



Provas? Que pesadelo!




Muitos beijos




P.

Lizzie disse...

Ai a gargalhada que eu dei...
onde é que tu andas agora? No céu? De agenda cheia?

Um abraço!


Oh Capitão, eu a ver se metia a cunha para me fazerdes a baínha e confessais que não sois destro na agulha e no didal...paz à alma da Beatriz, ai chega chega chega chega a tua agulha/ afasta afasta afasta o teu didal, (delicioso)...
oh infortúnio!

Continuam faladeiras e não sei se ainda ouvem e suspiram pelo Julio Iglésias e pelo Rafael.
Uma vez puzeme a imitar as dores de estomago da criatura, a fazer play-back, e ficaram amuadas durante cinco minutos: tomaras tú,de invejosa fui chamada.
Mas boas e pacientes pessoas para aturarem tanta extravagãncia.
Perante vós me curvo.

Lizzie disse...

Meu Passarinho, a última vez que falei com aquela primeira criatura lá em cima, falámos exactamente das coisas simples, do nosso eterno apetite por elas, de cabeças simplesmente adormecidas em colos, de conforto mútuo, daquele que já não precisa de palavras nem justificações, nem palmas. Acho que tudo se resume a paz. Assim simplesmente. Sossego.


Grande,grande,enorme afecto.






P:
A atenção deve ser dirigida a quem justamente a merece, seja lá quem for ou a profissão que tenha.
Também nunca gostei, nem gosto de provas. É preciso paciência, mas tem que ser, que remédio. Mas, ao menos, tanto tu como Passarinho têm um "bom cabide" (na gíria da moda, ombros com boa queda, direitos).


Beijinhos



Beijinhos

Emma Larbos disse...

Os prazeres da linha e da agulha!
Coisa tão feminina, tão cantiga de tear, tão antiga e cheia de vozes e fios, segredos e sedas, confissões e casas de abotoar!
Coser os dedos aos panos, deixar os olhos nos pontos e o sorriso nos remates. Puxar a linha com os lábios, cortá-la com os dentes e acabar o corpo com formas que o destino não lhe deu. Suprema arte de enfeitar.

nnannarella disse...

Evohé hé Evohé a Ti, meu Arcanjo de Salvação, que provocas belas visões (que bonita Ela é...) e fulgurações ( que bonito o breve rimance que a Emma te fez mesmo agora...)

Nem sei o que diga, insoniada que estou despois de tanto ir e voltar e despois de me dedicar ao novo arroubo do core.

Sei fazer bainhas rudimentares e coser botões, ainda que perceba mais de bainhas-aljavas onde descansam as katanas do(a)s samurais, conforme m'ensina minha aia, Musashi.

Eu sou mesmo um ser abençoado ao poder dizer, haja deusas!, espero poder brindar convosco no próxino sábado, sem Armando, despois de vermos o sussurrar das gingko, por aí.

Nem sei e nem sei deles.

Lizzie disse...

Suprema arte de escrever a tua Mi Emma!
É coisa antiga como dizes, mulheres de costas dobradas, olhos fixos, mãos sabedoras do traje.
Algumas que vi tinham carácter no gesto, coreografia de dedos.
Um prazer, olhar para as coisas sem tempo.



E tu Meu Anjo, que te espero mais descansada, sabe que também sei pregar botões de tal forma que nunca mais saem e que este fim de semana ia na estrada e no meio dela ia uma cadelinha, dois meses diz a doutora veterinária, a morrer de fome e frio e chama-se Ingrid e depois do internamento, ficou lá em casa numa caixa cheia de mantas quentinhas e que come alarvemente e é uma doçura branca e castanha de olhos esverdeados.
As Meninas adoram-na.

Então fica para o próximo. Neste tinha sido engraçado porque tive visitas inesperadas, vestidas decentemente, note-se.


Olha, também nem sei quantos.