segunda-feira, 26 de novembro de 2007

O gato








Foi por esta altura. Estávamos ali, rodeadas de branco, à porta daqueles armazéns, transformados em arena de esforços e criação. Refilávamos: numa cidade tão grande e não havia um disco da Amália nem da Niña de los Peines, já agora convinha. Passou ele, sorriu e numa misturada propositada de português e espanhol apontou num gesto largo: allí há, no indiano. Dois quarteirões para norte e as vozes das cantoras das terras encostadas ao Atlãntico ecoavam como uma saudade. Acompanhou-nos em passo rangido na neve. Disse-nos ser de Barcelona, ser marinheiro de água doce, ter estado com os pais cinco anos em Portugal, não ter cordas que o prendessem a terra firme, ter sido, por acaso, bailarino do Merce Cunningham, e por vários outros acasos, estava ali até não saltar para outro lado, sem previsão nem futuro programado.

Falámos algum tempo e percebemos-lhe o ouvido atento ao mundo. Alerta.









Dizia, já nessa altura, que o seu mote de estudo era a comunicação, ou a falta dela. Conversas de surdos, corações mudos, verdades caladas. Ele queria desamordaçar o corpo e a voz dos silêncios povoados. Queria rasgar as vendas, todas as vendas









afinal para que serviamos nós?


E despediu-se até qualquer dia, sem telefone ou morada.


Um dia, estávamos a despir mais umas das vestes de personagens e vieram dar-nos dois embrulhos de papel pardo, atados com fio alemão: um tinha um disco da Amália e outro da Ninã de los Penes. Estáva sentado de cigarro na boca, olhos a fugir ao fumo, nas escadas, à nossa espera. Riu-se. Nós também. Vamos jantar. E fomos.


Comunicou-nos ideias, os sítios por onde tinha andado. Em todos eles se guerreavam conversas sem som que se ouvísse, batalhas sem palavras traduzidas para os sentimentos. Corações em fogo







mais uma vez, não havia lugares inocentes e claros.



Depois de uns poucos meses de trabalho voltou a desaparecer, esgueirou-se por um qualquer telhado.

Até uma peça em Barcelona, "Equos, angústia para um cavalo", e ali estava nú, meio louco, meio vadio, meio tudo






porque mesmo angustiados os cavalos foram feitos para correr. Convidaram-no para secções fotográficas, é experiência nova, vamos ver como é. Não chegámos a saber.

Até Lisboa, a olhar para o Tejo, vamos almoçar, estou cheio de fome
até Madrid, venham comigo, vou ali comprar um livro,




até...




até ontem, em Stª Apolónia, apetece-me uma pizza bem quente, e o vinho é bom?
Depois, até ao próximo abraço, daqueles em que nunca se perde a comunicação, seja qual fôr o tempo, o espaço ou a idade,







sem espera, nem aviso.

10 comentários:

nnannarella disse...

Um fado. Um fado viril o que acabei de ouvir. Sem choradinhos, mas com os picadinhos dos voos de recordar. Bonito bonito. Como e o que dizes e a Pessoa-muso. Até já, de ontem, na travessa da palha. Sem canalha.:)
Fomes e fomes.

Lizzie disse...

Sem canalha, meu Anjo, que é pessoa de rara e doida criatividade, senso de humor e generosidade ( bem nos apercebemos no trabalho que fizemos). Vende as ideias avulso, os outros que as executem, que ele não tem tempo para ser de estimação. Às vezes ainda vai ao palco, mas depois foge. Não quer beber dos pratinhos de leite da fama.
Mas lá nos vamos encontrando. Até parece que o mundo é pequeno. Pequenino.

mares e mares

Haddock disse...

não entendemos a atracção felídea que povoa esta "cidade"...
é que ainda para mais tem uma conotação pejorativa.
está visto que somos mais dados a canídeos do que a gatídeos.
sim, está bem, não são tão curiosos por telhados e a imagem é apelativa e veio mesmo a calhar...
mas se se mantém fiel apesar das desaparições, louve-se a inteligente (in)constância.

(isto saiu assim um nadinha rocócó...)

Emma Larbos disse...

Escolha difícil, entre ser felídeo ou canídeo. Entre construir uma lareira onde se pode esperar encontrar todos os dias um fofo e coçado tapete ou saltar de telhado em telhado, sem saber em que prato de leite se molhará o pão amanhã. Pode ser mais fácil a lareira mas não querer construir nada pode ser mais fácil ainda.
Enfim, deve ser do adiantado da hora... está-se-me a sair tudo demasiado filosófico. Acho que vou dormir.

Lizzie disse...

Capitão, rocóco´? Pois não acho.
Pois ficai sabendo que muito gostamos de gatos e lá alguns temos, daqueles abandonados sem eira nem beira. E uns são de colo, de fidelidade extrema e outros por lá vão aparecendo, em pose de real pirataria.
Este gato bípede não tem estrutura de pirata, nem nos amores (autorizou-me a falar nisto),não quer partir corações, diz que não tem cabeça de amante fixo, não quer ferir. Não gosta de ver ferir.
Não temos as mesmas opiniões estético-performativas, mas ouvimo-nos e discutimos. Coisa rica de comunicação.


Estás acordada Mi Emma?
O homem escolheu viver sem lareira nem poiso. Tem uma casita em Barcelona, de resto vive em hoteis, mas sempre a trabalhar aqui e ali. Gosta da figura do judeu errante e é uma espécie de peregrino de várias artes. Até tem aparição num filme do Almodovar, só para ver como era.
O mais engraçado é que é um excelente coordenador, metódico e disciplinado.
No fim do almoço disse que gostava de ser enterrado na lua, um dos poucos sítios onde nunca esteve.
À maneira dele, é um gato feliz.

Emma Larbos disse...

Agora já estou outra vez quase a dormir mas sempre te digo que esse teu amigo devia optar pela cremação. Ser enterrado na lua é difícil mas fazer espalhar as cinzas ao luar é mais provável e mais de acordo com a alma nómada.
Os sábados andam enguiçados, já expliquei à Nnanna.

Madame Maigret disse...

Ele deve tratar-se de une trés belle persone de bien!E deve chegar à lua só de ler este manifeste d'amour.Trop joli. Mes felicitations, madame.

Lizzie disse...

Mi Emma, a próxima vez que o encontrar, ou ele a mim, vou-lhe propor essa tua ideia que acho poético-magnífica.



Madame, bon jour!
É pessoa belle de corpo e alma. Sempre lhe chamámos o gato até por ter, com bailarino, uma flexibilidade espantosamente felina. Os gestos são lãnguidos e graciosos e um palminho de cara que enfim...e imagine que nunca se senta à mesa antes de uma pessoa mais velha se sentar, seja homem ou mulher, entre outros cavalheirismos que não lhe são pretenciosos ou sedutores mas antes naturais.

Et merci bien pour votre atencion, Madame

Anónimo disse...
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Lizzie disse...
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