
Às vezes passamos pelo atelier dela.Respira-se ali ambiente de paz.Sentamo-nos à conversa.Bebericamos qualquer coisa.Vamos olhando os quadros em gestação envolvidos no aroma de trabalho: tubos e frascos de tintas espalhados ao acaso,papéis avulsos deitados onde calha.Parecem alimentos abandonados.Ideias em repouso.
Sabe que não é o meu estilo favorito,que não o uso.Demasiado contido,ritmo muito certo.Digo-lhe que o meu coração tem batimento irregular,que sou viciada no gesto repentino e livre,que nunca sei o que vou pensar,que me cansa pensar.Ela,a espanholissíma Navarro ri-se,quem diria,uma portuguesa indisciplinada.Existem em todo o lado,respondo-lhe.Como em todo o lado existe o olhar sereno,sensível e atento,mesmo em Castela."Ay la gillipollas de la portuguesa ".
Mas gosto da forma como ela coloca as personagens: isoladas em paisagem sem reino.Pode ser em Madrid,em Lisboa,em Nova Iorque.Pessoas num campo abstracto.Podemos ser nós apanhados em dias de nada. Claro que nos faz lembrar um palco. Claro que as imaginamos a perderem a imobilidade.Digo-lhe:olha,Eva,aquela está com vontade de gritar.E gritamos.Se aquele ali não se mexer,vai morrer de espera."Lo qué?".Sabes que existe um mito português da espera,um messias menino chamado Sebastião?
E os olhos dela ganham brilho.Quer saber mais.Aliás quer saber sempre mais.
Depois vamo-nos embora.A inventar vidas nos traços de cor que a Eva traçou.Estará aquele ,naquela luz forte, à espera de quê?
Sei lá,de Godot,não estamos todos?

3 comentários:
Adorei!...
Excelente texto,
excelente forma de escrita.
Um belíssimo blogue. Vou linkar. Parabéns.
Madrugada e Lauro António:
Muito obrigada!
Em boa hora chegaram!
Abraço.
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