quarta-feira, 13 de maio de 2009


É tão vasto o mundo que tudo, sendo uma coisa igual em forma, se pode transformar em mil conteúdos consoante os olhos que a vejam.

Histórias encantadas de um mágico voador



Talvez todos os povos coincidam na curiosidade e no temor de saber o que está para além da vida, como foi feito o mundo, onde começa e acaba o firmamento, donde vem a luz e outras questões de resposta assaz difícil para a tranquilidade do pensamento.

Toda esta conversa vem do meu espanto, quando há anos, na descoberta do norte dos Estados Unidos, vi estalagens com nome Corvo, livrarias Corvo,


sabonetes Corvo, cereais Corvo, cerveja Corvo, pessoas passeando-se com os seus corvos no ombro, um velho de traços índios fazer uma vénia a um corvo, seguido de uma conversa indecifrável para o meu entendimento.

Se eu, por causa das lendas inglesas, já sabia que os corvos têm dons de metamorfose, sabedoria, justiça, a par de serem bons ladrões (Robin Hood achava-se uma digna encarnação de corvo), gozões, coscuvilheiros e alarves descarados, colegas com menos histórias britânicas na memória, ficavam em grande desconfiança ao verem tais homenagens a símbolos de morte pura, de alma penadas ou danadas e amigas de todos os vícios sorridentes do Demónio.


Lá apareciam os espanhóis, arrepiados e receosos, com o seu cria cuervos y te sacarán los ojos, provérbio preferido em períodos eleitorais, uniões ou casamentos de amor genuíno duvidoso.

Disse-me um índio, de expressão facial abotoada, como só eles têm, que ali, no norte, se aliaram as mitologias celta e índia na consideração do bicho como ser superior e intermediário entre a vida e a morte. Doutor honoris causa da transcendência.

Os corvos criaram toda a vida na terra a partir da água e de um saco cheio de pedrinhas.

Foram ao sol e roubaram-lhe a luz, numa versão, ou chegaram perto do astro e abriram um caminho para que ele se pudesse expandir pelo Universo, noutra. Não se sabe bem, porque os corvos não gostam de se gabar das suas proezas.
A terem essas conversas, só com os lobos, rivais, naquelas paragens, com os coyotes e os ursos, em grandeza de mito.


Mas, continuando, os corvos cozinharam na terra uma espécie de sopa da pedra, acrescentando elementos. À imagem deles, desenvolveram nas pessoas o sentimento da paixão e do amor. Os corvos, entre si, são amorosos. Não têm a hipocrisia do afecto remediado nem a dor da solidão escondida e envergonhada.

Eram brancos mas, foram beber a maldade e o desconhecido das trevas e ficaram tingidos de negro. Nenhum ser, conhece, como eles, turistas do inacessível, os desígnios dos espíritos que não se mostram. Já os gregos os consideravam espias. Foi Apolo que, por raiva de espionagem, os pintou de negro.
Os estilistas e outras gentes ligadas à Moda, desde o séc. XIX, são deles invejosos: muito demoraram a encontrar a química de pintura do cabelo em tom preto-asa-de-corvo-com-toque-azulado . Tal, em combinação com pele branca de leite e olhos verdes, só se encontra em terras irlandesas, galesas e escocesas, nas mulheres, muito raras, filhas de corvo.



Fiquem sabendo que iam as virgens, quando menarcas, dançar nos lagos e rios, fertilizadores dos bosques.
Vinham os corvos admirar-lhes a beleza.
Dançavam em bicos dos pés, para que a sua leveza e graça ficasse mais acentuada. E a mais bela, mais leve, a que subisse mais alto, tinha romance desflorador com o corvo mais negro.
Nascia, assim, filha, sempre filha, abençoada de cor branca como o luar, de olhos verdes como os gatos vigias da floresta e cabelo preto azulado, misto de fada e bruxa com todo o entendimento dos segredos do mundo.

Ainda hoje, nos lares daquelas bandas, se penduram nas casas quadros kitsch como este,


não sei se na esperança que nasça rebento do agrado de John Galliano, Jean Paul Gautier e de centenas de fotógrafos. Neste campo, a raridade (natural) é mãe da beleza.

Continuando, são mais fiáveis que o boletim meteorológico, apoiado em imagens de satélite, a prevenir os alertas vermelhos das tempestades. Dizem que, quem lhes entende os gritos, lhes agradece os avisos.



E, no reino do além, conheceram toda a espécie de doenças.

Avisam em caso de peste e, generosos como são, não se importam de doar penas e segredos para farmacopeias e alquimias várias.

Os cientistas já sabem, que em caso de algum ficar doente ou ferido, o parceiro ou parceira, pai ou mãe, vai à natureza buscar as ervas terapêuticas. E que se juntam, em sítio recatado, numa espécie de hospital.

Mas se, para os humanos, a dita pena e as ervas não resultarem, os corvos tomam o encargo de levar a alma do defunto para poiso adequado na eternidade. Conhecem todos os recantos de paz no céu como todas as grades do inferno.

Ainda hoje, em Boston, se celebra o dia anual do corvo e, por inerência o dia de Edgar Allan Poe, filho de tal terra.





Os celebrantes vestem-se e pintam-se de corvo, evoca-se a vida e a morte. Vai-se aos cemitérios levar flores. Come-se peixe, saboream-se frutos silvestres, petiscos a que nenhum corvo resiste, sem falar numa boa taça de gelado ao alcance do bico.


Em Janeiro, os índios dançam em honra do corvo: uma dança lenta, com gestos largos e melódicos, a exibir o equilíbrio, contrariando a queda.
Diz-se que foi neles que Doris Humphrey, uma das mais inovadoras coreógrafas do séc. XX, se inspirou em tais movimentos para criar o seu método na chamada Dança Moderna.



É crença que, conhecendo a fundo o interior da alma, revelam aos artistas, a matéria da arte contida nestes. É tão maior o artista quanto melhor souber, e tiver humildade, para ouvir o seu próprio corvo. Aquele que mora no mais recõndito de si.

...well, go home and listen to your raven...

E, não só no Massachusetts, é da tradição oferecer-se um corvo de peluche aos recem nascidos, como é uso, como prova de amizade e bons desejos, dar boneco a representar o bicho a quem se gosta. Ainda tenho um de pano, talvez um dos presentes mais comoventes que recebi.

Da protecção que dão à monarquia inglesa e a Londres, já falei em comentário no post anterior.

Já expliquei porque são constantes na Torre de Londres.

Faltou-me dizer que horas antes da morte da Princesa Diana, morreu, inesperadamente, uma das Corvas da Torre, como não contei que em 1918, se conta que fizeram grande e inaudito estardalhaço, no regresso dos soldados ingleses à sua terra: estavam quase todos infectados com a Gripe Espanhola.

Podia contar muito mais. Mas só digo que a ciência já lhes desvendou muitos mistérios. Descobertas de pasmar.

Mas, sei lá…prefiro imaginar-me sentada à beira de uma lareira, saboreando um velho whisky ou bebericando chá, braços em volta das pernas, a ouvir histórias de reinos encantados, enquanto, na memória, os vejo brincar: grandes pontos ágeis, negros, altivos e seguros, na planura alva da neve.


Até adormecer. Num sonho sorrido de mar ao som de um canto de bosque.


(arriscando a que só se ouçam trinta segundos, aqui deixo uma saltitante música de dança celta.)




the musical priest/scotch mary - jordi savall/andrew lawrence-king

17 comentários:

Frioleiras disse...

bem.....................o que eu aprendo contigo !

e gosto do modo de "contares" as tuas histórias de encantar........

e Jordi Savall ...................sempre
uma e outra vez
sempre......

gostei mt, Lizzier.......como sempre nos acostumas com os teus "contares".

bj

Teresa Durães disse...

gosto de corvos. têm mesmo um ar enigmático

Lizzie disse...

Frioleiras:

obrigada por gostares das minhas contaduras.

Aprendemos uns com os outros.
É o que interessa.

Jordi Savall, pois claro!
É qualidade garantida mas, dentro do estudo e interpretação da música celta também há outros muito bons.
Como este Andrew Lawrence-King. É ouvi-lo, fechar os olhos e vê-lo como um ser mágico a tirar sons do bosque.

Nas lendas daquelas bandas, não é raro existir encanto,ou magia boa ou má, protagonizados pela música e pela dança.
Existe mesmo a Dança do Corvo,bastante mais histriónica que a dos índios. Faz lembrar o esbracejar da Isadora Duncan, ou melhor, a Isadora Duncan é que faz lembrar a Dança do Corvo:))já que não se sabe, exactamente, quando esta começou.

Lembrei-me agora que há outra voz da floresta de que também gosto muito. É a de uma freira galesa que vive recolhida num convento em Toledo. Só gravou um disco, e à força, e tem um nome impronunciável. Nunca me lembro.

Lindos os cantos atribuídos às meninas que, por terem morrido jovens e sem conhecer o amor, vagueiam pelo bosque,à noite,a chorar os seus lamentos.
Tal como fazem os corvos, que são bichos monogãmicos, depois de vários namoros na juventude,quando ficam viúvos ou viúvas.

Os cientistas já descobriram que também se divorciam, imagina:)

Bjs

Lizzie disse...

Teresa:

pois, enigma é coisa que não lhes falta.

A ciência já descobriu muita coisa, nomeadamente, o elevadíssimo nível de inteligência.

Às vezes vinha um pousar-me no beiral. Comecei a chamar-lhe Otário.
Cumprimentáva-o: bom dia Otário! E dava-lhe pão. Ele respondia Nhac (assim do género).Ficava no beiral.

Um dia resolvi insultá-lo. Disse-lhe um palavrão. Ele abriu as asas (enormes) e sai-se com um nhoc, altíssimo.
Não é que se foi embora e nem aceitou o gelado de nozes?:)

A ciência pensa que já tem explicação para este tipo de melindres, mas não deixa de ser fascinante.

Alien8 disse...

Lizzie,

The Raven, pois claro :) Estava a ver que não aparecia! Falei de corvos noutro sentido, num texto que já leste... mas nada deste género, tão caracteristicamente teu e tão agradável de ler, para aprender coisas que não sabia e rever outras já conhecidas, além de continuar a achar as ilustrações diabolicamente adequadas:)

Que mais? Olha, a bandeira de Lisboa tem dois corvos - é a ave da cidade. Por alguma razão :)

Um beijo.

tolilo disse...

Tia Lizzie

que engraçado... estava a pensar exactamente o mesmo que o tio Alien... Lisboa tem 2 corvos, pois!

Chuac!_

Anónimo disse...

...se o corvo é inspiração...






o seu deve ser imenso.


é sempRe um pRazer passaR poR aqui.

Lizzie disse...

Alien:

ilustrações? Devias ver o meu boneco de pano. Coitadinho, já com a categoria de vintage.

E sobrevivente de um ataque da gata espanhola Pepa Imaculada. Não dizem os índios que os corvos são eternidade? Ali está a prova. E continua preto como o carvão, apesar das lavagens com um determinado detergente que, dizem, não come as cores:)

Alguém me disse, ou li, que não foram só as ruínas do corpo de S.Vicente que foram protegidas, ou guardadas, pelos corvos. Outros santos, ainda em estado de vivos eremitas, foram por eles alimentados.
A esta hora, sexta-feira a sonhar com acordar tarde amanhã, não me lembro quais.:)

Obrigada pelos teus imerecidos, ai Deus y u é,elogios.

Grande abraço para os dois mais dois corvos, very british indeed, protectores.

Lizzie disse...

Tolilo:

dá cá a bochecha para a tia dar beijinho pela tua simpatia!

Quando a tia for lá, tráz um boneco corvo (mas não é para estragar) e uma caixa de cereais Raven daqueles que a tia gostava tanto que têm nozes e amêndoas inteiras forradas com cacau puro sem azúcar, misturados com trigo e arroz cheios de vento.
Diz à tia Lígia para moer e pôr no teu iogurte para não magoares as gengivas.

Chocolate Crow não trago porque te faz mal aos dentes que virás a ter.

Os corvos quando estão a brincar também dizem chuac.

Lizzie disse...

Com tanto R, tenho impressão que temos que almoçar para a semana no sítio e hora do costume.

Ainda hoje lá estive, que bom estava o choco frito com limão:)

Pode ser que os corvos saltem da bandeira e venham fazer companhia:))

Obrigada.

Saudades e abraço, ou melhor, abRaço.


(espero não me estar a enganar, credo)

Arabica disse...

Minha querida...agora nem trinta segundos!

Estou sem placa de som.

Mas com este post, nem é preciso música! como gostei de te ler!

Lembraste-me de Raven, a sacerdotiza das Brumas de Avalon.

Os corvos são aves misticas, sem dúvida.

Adorei esta série de fotos.

Um abraço, bom fim de semana

so lonely disse...

Lizzie,
em boa hora descobri esta sua casa: passo por cá como quem procura um lenimento para sofrimento da alma. Não um linimento, que isso deixar-me-ia a alma gordurosa e eu quero-a seca e limpa. E, aqui, sinto-a purificada e alegre e, também, mais cheia de sabedoria. Que a sabedoria nunca é demais, mesmo para uma criatura pequena como eu.
Sinto-me pequena quando aqui leio mas, sinto-me a crescer. E leve com esta leitura de lendas e realidades.
Enfim, aqui sinto-me bem.

Mas, arrepio-me com o que contais aqui num vosso comentário e, não quero, não, não quero ser mais uma menina a morrer jovem sem conhecer o amor, não quero vaguear eternamente pelos bosques chorando eternos lamentos.

Lizzie disse...

Arábica:

gratíssima.

pena que não possas ouvir a música. É, genuína, do séc XVII, muito para além das versões, com arranjo comercial, da música celta que se ouvem para aí.

A Raven das Brumas, essa não conheço por nunca ter lido mas, se é sarcedotiza,...bate a gota com a perdigota:)

Curiosamente, em algumas lendas, as corvas têm uma intuição mais apurada que os corvos. Parto do princípio que o ofício de sacerdócio, implica, ou deveria implicar, uma grande intuição para ouvir, nas entrelinhas, o que não é dito.


Besos e boa semana.

Lizzie disse...

So Lonely:

Ai, Senhora (continuo com a mania de a chamar assim)que a sabedoria é parente do infinito: quanto mais nela se pensa mais se percebe que não passamos de minúsculos grãos de poeira a vaguear, desorientados, no firmamento.

Nem que vivessemos 200 anos a atingiríamos. A maior de todas é a de "só sei que nada sei", como disse Sócrates (o grego), se não estou enganada.

E quem sabe se as lendas não serão a outra face da realidade? A realidade que alimenta a alma para não se tornar uma pedra como aconteceu a um galês, empertigado, que virou as costas, aos conselhos amorosos de um corvo.
Disse-lhe ele que tomasse o colo de uma donzela apaixonada, que lhe desse o coração para ela lhe cantar dentro. Recusou, o orgulhoso, os amores como se deles não precisasse. Foi caçar para a floresta,e aí continua, em forma de pedra sentada e sózinha.

Não temeis morrer menina, virgem chorosa. Tal coisa não acontece às almas limpas, desde que deêm o coração para salas de boas canções. Para maus cantos, mais vale que as portas se mantenham fechadas pois também, no bosque, se ouvem lamentos de damas maduras e ainda bem vivas.

foi o que um corvo me segredou ao ouvido.

Haddock disse...

...

pronto, já nos estragaram a esmola!!
(é o que faz andarmos a perder hábitos de pontualidade britânica.)
pois vínhamos protestar contra vossa omissão sobre a heráldica de lisboa; omissão particularmente ostensiva se "lida" na sequência (imediata) do anterior postal, apologético de vossas "outras" raízes...
deu-nos, assim, um arrepio patriótico!! (e isto apesar de sempre termos achado o simbolismo do emblema de lisboa, além de pouco laico, muito baralhado...)
acresce ainda, lizzie, que devíeis ter falado no harry potter.


vénia...

Lizzie disse...

Honroso e justiceiro Capitão:

Dizei-nos, não sois vós belga, perdão, flamenco?

Mas somos de compreender esse vosso arroubo na defesa deste pequeno canto rectangular. Grande é o vosso garbo na valentia. Encolhemo-nos.

Não falámos nos corvos de Lisboa porque nos debruçámos, em exclusivo, sobre lendas de outras terras, quiçá, menos conhecidas da nossa freguesia.

Falando neles, teríamos de falar da bandeira naive que encima o balcão da tasca de Alfama onde vamos degustar, com nossos espanhóis, americanos e britãnicos, variados petiscos lisboetas, bem menos confusos que a relação S. Vicente-Corvos-D. Afonso Henriques.

Somos muito lenda peixinhos da horta e salada de polvo além dos patrióticos pastelinhos de bacalhau para não falar das moelinhas.

Consideramos Harry Potter (que já nos enfada) uma miscelãnea das lendas das nossas raízes. Também já toda a gente conhece.

E Capitão, se fossemos falar de tudo da mistica corval, não sairíamos daqui.

Mas tranquilizai-vos: não somos de (normalmente) ter pátria e nosso espírito Robin Hoodesco leva-nos, fartas vezes, a defender Portugal na estranja.

Hoje, depois de termos aberto uma missiva das finanças, estamos por acaso, de pensamento mais acentuadamente emigrado mas, como sempre, mantemos o lema luso de "dos teus dirás mas dos teus não ouvirás".

Vêde a nossa firmeza de carácter!

Continência agradecida.

Frioleiras disse...

Vinha eu falar dos de Lisboa.......... eis que o haddock se adiantou..............



já ´cá não está quem falou.......................


Bjnhs