sexta-feira, 18 de julho de 2008

A caixa






Posso-me sentar?
Ai, obrigada!

Não, não vim com ninguém, ando sempre sozinha. Gosto lá de lhe dar trabalho…ficou em casa a ver um filme. Já trabalha tanto… e agora com aquela dor...


E olhe, habituei-me desde pequena, às vezes até prefiro. Assim posso fazer as coisas mais devagar, andar por aí, e ficar calada, sem ter que perguntar ou responder. Fico cá na minha vida, a imaginar coisas, a sonhar que a minha vida nunca foi esta. Que é outra. Que há-de ser outra.




Desculpe, se calhar está com pressa…

Desde pequena que fui sempre cabeça no ar, distraída. As professoras diziam que não era burra, mas de vez em quando perdia-me a imaginar coisas.

Não gostava de ir para casa. Gostava mais de estar na escola. Fazia-me aflição ver a minha mãe naquele sufoco, sempre à espera que o meu pai chegasse. Bebia muito, sabe? Juntava-se com os outros e já se sabe… Depois era só implicar. Metia a comida na boca, olhava de lado para nós e começava a embirrar com tudo. Chamava-nos aquilo…às três. Putas para aqui, putas para ali.



A minha irmã era mais destemida e foi-se embora mal fez os dezoito anos. Emigrou para a Holanda. Sempre foi um bocadinho fria. Distante.

Eu fiquei. Tive pena de abandonar a minha mãe. Tinha que a proteger. Talvez tenha sido um erro. A minha vida poderia ter sido outra. Sabe-se lá.

Veja lá que queria ser escritora. Achava tão bonitas as fotografias delas. Tão concentradas. A saber tanto das coisas. Com tantas aventuras.




Vivia outras vidas através dos livros. Ia às bibliotecas itinerantes da Gulbenkian, se calhar já não são do seu tempo. Nem sei se as havia em Lisboa, aquelas carrinhas?

O meu pai foi ficando cada vez pior. Às tantas até com as minhas leituras implicava. O que mais me custou foi ver as outras irem para a Universidade e nós sem dinheiro. A minha mãe não gostava que eu dissesse isso, mas o meu pai só trabalhava quando tinha a corda ao pescoço. Podíamos estar a rir de quem se ria de nós. Mas era a cabeça dele. A minha mãe dizia sempre que no fundo não era mau. Sem a cerveja até parecia outra pessoa. Mas era mau. Egoísta. Talvez pela educação que lhe deram.



Depois casei-me. Não era bem o que eu tinha sonhado, mas deu-me apoio, segurança. Não bebia, não se drogava. Trabalhava todos os dias. Até arranjou mais um emprego para comprar a casa, ali nos Anjos. Deu-me orientação. Queria que eu estudasse. Mas sabe, quando se passa da idade… E vieram filhos. O costume. Tem-se lá disposição…
As pessoas não gostam dele, eu sei que não gostam dele. É aquele feitio autoritário. Sempre com a disciplina. Parece que está sempre a dar ordens. E, por causa daquilo que passou em criança, tanto está bem disposto como não se pode aturar. Assim de um momento para o outro. As pessoas ficam marcadas.




Isso? Não corre mal. Não demora muito tempo. Despacha-se depressa. Depois pergunta-me se eu gostei e eu digo-lhe que sim, que fui até ao fim. E depois adormece.

Sabe? É isso que me cansa. Às vezes ralho com Deus. Nunca fiz mal a ninguém, acho que já merecia um bocado de paz, de carinho. Penso como seria bom deitar a minha cabeça num peito forte e ficar a conversar, adormecer. Que alguém me acariciasse o cabelo. Me desse a mão. Me acariciasse o corpo todo. Me desse beijos sentidos e apaixonados. De repente. Que me fizesse rir.

Mas depois penso que tenho tido tudo; casa; os filhos criados e com emprego, tirando o mais novo, que está no liceu. Também já faz a sua vida. Nunca pára.
Está na idade de sair, já se sabe. Quem me dera ter podido sair. Mas o meu pai não deixava. Dizia logo que queria era cabrice. Andar com uns e com outros. Engravidar com o primeiro que me aparecesse.




Mas vivo neste medo. Com ele doente. E se me falta? Não sei se sou capaz de ficar sozinha. Nestes dias tenho tido este aperto aqui, no coração. Precisa de mim. Não reconhece, mas se não for eu quem lhe acode? Vejo-o a dormir e imagino-o morto.




Tenho que me levantar. Falta-me o ar. Parece que aquela imagem me fica na cabeça.
Onde é que vou arranjar dinheiro para pagar esta casa nova, com a vida como está? E o rapaz ainda a estudar…

Estou tão cansada, sabe, parece que já nasci cansada. E que hei-de morrer cansada.

Eu sei que tudo se resolve. Mas lembro-me sempre duma frase que aquela actriz americana dizia num filme, ai como é que era? Sou demasiado velha para ser nova e demasiado nova para ser velha! Acho que era assim. Se tivesse trinta anos talvez não estivesse assim tão assustada. Tinha mais tempo. Mais esperança.

Mas olhe, agora que desabafei, sinto-me um bocadinho melhor, mais aliviada.

Tomei-lhe muito tempo, não foi? Desculpe lá. Bem diz ele que às vezes não me calo, que aborreço as pessoas. Que só digo disparates.





Muito obrigada por me ter aturado. Desculpe o incómodo.
Boa tarde!

Quer que feche a porta?






( e acrescento mais esta em honra dos meus excelentes comentadores, e, já agora, gracias a vosotros, Carmen y Javier.)


32 comentários:

Lizzie disse...

Pronto Emma, foi esta a veneta que me deu assim de repente como te tinha dito lá em baixo ou seja, texto reduzido, traduzido e adaptado ( lá não há bibliotecas Gulbenkian nem bairro lisboeta dos Anjos) de um que foi,a pedido e mais ou menos de encomenda, para Espanha.

Ao fim e ao cabo, há almas que não têm língua nem nação. Limitam-se a existir. Ao nosso lado ou à nossa frente. Sem metáforas que adocem a prosa.

Bom fim de semana.

Angelus// The Phantom Of The Opera disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Angelus// The Phantom Of The Opera disse...

cara Lizzie, o conseito de arrumado é muito subjectivo, mesmo no meio da nossa desarumaçao, sabemos por vezes onde esta tudo, e ao sabermos onde párao as coisas, de certo modo elas estao arrumadas. o logar onde trabalho tb está sempre bagunsado e isso deve-se ao facto de eu ter de ter sempre tudo á mao, entao é tintas para um lado. pinceis para o outro, telas ao molho, esculturas aos cantos,e no meio de tanta desordem acaba por estar tudo no sitio certo, entao nao esta desarrumado, esta apenas arrumado á minha maneira ou seja, da maneira mais pratica!!

um dark kiss, M. Angélus

Alien8 disse...

Lizzie,

E vai mais uma, para meu desespero (porque não há maneira de me saír com nada...) e para minha alegria (porque gostei de ler).

As ilustrações estão fabulosas, uma escolha realmente "arrumada", seja qual for a sua "desarrumação" :)

Mais retalhos de uma outra vida, uma vida em retalhos e com saída pela esquerda baixa, uma entre muitas, a maioria delas sem sequer a carrinha da Gulbenkian...

Mas não, não quero que feche a porta.

Lizzie disse...

M.Angélus,
com toda a razão: cada um deve ter as suas coisas como lhe é mais prático sem preconceitos nem imposições.
Exteriores a mim, há dois sítios que gosto de visitar, onde me sinto bem: uma casa onde há livros e cadernos espalhados,abertos, porque estão a ser lidos e estudados e o outro é um atelier onde reina uma desordem com um ritmo muito próprio à... action painting.
Acho graça que em espanhol se chamem os dois "oficina".
Têm uma ressonãncia antiga de aprendizagem contínua, trabalho, experimentação e gosto.

Dark kiss também e bom trabalho de pincél sempre à mão.

Lizzie disse...

Alien,
homem simpático e atento como sempre!

Sou mesmo desarrumada, mesmo na memória.
Quando me pediram 3 textos sobre 3 tipos de mulheres diferentes, lembrei-me de como as mulheres, e os homens,se "despem" quando entram ou saem de um sítio que não lhes é familiar. E essas 3 mulheres, entre outras, são para serem dançadas. Entrar e sair implica movimento. E quando as pessoas estão sentadas e falam, gesticulam, e todo o corpo sublinha, ou atraiçoa, o que estão a dizer.

Quando me deu a gana de auto traduzir e adaptar, lembrei-me de ter visto e ouvido, sei lá quando e onde, uma senhora de ar encantado à beira de uma carrinha da Gulbenkian. Levava para casa outros mundos, em fuga, nas mãos:os livros. Nunca mais me esqueci nem da expressão nem da forma como pegava neles, a meio caminho entre a ternura, a posse e a expectativa.

Tem razão, a maior parte nunca foi à carrinha. Talvez se fique pelo mundo das telenovelas, com a vida encaixotada em episódios com desfecho feliz, a mando da audiência.
E pede sempre licença para existir.

Um abraço

pentelho real disse...

não comento, não sei, não consigo, é superior a tudo o que eu pudesse dizer.

é muito, muito bom vir aqui.

um beijo

e vou ao de baixo que ainda não fui, tenha andado um pouco afastada destas coisas.

Alien8 disse...

Lizzie,

Obrigado pela explicação e pelos aperitivos. Que já lá estão.

Abraço.

Emma Larbos disse...

Andam por aí, encontramo-las todos os dia no autocarro e na bicha do supermercado. Arrastam um pouco os pés e medem-nos com o olhar . Contornam as caixas para não as atrapalhar, sorriem docemente ou tristemente - nunca se sabe muito bem. Pedem desculpa, fecham as portas quando saem, como se tivessem medo de deixar vestígios de si por onde passam.
Às vezes apetece fazer-lhes uma festa, a maior parte das vezes apetece dar-lhes um abanão.
Dificilmente aprenderão a dançar.

pentelho real disse...

só agora tive um bocadinho para ir ao de baixo.

andam mundos por aqui.

Lizzie disse...

Alteza,
nada é superior a nada, pois que cada um tem sempre a sua visão sobre qualquer coisa ou não fossem sempre os olhos dos outros diferentes dos nossos.
E mais vos digo que sois mestra na arte de bem descrever e ilustrar os agravos de vossa palaciana vida.

E vendo que ela vos dá tantos e tais afazeres, mais razões tenho para vos agradecer a visita a este meu retiro escrevinhado.

Vossa

Lizzie disse...

Alien,
já lá fui, frustadíssima por não poder roubar, perdão, furtar ou suprimir, das tacinhas e dos queijos.
E são quase horas de almoço!

Também acrescentei a última imagem para que se fique com uma ideia de como as ideias de várias mentes vão desaguar numa imagem, ou melhor, movimento final.

Obrigada e abraço.

Lizzie disse...

Emma,
fico com vontade de acrescentar a riqueza deste teu bocadinho de prosa.
Botas aquilo que eu não disse, também com movimento, com expressão.
De facto é muito díficil distinguir a docilidade da tristeza e da resignação. Por vezes também, numa pequena ruga, se intui a amargura contra a arbitrariedade do destino. E se a ruga for mais profunda, uma raiva disseminada. Como uma mancha difusa. Sem alvo definido.

(credo, parece que estou a dar instruções de interpretação :)

E saem sempre pela esquerda baixa, como diz o Alien, para não deixarem "vestígios de si". Vês como tudo se complementa.

Para lhes dar o abanão já me aconteceu gritar e ter a sensação que não me sai voz nenhuma.

E raramente dançam: têm os pés presos pelo adormecimento constante em que deixam os dias correr no exterior.
Tudo se passa sempre lá fora.

Alien8 disse...

Enquanto uns adicionam azeitonas e queijos, outros acrescentam o desaguar das mentes numa imagem ou num movimento final. É parecido:
Ficar aguado, desaguar... um dia destes acabo mesmo a lavar pratos!

Até lá, obrigado por mais este "pormenor", ainda por cima com dedicatória (não que esteja a bater-me à comenda, quero dizer, a esta comenda, que à outra que lá tenho bato-me descaradamente...)

Lizzie, obrigado.

Lizzie disse...

Alien,
como não sou muito alta, a bem dizer nada alta, melhor dizendo mediana, faça o favor de se pôr a jeito, se fôr caso disso, para o debruar com a comenda, que também está obviamente incluído no rol de excelência.

Quando a Lola a vier também receber, peça-lhe por favor, para trazer a sobremesa que chocos, azeitonas e queijos pedem um docinho para rematar.

Abraço e obrigada

Alien8 disse...

Lizzie,

Já avisei a Lola. Quando viermos receber a comenda, creio que ela trará a sobremesa em falta - ou já a terá colocado algures, à sua disposição.

E vou falar-lhe da lavagem de louça com flamenco, ai isso vou :)

Assim sendo, considero-me quase condecorado, ou comendador, ou isso. Muito obrigado!

Haddock disse...

ó miséria de vida...
nos confessionários diz-se:"aguenta, que é para a vida!"; nos consultórios injectam-se sucedâneos de lítio como terapia de maus tratos e, não fosse o género feminino, amanhecia-se enforcado numa oliveira qualquer com umas garrafas a jazer no chão. mas é o género mais forte, que teme pelos filhos e a moral cristã...
e convence-se de que, no fundo, até tem pena dele... a bem dos filhos também. e depois mais vale acompanhado do que só.
profundamente deprimente tudo isto. estais de parabéns, lizzie. perdemos o apetite!!

vénia...

Vanda disse...

Lizzie,

...gostei daquele andamento na casa do Alien :) duvido, contudo, que tenhamos deixado a louça bem lavada :)

Aliás, gosto de flamenco e na altura do teu post sobre Carmen Amaya, La Capitana, vim visitar-te e comentar-te. O comentário era longo, saiu-me claro e vibrante :) e quando cliquei perdeu-se.

Como tinha sido algo, saído de um outro local, diferente da mente, nunca o poderia ou conseguiria repetir :( saí sem comentar.


Não percebo de que lápis falas...


Gostei dos teus textos.

Há almas assim.

Há outras que fazem tempestades.

E que não se deixam vergar...

Ólé:)) voltamos à dança?

Vanda disse...

Lizzie,


Talvez esteja errado eu ler comentários deixados por outras pessoas, mas sei lá, a palavra litio saltou-me aos olhos...

Permites que escreva aqui algumas palavras para o Haddock? Ou pelo menos relacionadas com o comentário do Haddock?

É verdade que muitas pessoas com desvios comportamentais graves devem tomar litio por esse mundo fora...mas usar a expressão "como terapia de maus tratos" é talvez leviano e de certa forma abusado...

Um diagnóstico demora muito tempo a ser feito...todas as hipoteses devem ser profundamente ponderadas e há até, quem num quadro de doença também tenha os tais desvios de personalidade...

Separar o trigo do joio demora o seu tempo...e até há casos de diagnostico dificil, onde além dos sintomas de doença, existe o alcoolismo à mistura com um perfil de bulling...

Há casos em que não é apenas o alcoolismo. Em que não é apenas a doença. Em que não é apenas ele ser bullye. É tudo junto.


E se o litio juntamente com o valproato evita as crises -doença- e se só a força de vontade para deixar de beber pode ajudar -alcoolismo- decerto que os desvios de personalidade só com muita terapia poderão começar a dar sinais de reaprendizagem.

Agora imagina um homem feito, que sempre viveu assim e sempre se conseguiu safar das piores situações aceitar a ideia que ele é que está errado!!!


Não aceita.

Foi assim que viu o pai ser enquanto crescia. Foi este o exemplo que teve. Foi esta a sua vivencia.


Não aceita.


E quando não se aceita a verdade sobre "nós próprios" não ha nada a fazer. Não há futuro nem evolução positiva para uma situação que é escondida!

A cabeça que cria um problema nunca será capaz de o resolver por ela propria.

Julgo que depois dos varios despistes obrigatórios serem efectuados a única saída para a mulher que vive a seu lado é dar como finda a "batalha"...e por um fim na relação.

Aceitar que a fealdade existe a par da beleza, é vital.

Aceitar que nem sempre conseguims mudar mentalidades, é fundamental.


Mas volto a repetir, é um quadro complexo que não pode ser levianamente encarado, como aliás, nenhum caso de psiquiatria, psicologia ou mesmo sociologia o deve ser!


Para lá de toda a literatura, não esqueçamos que se tratam de pessoas, Lizzie!E se há mulheres como as que tu descreves no teu texo há outras...Que amam, que vibram. Que têm paixoes. Que são inteligentes. Que nunca se acomodaram a rotulos de coitadinhas. Que sempre tiveram uma carreira. Uma profissão. Que não querem aquilo para a vida delas. Que não foi esse o modelo de vida que tiveram em pequenas.
Que sabem os riscos que correm, caso seja mais que uma doença.
Que percebem os efeitos dos medicamentos. Que sabem fazer a escolha. Mas só quando não têm duvidas sobre o que se passa.
São mulheres inteiras, percebes?

Nem cobardes nem loucamente destemidas.

São mulheres que ponderam.

E que um dia, dizem: chega.


Beijos :)


Beijinhos

Lizzie disse...

Alien,
quanto mais vierem incentivar a lavagem flamencada da louça, melhor.
O flamenco requere-se ruidoso de gritos e, neste caso, pratos partidos à discrição.:)

Deixe chegar o último terço de Agosto e há-de Lisboa acordar com o eco da dança em Madrid.
A Nnanna terá autorização de gritar "ah boca linda", coisa que já ensinei lá. E pegou.

Fuego Niño!

Lizzie disse...

Capitão,
miséria de vida é assistirmos em Madrid a uma manifestação, no ano da graça de 2008, séc. XXI, maioritariamente de mulheres, com bispos atrás e à frente, a defenderem o papel da mulher submissa, maltratada, doméstica virada a aturar bebedeira e a parir os filhos que calham na natureza porque mulher séria vai virgem para o casamento e não quer desperdiçar espermatozóides depois de casada e mais o que "Deus uniu o homem não pode desunir".
E vem até uma socióloga defender que a civilização se baseia na mulher em casa e o homem fora.
E que a verdadeira realização está em servir de suporte e garantia do marido (nunca do amante mesmo no sentido mais nobre do termo).

E fomos de ouvir muito mais coisas e o tal movimento anda a alardear tal filosofia como se fosse a salvação dos males modernos.

E não fiqueis sem apetite que as outros dois tipos de mulheres que nos calharam na rifa, são, de certa forma, o oposto desta.

E quanto a lítios e outros vamos responder-vos já aqui em baixo.

Entretanto, baixai a cabeça , mantendo o boné, que vos queremos medalhar.

Continência

Lizzie disse...

Vanda:
tomemos folego para atacar os tachos, agora que os copos e os pratos já estão.
Mas enquanto ficam im bocadinho de molho sempre te digo que conheço algumas mulheres assim e...na casa dos vintes.

E muitas tomam medicamentos, não sei se lítio, mas ansiolícos e anti-depressivos aos montes.

Há aqui uma secretária que só ouve à terceira. Zombie. Tem 28 anos. O marido deixa a roupa pelo chão, ela apanha! O marido sai à noite, ela espera! O marido bebe, ela chora! E por aí fora. Lá vai comprimido, que é para ver se a vida muda, se sorri. E obviamente que a vida continua trombuda como o destino que ela lhe dá.

O que me parece é que as mulheres são educadas, sobretudo pelas próprias mães, para a maternidade das criaturas. Daí que as desculpem. E é preciso dar a volta para ter a firmeza de seguir o que de facto se quer e, nesta sociedade, é capaz de não ser fácil. Está tudo, ainda, muito baseado nos valores judaico-cristãos com a Eva a carregar toda a culpa. Isto chegou até à história da dança, tanto na mais recente como na mais remota.

Acredito que os diagnósticos sejam díficeis. A maior parte dos homens que batem nas mulheres e nos filhos está convencido que isso é natural e legítimo. E beber em excesso é considerado de "homem" e com tais atitudes não sei se não irão sugando a vontade das filhas de se tornarem adultas autónomas. Não sei se a falta de auto estima das mães não será contagiosa.

Nas classes altas entra a tortura psicológica: "a menina já reparou que quase não cabe na porta?" ou " estou farto de lhe explicar que..."

e também me parece que as mulheres não percebem que é pior para os filhos verem maus tratos e solidões gritadas em resignação, que a separação. Quando a panela ferve, talvez sejam eles os mais prejudicados.

E a parte financeira da questão?

E quantas (e quantos) têm acesso à cultura, tomada como aprendizagem do sentido crítico?


Mas pronto! Continuemos com a lavagem e a dança, que já descansámos as pernas. Agora
parece que vamos ondear ao som de blues. Coisa mais calma mas que requer muita técnica e história rica. Anda que eu ensino.


Quanto ao lápis referia-me à casa que está ao lado chamada "nas asas de um lápis". Deu-me uma veneta de botar postagem sobre lápis. Só isso.

Tenho pena que o comentário não tenha entrado.


Andaté fuego esso!
Venga!

Besos

Vanda disse...

Lizzie,

ainda bem que te leio sentada.


Isso acontece actualmente?

-miudas da idade das minhas filhas andarem assim submissas, como eu nunca andei?

-drunfadas contra a vida real?


E que raio de movimento descendente, é esse, de novo? tão velho, boleirento, tão anti tudo, tão anti crescimento pessoal da mulher? Tão anti natura, tão amputador de mulheres?


Até já me esqueci das panelas.


Conta-me tudo, antes que a louça se parta.


Beijos

Lizzie disse...

Vanda, é assim mesmo! aqui onde estou muitas são as mulheres parecidas com a tal secretária.

Botei agora aquele post ali em cima mas fica prometido, para a semana, um sobre os ardis desses movimentos.

Podes crer que vemos algumas manifestações deles todos os dias.De forma quase subliminar. Em Espanha e nas Américas, algumas pessoas se têm dedicado a analisar o fenómeno. Provavelmente também noutros sítios, mas desses sei pouco ou nada.

A nossa geração não foi assim, pelo menos as mais "intelectualizadas".
Fico tão arrepiada como tu.


beijinhos

Marginal disse...

Chorar é muitas vezes o mecanismo de defesa/alarme perante o perigo eminente da "desistência"...


Enquanto se chora, o nosso eu, ainda existe... chora-se porque se tem um desgosto, uma raiva contida... esperemos que as secretarias de todo o mundo, decidam deitar os comprimidos pela janela e resolver o que as faz chorar...


E falemos lá, na outra margem, de esferograficas e afins :)

nnannarella disse...

Ah! boca linda!, minha Senhora, deixe a porta aberta para voltar quando quiser. Adorei conversar consigo, mesmo quando as histórias são assim,fellinianas, impregnadas de riso amargo.
A frase do filme acho que a disse a desmesurada Bette Davis, no All about Eve, magnífico filme, sobre mulheres...
Um bom abraço para si e fábricas e fábricas ao meu Arcanjo.

Lizzie disse...

Marginal,
tem toda a razão: enquanto se chora ainda se tem alguma consciência de si, ainda não se está anulada, ou anulado, completamente. Ainda se tem consciência.

Quanto a comprimidos, infelizmente, é tudo tão complicado em termos de causas e efeitos, que talvez lhes seja difícil, deitá-los fora de repente. Neste caso da secretária bem que merecia pegar-lhes fogo. É, como quase todas nestas condições,muito boa rapariga.

Logo, ou segunda, lá hei-de ir às esferográficas.:)

Lizzie disse...

Dona NNannarella é muito gentil da sua parte dizer que gosta de conversar comigo. Falo tão pouco embora ele diga que falo demais. Sabe como são os homens, acham sempre que as mulheres não se calam.Que riem e choram por tudo e por nada. Eles não têm paciência. Vêem cansados do trabalho,lá das suas ralações. Nós já somos diferentes. Não nos importamos de ouvir embora haja pouca gente que nos ouça.
Quantas vezes não falamos e temos a impressão que toda a gente está a pensar em outra coisa.

Quando disse a frase do filme a D. Lizzie disse que conhecia e que depois, quando fosse a sua casa lhe dizia. É muito amável.

Então bom dia, não se empate.
Se vir a D. Lizzie, diga que lhe mando

sonatas e sonatas deles.

Marginal disse...

Atrasei-me na escrita a lápis.


Mas já lá está.


Toda para si e depois de a ler, faça tudo o que quiser das venetas que sentir em si.

E hoje para mim a dança é outra, o compasso também. Meat Loaf enão só.

Levar fantasmas a dançar não dá muita graça, pelo que os deixo libertos.

Já não me pertencem.


Deixo-lhe um beijo e um aplauso.

:)

Lola disse...

Lizzie,

De novo um texto maravilhoso, mas eu vejo esta mulher como uma Mulher- Coragem, que segura a vida dos outros à custa dela própria e ainda sonha...

Está errado, claro, mas conheço tantas.

Chegam à consulta com ar triste, e não sabem porquê: "não, o marido tem os problemas que sabe..."
"Os filhos têm a vida deles, coitados"

E ela sózinha, na meia idade, sem retorno possível...

Pede um remédio para as dores...

Desabafa, trocamos sorrisos e cumplicidades.

Até à próxima.

Lizzie disse...

Marginal,
já lá fui com mais uma veneta.
E sou mesmo de venetas. Penso muito pouco. Os lápis mandam mais em mim que eu neles.:)

Também acho que não se deve dançar com fantasmas. São empecilhos para os passos. Atrapalham os pés que se querem soltos. Eles que dancem uns com os outros no reino dos esquecidos.


Beijinhos

Lizzie disse...

Lola,
está errado, pode estar, mas merecem respeito e tantas vezes a gratidão que não têm.

Conheço muitas e este texto talvez seja uma manta de retalhos com pedaços de cada uma delas.

Também sei que inventam doenças que não têm, quantas vezes só para que se olhe para elas. E também já vi estarem doentes, não se tratarem para irem acudir a quem servem de suporte. Sempre sózinhas. Com mansidão ou raiva, a cumprirem o seu "dever".

Acabam por se considerar "trapos".

beijinhos