terça-feira, 3 de junho de 2008

A plateia dos olhos intemporais





Chego onde agora estou e vejo alguns pares de olhos, mais do que os habituais, espantados e, sejamos crus, deliciados, com a longa lista de vídeos profissionais e amadores, da decadência de Amy Whinehouse no festival de rock. E morreu Yves Saint Laurent, o tal que se fazia acompanhar do fantasma das máximas de Proust, e castigou, de forma discreta aos olhares do comum do mundo, o corpo e a alma, durante setenta e um anos. Duas criaturas no palco da voracidade da desgraça.


























E lembro-me que ao longo do tempo sempre a humanidade se maravilhou com o extraordinário da deficiência física ou com a queda dos considerados prodígios, com o pêndulo sempre a oscilar entre o fascínio e a repulsa, a santidade e o diabólico.

Não sei qual a causa de tal bulimia mas os mitos formam-se quase sempre pelo que sai, negativamente, da massa moldada no comum: ver os outros a arder nas fogueiras das suas existências públicas ou privadas, é capaz de nos fazer sentir melhor a nossa frescura. De nos eliminar os defeitos.






Talvez seja a vingança de quem entra e sai desta vida sem ter o rosto retratado no presente e no futuro. Nomes sem enredo perdidos na história. Não sei!








No séc. XVIII, uma bailarina, La Camargo, tornou-se célebre por ter iniciado a altitude na dança, o começo dos “voos”, la dance haute. Se no auge enchia, no ocaso transbordava teatros, quando as pernas já não lhe davam aquele particular toque etéreo e virtuoso. O público ria-se quando a via sujeita à força do tempo e da gravidade.

Mais se entretinha com os folhetins da sua rivalidade com outra grande dama, Marie Sallé, a primeira a dançar com a cara descoberta e sem o empoeiramento da peruca. Voltaire, em função de cronista social, foi alimentando e divulgando a chama do conflito. O desaforo e o ridiculo, reais ou inventados, sempre se venderam bem.







Alguma fotografia dos fins de XIX e princípios do XX, divulgou de forma autêntica ou já manipulada, toda a espécie de horrores. Em Nova Iorque, Londres ou Berlim comercializavam-se aos milhares. Talvez os mesmos números que enchiam o Largo de S. Domingos em Lisboa, churrasqueira aberta para os gourmets da Inquisição . (Não boto aqui nenhuma, porque não me apetece ficar arrepiada, e não é correcto gritar no sítio onde me encontro.)

A estrela mais inspiradora para futuras obras, e até para Almodovar através da personagem Agrado, foi Joseph Merrick, mais conhecido pelo Homem Elefante, aqui na versão original:





Continuando com os exemplos, nos anos sessenta da nossa era, uma outra bailarina, americana, foi moldada pelos tempos e deu, sabe-se lá se voluntariamente, pasmados espectáculos até à prematura morte, de dança “hiper realista” coreografada pelo LSD, heroína, barbitúricos e álcool. Aplaudia-se de pé a genuína tontura dos tempos. Foi uma espécie de lãmina no laboratório sagrado da liberdade.





Quem já esteve, ou está no palco ou bastidores, sente essa fatia perversa: os que salivam o falhanço. São uma espécie de brisa negra, indefinida mas com presença pesada e incidiosa.

Existiam até três gulosas criaturas, assíduas em espectáculos fixos ou em digressão. Dois cavalheiros e uma dama, a quem se chamavam nomes impróprios para usar na via pública. Provou-se, mais tarde, que a intuição tem razões que a racionalidade desconhece. E que a caridade dos ramos de flores aos lesionados ou aflitos, estava próxima (como quase toda a hipocrisia ligada a ela), da mais pura prepotência.





Para não alongar a dissertação meramente empírica, e já na portagem da globalização, ou seja aquela coisa de em segundos termos todos os espectáculos do mundo à porta do olhar, lembro-me dos novos profetas literários que, baseados na história e na observação do que se passava no chamado topo do mundo civilizado,




previram, no início dos anos oitenta, o vampirismo progressivo das hostes, cada vez mais alargadas. Assim de repente vêm à memória Breat Easton Ellis, Douglas Coupland, Elizabeth Wurtzel, Brian D´Amato.

Sem ordem cronológica e cada um à sua maneira, lá descreveram e descrevem em romances, o desfilar e repetir de imagens chocantes em lençóis de telejornais, com ingredientes de espectativa do horror; os reality shows à vontade de cada apetite; o sonho suicida, alimentado pelo sonho dos pais, de que cada filha há-de ser top model seja qual fôr o preço






e os rapazes donos do mundo com portão em Wall Street ou estádio; as operações plásticas que transformam mulheres em raridades nas mediáticas feiras;




as companhias de dança que despedem bailarinos aos vinte cinco anos rindo-se dos de trinta, enterrando os de quarenta e mais tanta gente que de herói vira vilão e de vilão a herói ao toque de uma tecla ou de um botão.





Mas enfim, suponho que com ou sem dissecadores olhares, Yves Saint- Laurent nesta altura já estará a perfumar a eternidade com Opium e a sugerir que já é tempo de as santas usarem cómodas calças compradas no pronto-a-vestir para se dirigirem para os seus afazeres diários e Amy Whinehouse, enquanto parece comprar o bilhete para lhe fazer companhia, lembra que nas melhores filhas e alunas pode cair a nódoa.





Bato-lhes palmas ao talento antes de vestir o casaco com bolsos que dão tanto jeito para guardar as chaves do carro, enquanto penso nas imagens deles. Que também vi. E comentei. Com a atenuante de ser esta a segunda vez.

20 comentários:

Lizzie disse...

Por acaso não é a segunda vez. É a terceira. Foi-me dito ontem que a televisão espanhola, e em todos os canais, passou os tombos de corpo e voz da "piquena". Em vários programas.

Uma, duas, pois, foi a terceira...

pentelho real disse...

volto. e ao de baixo também.

pentelho real disse...

senhora, voltei. fui ao de baixo e aquilo de que já me apercebera por vossos postais anteriores, confirmo agora.
sois pessoa bem fadada: é que, além dos vossos conhecimentos, que se espraiam por incomensuráveis temas, (sereis filha de alguma enciclopédia ?), tendes a sorte de ter comentadores, que não eu, à vossa elevada estatura. na verdade, o post anterior não acaba com o que escrevesteis; continua com a colaboração de vossos ilustres comentadores. a vós e a eles deixo aqui a minha homenagem e retiro-me cheia de complexos de inferioridade e de rabinho entre as pernas.

Lizzie disse...

Alteza, ainda bem que haveis regressado...

Lizzie disse...

...e mais vos digo que não sou filha de enciclopédia:queria lá eu ter mãe e pai em vários volumes...olhai para mim a sentir nossa mãe folhada! Credo!

E não torneis a dizer que tendes complexos de inferioridade se não ponho-vos a ler o American Psicho do Easton Elis sem parança.
Alteza sempre fui coscuvilheira em relação a tudo e grande admiradora da literatura americana. Sou de ter lido muitos noite fora, tal é o que de alguns autores e autoras gosto.
E todas as artes estão ligadas entre si, mais ao estado do mundo, seja interior seja exterior.A dança, essa então, é radial.

E assim me haveis dado mote para várias conversas ilustradas. Quando estiver de regresso das mini f***** (ponho assim não vá o Capitão aparecer e dar um pulo).

Quanto a comentadores, tenho exactamente a mesma opinião que vós INCLUINDO-VOS!

E tirai o rabinho de entre as pernas que não sois canidea.

Haddock disse...

o fascínio sórdido pela decrepitude e pelo grotesco... espectáculo circense, tipo: "olha a queda sem rede do trapezista"!!
e "os que salivam o falhanço", sim... que lhes faz bem à alma, cambada de complexados!!
também nós já estivémos em palco a representar o nosso papel (como quase toda a gente) e lá sente-se e vê-se todo o tipo de expectativas... dos outros (que se pensam discretos); especialmente a mais estridente de todas: "vai-se espalhar ao comprido!!"...
atenção, não somos dançarinos, como bem sabeis, lizzie.
ocorreu-nos, no meio de tudo isto, o espalhanço do palma, nuns globos quaisquer. ohh, momento alto!!


vénia...

Lizzie disse...

Capitão:
não vimos o espalhanço do Palma nos globos, mas, no dia a seguir logo nos vieram mostrar. Cá está a teoria dos olhos menores.

E tendes razão: palcos cada qual tem o seu e, normalmente publico não falta sobretudo quando cheira a derrapagem na execução das peças.

Felizmente, em vários sítios, até cá, já ouvimos gulosos do agoiro começar com as rezas do costume antes dos vários espectáculos e vimos os interpretes esbofetearem com luva branca, sabeis? sem estridência. Depois somos nós a ficar divertidas com a cara da "cambada de complexados". Inimitável expressão de frustação. O trapezista não caiu.

Sem moralismos e em relação à "piquena" ( e independentemente do que achamos ou deixamos de achar) o que nos faz impressão é que as pessoas com criancinhas pequenas se riam. Sabe-se lá o que virá lá para as bandas do futuro.

Continência

Frioleiras disse...

já não bastam os "posts" ...

também poderemos saborear os comentadores...

excelente,
sim

Frioleiras disse...

E voltei... porque me lembrei do Òpio.... tanto o usei, nos Invernos que ainda eram Invernos...

os meus amigos enjoados e eu feliz...





(é um privilégio ler-te ...)

Emma Larbos disse...

Já aqui se falou (se estou bem recordada) da tentação do abismo que vivem grandes talentos. E de como a arte vive na outra face do desespero. Faço uma vénia à Amy e desejo que lhe nasçam nos pés umas raízes fortes que a agarrem à terra.
Dos que ficam a olhar, babando-se na sua medíocre tranquilidade reforçada, não rezará nenhuma história. Mesmo que tombe, a Amy já chegou ao céu primeiro do que eles.

St. J. disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
St. J. disse...

Cara Eli,
O post está fantástico.

Cumps

(O meu comentário - acima - tem um destinatário com outra morada...)
;)

Madame Maigret disse...

Ma chère amie, que é agradável de vos ler, même quand les themes esvoacent par partes mais ombrosas da natureza humana.
Yves, que dizia " a moda desaparece, o estilo é eterno", chamavam-lhe "monstro da moda internacional"... :-)Bisous.

Graça B. disse...

Bom...acho que as santas já devem estar a usar o smoking. Como hão-de elas resistir ao charme do Yves?! Claro que devem lá estar as insidiosas presenças. Custa-me a crer numa eternidade sem tal frenesi. Devem ser elas o acompanhamento, batendo palmas de todas as vezes que as santinhas pisarem as dobras das calças por falta de experiência.

Beijinhos. Boa semana.

Lizzie disse...

Frioleiras:
também eu fui fã do Opium durante anos a fio.E de verão lá vinha o Paris.
Agora mudei de marcas, uma delas portuguesa, a finalizar em discreto limão, uma forma de (me) fugir ao estio e a conselho de uma senhora castelhana da dança, que quando parada, tem no olfacto grande rigor de sentido.
E é tal a permanência do nome pecador, que no outro dia abri uma arca de papéis já, para mim, antigos e lá me chegou a fragãncia, levando-me a sítios distantes, naquele momento situados mesmo ali, na esquina do presente.

Lizzie disse...

Emma:
a arte, muito sentida e como exorcismo, tem tendência a nascer de sentimentos intensos, sejam eles de desepero ou de euforia, de desgosto, amor ou paixão seja em relação a alguém ou a à exploração de uma ideia. Se calhar do morno não reza a história.
E acabaste de me dar uma.
Claro que ponho de parte alguns ismos, pós e neos tão abundantes no séc.XX.
(No outro dia, um alemão disse numa entrevista, que se considerava "pós artista", vendo-lhe a "obra" considerámos tratar-se de um neo parvo).

Também acho que a Amy, naquela sua ebolição de amor preso e doido, já chegou ao céu. Os santos devem ter bom ouvido para vozes raras e a pés sujos já devem estar habituados.

Lizzie disse...

Xantinho:
também me pareceu que a morada estava errada, a menos que além de Lizzie e Eli também tenha um outro e novo Grande Nome. Que existem nomes grandes, nisso estamos de acordo.

Cómo dicen los nuestros, no pasa nada.

e obrigada.

Lizzie disse...

Ma chére Madame:
la nature humaine é feita de tantes sentiments contraditroires!
Je voi que pour vous, comme pour moi, o que interessa é o prazer que o lado bom, ou menos mau, nos dá.

Como sabe tal frase do Yves, resumiu uma revolução democrática que se estende a vários campos e, imagino,revoltou Madame Coco Chanel na tumba.

Merci bien, e talvez um dia destes discutamos essa coisa, aparentemente fútil mas muito complicada que é a moda.

Bissou

Lizzie disse...

Ah Cici,falas do smoking e lá temos a Chanel com mais um dos seus célebres ataques de mau génio.
Vi passagens de modelos e garanto-te que, fosse eu santa, e não resistiria a encomendar aos anjos tal primor de elegância no corte femenino. E olha que não fica bem só a top models:vi uma senhora muito longe disso, trajar um adaptado pelo próprio Yves, e daquele pano transpirava charme em cada fibra.

Quanto à plateia desdenhosa, que interessa? Plagiando a Emma, as santas já lá estão, as outras que se fiquem pelo purgatório.

beijinhos

Marginal disse...

Bom dia, Lizzie,


aprofundo-me na tua profundidade.


Se não és escritra, deverias sê-lo.


V~es para lá das paredes, sentes o mundo de uma forma lúcida, e quando te soltas, usas de uma graça incrivel...



Vou ao mar, já volto :)

beijo