terça-feira, 27 de maio de 2008

Viagem, de olhos abertos, a uma espécie de teatro, em duas noites aflitas.





Assim, aqui vos deixo descrição de algumas coisas que vi e ouvi na urgência de um hospital de província, na fronteira com Lisboa, que isto é país pequeno em que para o bem e para o mal se dão passos de gigante para terras com tempos distantes.

Eram dez da noite e carrego eu, que sou mulher de força, com criatura coxinha mas colaborante, por um chão escorregadio com decoração ladrilhar inspirada no estádio do Sporting em direcção à recepção, agora chamada Office. A recepcionista, ou melhor, officionista, cumprimenta com um pois não? teletransportando-nos para o reino contagioso das telenovelas. E quantas foram as idas e vindas…

e antes de ouvir e teclar a queixa e a sua gravidade, vai logo exigindo o pagamento da taxa moderadora, não vá a doente finar-se sem pagar a simples deslocação.




Reparo que os homens estão todos de um lado e as mulheres do outro, tal é a separação de conversas e interesses. Alguns dos dois géneros têm uma pulseira com os dados pessoais, como ante cadáver já identificado: são os utentes. Vale mais prevenir que remediar. É de bom tom não guardar para depois o que se pode fazer agora.

E talvez seja, sem ser divulgado, o dia nacional da fractura, tantos são os ais de coxeamento e braço ao peito.
Continuando a apurar o sentido estatístico, confirmo que quando casam, as mulheres arranjam marido em kit: ele e toda a família dele. Cada homem tem muitos acompanhantes. As mulheres têm um ou dois.

A minha família vem como peça isolada lá de dentro, com diagnóstico de perónio fracturado e receita para compra de umas talas obrigatórias porque, ortopedista sic, houve um jogador de futebol que por causa de tal azar, nunca mais jogou.

A minha família não tem nem vocação nem intento de, passados já os cinquenta, abraçar tal auspiciosa e lucrativa carreira.



No dia a seguir,na loja de produtos ortopédicos, um senhor de licenciada bata branca, começa a trazer vários modelos de calçado que vai (em aparência) desde as botas de montar às botas de astronauta. Cada vez que vai ao departamento contíguo, surge com novo modelo.
Fico à espera da prótese em forma de perna da Marlene Dietrich , Marilyn Monroe , Mãe West. Neste caso, seria mais próprio, penso eu, uma também vintage, Rita Hayworth.

Os preços, não comparticipados, oscilam entre os 799 E e os 199.

O técnico aconselha umas intermédias porque já um guarda-redes deixou de jogar por situação igual. Telefónica e simpaticamente o médico recomenda as de 199. Perdão: 199.80, para ser mais exacta.

Passado pouco tempo, a minha família começa a queixar-se de dores, a mudar a cor do rosado rosto.
Volta-se ao hospital.


Pois não?




Desta vez é meia noite. E chega um rapaz da construção de obra megalómana, em maca, a esvair-se em sangue com um esgar de quem está a dormir e no cúmulo de um aterrorizador pesadelo. Os colegas gritam que tem que entrar já. Caiu na dita obra. Da placa.

Uma senhora, com traje inspirado no das hospedeiras da TAP e que nunca cresceu, pois só quem não cresce ou já nasceu velho ,




é de tal forma obediente ao protocolo, põe ordem e diz que primeiro, tem que se ir inscrever, ir à triagem. As regras são para se cumprir. Assim foi decidido. Suponho que é por ordem superior que pergunta ao dito se tem seguro.

Um homem com evidente gravata preta, aproxima-se da maca. Tem ar guloso e adunco, embora reconchudo. Mais tarde percebi tratar-se de agente funerário. Tem ar de angariador da morte.

Um outro, lá do fundo, aponta o espírito de poupança nos ingredientes da massa (cimento) dos empreiteiros . E começa cada um e a propósito, a contar as histórias mais delirantes relativas à arte de bem poupar. Em salas de espera, da nascente de qualquer mote, jorram Amazonas de trova.





E chega outro homem, vindo da porta de acesso interdito a pessoas estranhas ao serviço , que, como muitos másculos fazem em gesto de orgulho, puxa as calças acima do umbigo. Em voz alta, exuberante, informa a plateia que o filho tem costelas partidas mais clavícula. Viril tentativa de tourear um bezerro. É um pai realizado na descendência.




A mãe, a um canto, chora amarfanhando um lenço entre as mãos, gesto recorrente nas mulheres que engolem a má sorte, como algumas que vão chegando de cara desfeita e a seguir ao pois não?




dizem, baixinho, que caíram das escadas. Têm a cabeça tão pesada de vergonha e silêncio que na queda magoam sempre, e em primeiro lugar, a face. É uma caracteristica do tombar feminino.




Por todo o lado se lêem cartazes de proíbição de fumar, mas outra senhora com farda inspirada nos Irmãos Metralha, lança uma espécie de Fabuloso Floral puro pelo chão, espalhando-o com a esfregona. Lembro-me que sou (embora incipientemente) asmática e, como muitos outros, vou fumar um cigarro para o exterior. O risco de ir ao Office ou ter uma enxaqueca, é infinitivamente menor.

Entretanto, como se do alto surgisse maestro orquestral invisível,




todas as mulheres pôem um pano no colo, abrem os sacos de plástico e sacam do pão, queijo chouriço, vinho, cerveja e chamam os homens para junto delas. Aglomerado mastigador em contraponto, variações em Dor Maior, entre o adagio e o allegro molto, passando pelo larghetto quase nunca moderato.





É um momento de confraternização, impossível num hospital de uma cidade grande em que qualquer pessoa, face a outra, não passa de um anónimo. Ali toda a gente é parente ou vizinho de alguém.

Diga-se, sem ponta de ironia ou cinismo, que sem ninguém nos conhecer de lado nenhum, logo nos foi oferecida merenda.

A minha família quase desmaia com mal-estar e dor. Dirijo-me à tal mestre de cerimónias e pergunto-lhe se falta muito.

O pé está roxo.
É normal.
Olhe que não...
Mais uma meia hora.

Nesta minha cabeça produz-se apetite revolucionário com recurso ao poder hermético da linguagem e sai-me um irreverente, furibundo, mas contido e baixo:

a doente tem edema com cianose em franco processo evolutivo!

Milagrosas palavras, que abrem instantaneamente as portas para o alívio.
Pobre de quem não tem reserva de palavreado. Naquele caso, parece-me, que até serviria um o quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos.

Afinal o técnico sapateiro medicinal tinha posto uma tira afivelada a garrotar tudo o que vaso sanguíneo e linfático fosse e
afinal o aspirante a toureiro só tinha uma costela partida e

afinal são quase quatro da manhã e abandono com a minha família aquele mar negro de olheiras de trabalho tal é a falta de médicos e enfermeiros que manda a contabilidade orçamental que não haja mais contractos, de corpos doentes de falta de atenção, de vaidades herdadas, de ossos traídos, de dores sem voz, de voz com dores, de corações de armadura rota, de consultas desesperadas sem serem urgentes, de...
Então boa noite! As melhoras!







Pois não?

18 comentários:

Graça B. disse...

Pois sim! Quando se vai para sítios destes é preciso levar munições. Ainda bem que partilhaste a bala do teorema pitagórico que assim vou pôr na carteira algumas de diâmetro semelhante para as próximas idas à espécie de teatro da minha área. Ao mesmo tempo chega a ser interessante. Desde os solitários, absurdos, paranóicos e delirantes Kafkianos aos fantasmas divertidos de Tim Burton, passando pelos feios e porcos do Ettore Scola, podemos encontrar nestes lugares os seres mais raros e inimagináveis. O desconexo contado e ilustrado de forma assombrosa e clarividente.

Um beijinho.

nnannarella disse...

Meu Arcanjo, li bem ? Office!? Tens a certeza certezinha ?

Não é esse o sinal mais escabroso dos estranhos tempos que vivemos... Os piores, que relatas, convencem-me a chamar por ti, a evocar-te, quando tiver que ir ou ficar numa espécie de teatro desses.

Minha Santa Lizzie Científica rogai por mim, com vossas cianoses e hipotenusas...!;) Catetos e catetos deles! Ao quadrado!

Lizzie disse...

Ai Cici, quase que pareço um daqueles exploradores do National Geographic de calções, botas, meias até ao joelho e pronúncia de Oxford :
and now the woman cuts off a big piece of cheese. Does the man swallow it? Or does he choke it and die? The man masticates…the woman observes…now he drinks wine from the bottle…the cheese is still in his mouth…

Comparando com outras onde já estive quase que diria que se pode observar os modelos sociais dos países. Neste, duas mulheres, mesmo aleijadinhas, lá iam cortando com a navalha o pão para dar à chefia masculina. E a preocupação principal, entre fracturas e entorses era a lida da horta e da casa.
Os homens estavam descontraídos. É só meter baixa.

De facto, resumindo, este filme está muito longe da eficiência inglesa, da má educação americana ou da rebelião espanhola. Onde iria parar a farda da “hospedeira da TAP”?
O que mais impressiona, é parecer que alguém obedece sempre a alguém.

Talvez haja uma doença chamada sonambulismo da vontade

Beijinhos

Lizzie disse...

Oh Meu Peristáltico e não espasmódico Anjo:
ia eu tendo um ataque de vaso constrição sistémica e indiferenciada quando li, com certeza, sem nenhum episódio de alucinação provocada por descompensação no sistema nervoso central, a dita importação Office. E não sou nacionalista.
Um português pensa que há ali mecânica para arranjar ambulâncias; um espanhol que se trata de escritório. E um italiano?

Eu cá penso que há uma grandessíssima falta de respeito pela identidade da língua em síntese com novo-riquismo.
Uma pessoa até fica com hipo glicemia ao limite.
E o “pois não” pôs-me á beira da astenia.

E minha filha, toma a minha bênção, ergue-te que fazes contusão nas rótulas. Não as quero edemensiadas, que já vai longa a lista de espera, tal é a fila de santos com encargos no Office dos céus.
Até a minha colega santa Barbara se queixa de excesso de trabalho.

Saúdes e saúdes

Madame Maigret disse...

Ô Lizzie, femme de langue chaude, de doigts magiques, à partir d'une Vision on peut tout faire, sur une page. Moi, que je suis connue pour ma patience, j'aime voir des paroles justement indignées. Je vous embrasse. Belle fin-de-semaine pour vous e votre famille.

G.A.M.N.A.A. disse...

Visite-nos !

Frioleiras disse...

excelente e
dolorosamente.....

verdadeira, esta tua descrição...

nnannarella disse...

Meu Compensante Arcanjo, cá passei estes dias Abençoada com tuas benzeduras, mais com a alusão a Santa Bárbara, Senhora omnipresente nas capelinhas da província por seus sacros efeitos sobre as tempestades, os raios, as queimaduras e outras mortes trágicas.

Quanto ao Office, esperemos que não se alembrem de se virarem para o italiano e colocarem, sei lá, tabuleta a dizer Gabinetto, que, na verdade, quer dizer também casa de banho... ah ah!!!

Boa semana, que passe rápida como as tempestades mansas, e muitos peristálticos e não espasmódicos, desta que te ora, amén!

Lizzie disse...

Madame, quelle surprise!!!!
Et quelles saudades de vous avez ici!
Avec votre simpatie, comme toujours!
Não sei se também vos acontece o que me aconteceu e aqui não relatei:estava eu a ler um livro em espanhol, que muito agradaria a votre Jules e a vous, quando uma senhora com traje inspirado em Omo-lava-mais-branco, olhou para o título e gritou com se eu fosse surda, martelando as palavras: puyede ir buscar el carro.Está despachada! Já reparou, cher Madame, como se grita para os estrangeiros sem mudar as palavras?
E eu disse: está bem, muito obrigada e respondeu a senhora com um certo ar de desprezo: ah, afinal é portuguesa!
Não estava eu para actriz, Madame se não: lo qué? es qué no te entiendo, qué?
Ai Madame, perdoe estes delírios.

Muito obrigada, cumprimentos a votre mari et pour vous um grande embrasse.

Lizzie disse...

g.a.m.n.a.a.:
pois, caros amigos já vos tenho visitado embora ainda não tenha comentado.
Boas iniciativas.

Lizzie disse...

Frioleiras:
obrigada!
De facto só brincando, às vezes, é que se consegue suportar as várias dores provocadas, entre outras coisas, por fiéis mangas de alpaca, obedientemente servas do pastor, nem que para isso tenham que deixar morrer o rebanho todo.
E adorei o papel representado por um segurança: mãos atrás das costas, pernas abertas, olhar em frente, rosto severo. Em que filme de guerra terá ele visto tal pose?

Lizzie disse...

Meu Anjo, ando com vocação de Ambrósia. E com falta de tempo. A pedir benzedura a uma santa qualquer, não sou esquisita, que tenha um bocadinho livre para rogar por mim pecadora e me ponha estendida ao sol a ouvir a música do meu mar preferido.


Minha filha, eu te abençoo a semana, pelo menos na intenção, que nos tempos que correm, já meus braços mal se erguem para polvilhar por tua douta cabeça os pós da boa ventura.
E sabes como S. António, S.João e S. Pedro são, neste mês, pródigos na arte de bem insinuar cunhas e influências, lá no reino superior.
Oh quão longe ficamos da distribuição das benesses.

Bençãos e bençãos.

Haddock disse...

também perguntamos: "office"??
se ainda estivésseis no allgarve, compreendia-se...
rica descrição, a vossa, lizzie, especialmente a do embaraçante trambolhão. parece que, tirando os trolhas que caiem de placas, as mulheres são mais desequilibradas e nas mais singelas tarefas domésticas, como limpar o pó ao lustre...
nós queixamo-nos sempre do mesmo para iludir o sistema de manchester.... pomos ar de cadáver e sussurramos as que bem poderiam ser as nossas últimas palavras: "aneurisma da aorta abdominal"...
é um vê se te avias de cuidados!!
o único senão é termos de variar sempre de unidade hospitalar. é que o nosso aneurisma começa a ser conhecido...


vénia...

Alien8 disse...

Lizzie,

Vim aqui ter seguindo um link do "Around These Words", como poderia ter vindo através de vários links do agora chamado "Cal Submersa".

Antes de mais, parabéns pela co-autoria do livro que, como escrevi alhures, não deixarei de ler por nada deste mundo.

Depois, este post, magnífico de ironia, tremendamente vivo e muito bem ilustrado. Parece que estive lá a ver tudo...

À cautela, memorizei a frase-abracadabra, não vá um dia precisar dela... A da hipotenusa também é uma boa ... hmm... hipótese, mas essa deu mesmo resultado.

Boa semana!

Lizzie disse...

Capitão:
experimentai uma trombo embolia da artéria pulmonar, uma ruptura do mediastino, uma hemoptise, uma braquicárdia mas certificai-vos que não tendes escrito na pulseira "de cujos" se não ainda tendes que pagar a taxa moderadora da morgue mais os custos fiscais da ressuscitação para além do seguro da viagem de ida e volta para o além.

E tendes razão, as mulheres não aprendem a utilizar escadotes seguros nem a pôr disciplina no braço dos aspiradores. Não é raro levarem com o insurrecto na cabeça, para não falar nos cigarros que distraídamente caem para o corpo. E fico-me por aqui.

Continência

Lizzie disse...

Alien8:
muito obrigada pelas suas visita e gentileza.

A ironia é quase sempre, como o riso, uma defesa. Tudo aquilo é triste. Importam-se não só palavras como conceitos desajustados. Fica-se à espera da pulseira mas sem que lá esteja o grupo sanguineo e alergias, doentes psiquiátricos e presos algemados expostos nas salas comuns de espera. É feira das misérias humanas.

E espero que não precise de decorar muitas frases, mas lá que dão jeito...

uns bons dias também para si!

Lola disse...

Lizzie,

Sorrio ao ler esta fabulosa descrição das urgências de um qualquer hospital mais pequeno.

Já devo ter estado em todas elas porque me parece igual o medo que o doente e os acompanhantes sentem ao enfrentar o espaço de confusão e caos que os recebe.

O protocolo de Manchester é uma boa ferramenta, que permite que os tromboembolismos pulmonares, os aneurismas dissecantes da aorta, os enfartes e todas as situações que podem pôr em risco a vida, de forma mais ou menos imediata,"passem à frente" dos outros.

Mas os que estão do outro lado, são sempre poucos, trabalham frequentemente por períodos demasiado longos e as olheiras são inevitáveis:)))

Beijos

Lizzie disse...

Lola:
obrigada pela visita e comentário.
É realmente um caos semi ordenado.
São realmente muitas as olheiras sem descanso.
São realmente muito poucos para alguns, parece-me, a sofrer de psicosomática carência, um mal da alma tão aflito.
Só me pareceu que a mestre de cerimónias devia ser mais encartada em assuntos médicos. Era tão grande a sua desorientação, tão proporcional ao desempenho convicto do seu papel. De vez enquando lá vinha uma enfermeira ou pessoal médico dizer-lhe ao ouvido, percebia-se, um qualquer ajuste. Afinal este tem que entrar já e aquele não.
E a burocracia com modelos administrativos experimentais...foi o que me pareceu.
Salve-se, de facto, a disponibilidade, aquela que resiste quase sempre ao cansaço.

Beijinho