quinta-feira, 3 de maio de 2012

Bernardo Sassetti
1970-2012



...dizia-te eu não há muito tempo, há tão pouco tempo, pouquíssimo na escala da tua imensa curta vida, que aquela tua peça em que o piano te obedecia como se fosse a tradução da tua alma, me fazia lembrar gotas de chuva a cairem das nuvens para o mar sem passarem pelo chão bruto da terra.
E mostrei-te, como apanharia essas gotas com o movimento dos meus dedos, com a dança das minhas mãos, num corpo concentrado e estático. Depois lento, numa valsa adormecida, a acordar para um olhar perdido ou de quem procura. 
O clarinete ficaria para ela, corpo mais suave e cómodo como o de uma mãe, uma espécie de sustentação, de amparo. O contrabaixo...teria que lhe arranjar um corpo sólido, de traços sensatos como um juíz dos sons.

Hoje apetece-me deixar as gotas de chuva tocar o mar. Fundirem-se nele como um destino sem regresso.

Hoje, vou tocar com os dedos nos silêncios. Nas gotas de ar que ficam suspensas e invisíveis. 
Assim.




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Prosa acerca de um cubo vagamente moralista com tendência estética para a sociologia filosófica, ou de como duas pessoas não vêem nunca a mesma coisa da mesma maneira, credo… que raio de título este que nunca mais acaba…





Dizia eu, lá para baixo, em resposta a simpático comentário, que um dia me tinha sido apresentada uma figura geométrica que não sei a que ramo do saber, se geometria, matemática, neurologia, ou a nenhuma, pertence.

Sabe-se apenas que a sua biografia extravasou, com certeza, qualquer progenitura original, ou seja, um senhor chamado Necker que, francamente, nunca me dei ao trabalho de saber quem foi nem o que fazia para ter tal alembradura.

Foi assim que quando me apresentaram as linhas eu disse que era apenas um cubo e depois me disseram que não e eu que olhasse uns segundos para ele e só para ele a ver o que acontecia e foi o que fiz e peço, a quem não o conheça, que faça agora...

A perspectiva muda e entra-se no maior comprimido contra a Realidade que se chama Ilusão,


 coisa que a humanidade sempre perseguiu contra os males do mundo, contra a evidencia da queda de qualquer crença, para além de forçar o que não existe no espaço ou mostrar ao mesmo tempo as várias faces das coisas como se os olhos fossem giratórios em trezentos e sessenta graus, sabendo-se, como se sabe, que é grande a tendência humana para só olhar em frente.

E para o desejo de conquistar, ou sonhar, o francamente impossível.
(No primeiro caso, por exemplo, os renascentistas, a começar por Brunelleschi…, talvez o primeiro dos cenógrafos da ilusão, gastaram o cérebro a fazer contas com linhas para prolongar para fora ou para dentro o que estava, na realidade, muito plano.
Foi ambição que nunca mais passou


 até hoje, do cinema 3d às outras tecnologias viradas mais às emoções fortes que à contemplação.

No segundo, os cubistas tomaram-se de obsessões pelo cubo de Necker e foi o que se viu na representação esquinada das formas.


Na dança existiram algumas tentativas mas, convenhamos, não é muito artístico nem prático partir braços e pernas e ir nessa triste figura, quase invertebrada, para o palco.

Na literatura pois, Gertrude Stein quando escrevia mais com arestas do que com curvas.)


Mas o cubo também se tornou uma entidade moral e filosófica, como sempre tinha sido mesmo antes de ter sido inventado:

é preciso olhar e ver, ou ver e olhar, pensar e perguntar mesmo sem pergunta e resposta imediatas, tudo o que existe tal como se apresenta tal e qual ao primeiro instante.


Ou seja, apoia máximas como nem tudo o que parece é, não julgues os outros sem olhar para ti


e outras que tais, algumas rejeitadas pelo pós modernismo, considerado o coveiro dos valores do bom respeito de cada um para com os demais e dos demais para com cada um.



Mas o cubo anda por todo o lado, até num livro de análise sobre música de um autor soviético que li há pouco e noutro nazi sobre estética, ambos de inícios dos anos 40 e em que se defende, em prosa labiríntica, que o desgraçado do de Necker tira clareza ao único olhar legítimo e patriótico do Povo, puro nas tradições e conceitos:



 a felicidade da visão única sob orientação paternal de quem protege dos maus caminhos.


À tal orientação para a planura, há quem chame propaganda, vírus que, entretanto correu todos os mundos mesmo quando dizem admitir todos os relevos.




A modos que se matem as prostitutas para que os clientes não sejam tentados.

 A modos que se fechem supermercados para que os clientes não caiam na indignidade (acho eu que é uma suprema indignidade para além de outras várias coisas como humilhação) de rastejar frente às promoções.



Calhou, por isso, numa noite chuvosa de Maio e em presença das várias visões das várias faces do cubo das várias pessoas que estavam comigo, pensar que ia escrever um post sobre o dito de Necker.

Felizmente não vi nenhuma forma reduzida a duas dimensões.

Infelizmente, em todas vi a natureza que ainda nenhuma História conseguiu apagar.



E a tristeza que ninguém conseguiu vencer.

Nem com o olhar mais atento e menos iludido.


5 comentários:

bettips disse...

Perfeito... um cubo mágico, o teu! Até me parece mais uma bola de cristal, em que o futuro é a gente promover-se. Dar lucro. Mesmo abaixo do preço que custamos a crescer por dentro. E porque não anunciar "pernas de bailarinas"? e "bocados de película" com cenas quentes (mais que os beijos do Cinema Paraíso) entre altos dignatários dos governos? E porque não despir as árabes, obrigar os indianos a matar as vacas, destruir os santuários das fátimas, pagar para ter crianças ou, até, comprá-las por catálogo? Tudo isto está já em laboração em muitos sítios.
Negros tempos, os da cegueira. Povo que passou fome e julga que "assim" não a passará. Há limites e o gosto pelo dinheiro não os tem. Nem vergonha. E as multidões, como sabemos, são manipuláveis - para o bem e para o mal.
Gostei muito das escolhas!
Bjinhos

bettips disse...

Tenho um livro que comprei há anos "We will eat again", feito por ingleses durante a última guerra: onde ensinam a poupar, a cultivar... é triste pensar que o discernimento não chega, antes das catástrofes, das guerras, das destruições - um ciclo INFERNAL!

Lizzie disse...

Bettips,

talvez o ciclo esteja na natureza humana: galgar até...perder, tendo tudo como ganho. a fatalidade da ilusão.

E talvez por isso, além da explicação/justificação da morte, as religiões todas, mesmo as mais poéticas, tenham mandamentos e infernos. Por alguma razão a paz (ausência de culpa) esteja no céu.

Claro que a culpa vai variando com a evolução.
Mas fica a tal natureza. Não acredito no mito da bondade do povo (seja lá o que seja povo), no mito do bom selvagem.

No sítio da minha morada portuguesa,aqui tão perto de Lisboa mas campo, está exposto o que já não admitimos: crueldade justificada pelo "sempre assim foi".
Maltratam-se animais, mulheres, quem é diferente, como um gay que foi parar ao hospital. A ver se aprendia a ser homem.
Uma pessoa militante de um partido aceso em revoluções,paternalista, trata abaixo de qualquer dignidade uma "criada" ucraniana, arranjada em saldo na imigração.

No séc. XVIII, quando houve a crise dos cereais, os moleiros enriqueceram. Guardavam a pouca farinha para subir o preço,diziam os cronistas que chegava a apodrecer, embora o povo, igual a eles em condição, morresse de fome.

Qualquer poder, qualquer, tenta manipular. Com boa ou má intenção.
Qualquer poder manipula a educação e a cultura. Mete-se até no reino da mais abstracta das artes: a música.

E sem educação para olhar as diversas faces do cubo não há análise, nem pensamento livre para a escolha. Nem respeito por coisa nenhuma.

Quando esta gente que não foi "forçada" a respeitar os pais e os professores entrar no mundo do trabalho, da familía, seja lá qual modelo fôr, vai tratar os outros como, se a natureza agreste não fôr polida?

A natureza vem ao de cimo nas crises, nas promoções dos supermercados, guerra em miniatura, especulação caseira: contaram-me que se alugaram carrinhos por 5 euros,apontaram-se facas.

Se calhar muita gente não foi porque não tinha 100 euros para investir.Se calhar para esses não há promoções nem a curto nem a médio, nem a longo prazo.

O cubo continua a ter uma face, continua a ser um quadrado a duas dimensões.

E Portugal continua a ter uma vida emprestada num rebuliço de sonhos sem norte.

Lizzie disse...

e, já agora, conheço uma pessoa que colecciona livros de cozinha de todo o mundo. A cozinha é o seu mundo, embora tenha outra profissão.

Também existem muitos livros portugueses desse género, simples e não desperdiçado nem desprezado.
Raridades não reeditadas.

Segundo me disse os campeões, sempre e ainda hoje, são os ingleses e os judeus.

Pela minha experiência,é curioso que, por tradição, ingleses, judeus (Israel incluído)e americanos dão as boas vindas oferecendo pratos de confecção caseira.

Ainda se mantém a troca de alimentos mesmo em cidades: toma lá estas maças do meu jardim que me sobraram, dá cá limões que tenho falta.

Ainda no outro dia comi, claro que não foi cá a desastrada que cozinhou, um prato feito com os talos de couve. Receita da 2ª Guerra. Claro.

Beijinhos

augusto, um entre mil disse...

uma vez fui ouvi-lo à sociedade de geografia, ali nas portas de sto. antão. e, naquele salão mais intimista que um teatro, as lágrimas chegaram.



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(o meu filho chegou a tocar com ele algumas vezes. no s. luís e em outros locais).





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por vezes passo por cá sem "falar".




mas os meus respeitos são sempre pensados.



agora, Senhora, aqui os reitero.