terça-feira, 21 de setembro de 2010

Este não vai por encomenda, não senhores, vai para quem se lembrou que hoje é dia 21 de Setembro

De quando a alma faz profunda e comovida vénia


Que não é caso para menos quando aqui se chega, se abre uma porta e se leva uma baforada fresca de surpresa com uma brisa feita de parabéns com alembraduras de 21 de Setembro.

Cá para mim, são palavras sorridentes que me entram pelo quarto intimo que fica ao fundo do corredor que começa nos olhos e acaba num jardim silvestre que é a memória.

Por isso, manda o remoinho de revolto agoiro que tenho na nuca e que a passagem dos muitos 21 de Setembro não conseguiu disciplinar, que deixe para depois o que tenho que fazer agora e vos responda e agradeça aqui. Neste fim de tarde.

Embora hoje tenha acordado mais velha do que nasci ( sejamos realistas), espero ir nascendo todos os dias para aquilo que ainda não tive tempo de saber nem intuir nem adivinhar.

Espero que, convosco mais os outros meus que me são antigos, sentados nos meus aposentos e eu sentada nos vossos, as células da curiosidade se continuem a reproduzir mesmo quando repetirem mil vezes o que já aprenderam.

Alguma, pelo menos, terá em nós, a aparência de nova.

Espero continuar a encostar o ouvido às coisas para lhes ouvir as confidências.



A decifrar olhares, gestos, sílabas descaradas ou arrependidas de terem solto a primeira letra.

Talvez um dia, espero, os atacadores das botas se venham enredar nos meus dedos, me puxem para elas e me contem dos pormenores daquilo para que nunca olhei, numa perspectiva que nunca tive.


Também espero continuar a ouvir música, palavras, com todo o corpo e não só com uma parcela racional e mecãnica dele.

Espero continuar inteira na entrega aos sons.

Mesmo já sem sentir a agudeza calada do medo assustado, aquele que ainda sinto meu mesmo quando habita o corpo dos outros.

E mais a olhar as cores dos outros com o deslumbre de quem nasce sempre pequeno e quer aprender a dificil e perigosa Arte da Incerteza, a mãe de todas as Artes e Pensamentos.



Em suma e não é nada pouco, espero nunca sentir amargura asmática quando limpar o pó do que vivi e do que me falta viver.


Espero meter as mãos nos bolsos e voltar a pensar que a sombra define a luz e a luz desenha a sombra. E que o cinzento é uma cor mista onde me recolho sem exageros de cegueira.


Mesmo quando sentir nevoeiro nos pensamentos, espero despertar ao som de

era uma vez


érase una vez


once upon a time


nem que a história seja a de


uma miúda que nasceu pela primeira vez, alvoroçada, com vocação para gostar de patos mesmo quando andavam descalços e a nadar sem botas e que sempre teve um quarto escondido onde arrumava sem ordem tudo o que lhe acontecia, só para abrir caixas onde moravam risos de muitas bocas,



lágrimas de muitos olhos


e assins-assins que também têm direito a arrumação, pois claro!

Um dia, fez-se maior de repente e com pressa, com medo que a alma parasse de crescer, assim a exemplo do corpo, sacudiu os receios que tinha de ser atropelada pelas nuvens e apanhou, em Setembro e por acaso num dia 21, um barco com asas que mais lhe pareceu uma nave aquática espacial que a deu à luz pela segunda vez.


A partir daí, aprendeu a dividir os silêncios e os gritos às fatias: umas guardou-as no quarto, que foi muitas vezes mochila, outras mostrou-as a toda a gente


embora guardando........e nunca conseguiu deixar de fumar mesmo quando nos sítios onde estava ninguém conhecia SG Ventil e então mudou para.....o mal foi dizerem-lhe que comendo as cascas das gambas


deixava de libertar histamina e ficar vermelha como elas só que a coçar-se mais que, do muito que viu nunca vislumbrou um camarão, que fosse, com comichão.....mas prometeu asilo à torneira e cumpriu.....não fosse o turista e amante inglês do fado apaixonar-se pelo Canário Tony que Tão Bem Canta....e a Pedra Divorciada contou-lhe....

Seja aqui, em SMS, em telefone, em presença,

Muito obrigada!

8 comentários:

Alien8 disse...

Lizzie,

Apenas um grande sorriso e um grande abraço! Sim, belo post!

arabica disse...

Há, em mim, o rasto de todos os rostos que me iluminaram manhãs, tardes ou noites.
Há rostos em forma de rostos humanos, há rostos que crescem em forma de faróis, há rostos revestidos de palavras, há rostos ondulantes com olhos de semicolcheias, há rostos sem forma, que em cada momento sofrem a metamorfose do papel que vestem.

Há em mim, até agora, a memória dos dias.

Enquanto eu conseguir cruzar -ainda que sem perceber muito bem que mecanismo me leva a levantar da cama improvisada (continuo com a mania que sou nómada, sim) a meio da noite- ambas as memórias, continuarei a vir até aqui, aplaudir-te.

Aplaudir os textos, as fotos, a criatividade, as vénias, as viagens, e... ainda mais importante que isso tudo, o rosto do dia 21 de Setembro.

E abraçar-te, claro.

:))

Lizzie disse...

Alien:

Obrigada, Alien.

Sorrisos e abraços sabem sempre bem, coño.

Melhor que as bolas de Berlim com creme. Já nem sei há quantos anos não comia uma e, a bem dizer, não sei quando me apetecerá outra:))

Que estejamos aqui para o ano. Talvez com um bolo de arroz:))

Bom fim de semana e abraço ao quadrado.

Lizzie disse...

Arábica:

antes que me esqueça, constipei-me e tenho tosse, sim senhora.:)

Estou com uma voz tão funda e cava que até estremeço quando falo. Pareço um bombo desafinado.

Também tenho guardados rostos de muitas faces. Talvez mais do que o depósito do reciocínio pode guardar. De vez enquando vou buscá-los. Intencionalmente ou por acaso.
Por isso, acho-me quase uma sonambula da memória.

Além disso não tenho nada arrumado no tempo. Sou uma desgraça.
Só quanto a espaços, enquadramentos,atmosferas.

Quanto a rostos de 21 de Setembro, pois que um tem atrás um jardim triste e outro, o sonso, um vestido acabadinho de sujar. Contam-me que após cerimónia, lá houve disparate e castigo. Quem diria?:))

Volta sempre. A qualquer hora não marcada.

Obrigada

besos
patos e assim.:)

arabica disse...

Também gosto muito de coisas sem data marcada, Lizzie. Como a tosse. O precipicio aberto na minha garganta. Ainda eu estava semi embriagada de patos e outras aves nos reflexos da água e pimba! chegou aquela tragédia tamanha!!

E como já deves saber, comigo, não é só a tosse a chegar de improviso, a mão, também. Ela vai e transforma-se em asa, ela vem e transforma-se em caneta, ela vai e é ferro de engomar, ela vem e é o que lhe dita o momento...nunca sei que mão tenho, vario entre tantas que é dificil, cada vez mais dificil, disciplinar-me...

Saudades tenho. E digo à mão, escreve. Mas ela irredutível e caprichosa, só faz o que quer.

Não tenho mão na mão.
E ainda bem. :)

Beijos e patos (vou tentar amanhã ter mão nos patos amigos e inseri-los lá).

Bom fim de semana, as tuas melhoras coño!!! e faz favor de não dar bolas de berlim aos patos! :))))

Lizzie disse...

Arábica:

como nestas coisas e também noutras, gosto de repentes não pensados, que é como quem diz de improviso, vou botar prosa sobre a tosse verdadeira e falsa que o teatro da humanidade é sempre consequência de dolorosas ou paliativas causas.

Besos

bettips disse...

LIZZIE
de olhos tão bonitos
e cores tão diferentes.
Tão pouco quero dizer: só que não sabia (nem estava) e que hoje passei na nave por acaso e vi. Tantas vezes, me é comovente a associação que fazes das tuas coisas. E tantas outras me é divertido. E sempre aprendo a espalhar os pensamentos como brasas.
Como o cinzento acima que foi sempre uma preferência minha, salvo que agora é mais um ton sur ton.
Um abraço, que a felicidade te encontre.

Lizzie disse...

Bettips:

às vezes uma forma de indicar o caminho à felicidade é mesmo misturar as memórias.
Pode ser que a felicidade, assim, mostre o que não se tem a capacidade para ver.

Nestas coisas a visão pode ser um sentido apressado, tão cheio de urgências e pressas que nem repara nas subtilezas dos cinzentos.

Quanto a olhos, naquela idade, eram um estigma:)
Ai o que eu passei. E as beliscaduras nas bochechas?

Obrigada e também espero que sejas encontrada, sempre, pela felicidade.

Beijinhos