sexta-feira, 7 de maio de 2010

Por uma questão de justiça, impõe-se que fale da que muito importante foi e se viu remetida, com os seus feitos curiosos que ainda hoje têm rasto, ao esquecimento mediático da História.


Da seda que inventava a luz

Loie Fuller, que nasceu Marie Louise e viveu entre 1862 e 1928, teve vida de que nunca deixou perceber completamente os labirintos. Ainda hoje, biografos, historiadores e pensadores da dança e do espectáculo, andam neles às voltas.
Uns procuram verdades, outros definições. Haja quem com tais coisas muito se entretenha.

Sabe-se que foi filha de uma espécie de saltimbanco, homem que andava com a família às costas, Estados Unidos da América fora, em busca de negócio que lhe rendesse fortuna e assento definitivo. Sem ser trapaceiro, por azar, não conseguiu nem uma coisa nem outra.

No entanto, Loie não escapou de se sentar nos bancos da escola. Já naquela época, o pai ansiava fazê-la instruída e eventualmente doutora na cidade onde as mulheres já tinham cátedra: Boston.

Loie aborrecia-se porque aprendia em cinco minutos o que os outros demoravam dois dias a aprender.
Preferia ir para os palcos, exibir os dotes, naqueles concursos tão americanos para crianças. Aos cinco anos, já recitava de fio a pavio complicadíssimos poemas. E cantava. E dançava. E tocava banjo. E escrevia textos.
E com apenas doze anos, organizou uma série de espectáculos para angariar fundos para subsidiar desempregados vitimas da recente industrialização.


Mais tarde, já em Paris, após a Guerra 14-18, aproveitou a influência que tinha para abrir os cordões à bolsa dos milionários americanos de forma a que o dinheiro voasse em direcção aos europeus mais vitimados pelo conflito.


Aliás, embora pessoalmente pelintra e sem as malas culturais de Isadora Duncan, nunca lhe faltou empreendimento para fundar museus, escolas e outras vias de ensino e divulgação. Empenhou-se em divulgar a cultura americana na Europa, coisa que europeus pensavam, e pensam, ser inexistente ou menor.
E lá arranjou dinheiro para lares de terceira idade, mães solteiras, mulheres maltratadas.

Ainda adolescente, fez parte da Companhia itinerante de Buffalo Bill.


E, subindo árduos e persistentes degraus, chegou a contracenar com grandes figuras miticas, clássicas e sérias da época, como Lillian Russell.



À excepção das danças com os panos, representava maioritariamente papéis de rapazinho.

Abreviando, emperrou no rigor da crítica selecta de Boston e Nova Iorque:
a criatura podia ser boa bailarina se tivesse tido formação, não fosse tão atarracada e redonda.
( na altura era moda nascer-se com rosto ovalado, olhar etéreo, corpo fino, aparência geral esquálida).

Loie Podia ser boa actriz ou cantora de ópera se trabalhasse a linda voz de soprano e dominasse a expressão facial e corporal.

A critica deu-lhe elogio para o vaudeville, burlesco, mas não para o requinte do Boston Theater.
(Comparando seria como botar a grande Ivone Silva no teatro de pesquisa da Cornucópia. Faz de conta.)

Se, se, se…deu-lhe a veneta de ir para a fogosa e vanguardista Paris.

Aí, Sarah Bernhart introduziu-a no meio e foi sucesso imediato: as classes mais cultas tanto frequentavam e valorizavam os grandes teatros clássicos como o Folies Bergères.



Sem os fundamentos filosóficos de Isadora Duncan em relação ao corpo, Loie dançava em aparente improviso, envolta em longos panos de seda. Pauzinhos de bambu prolongavam-lhe os braços, andas davam-lhe uma altura de espectáculo.


A seda pura, criava reflexos de luz como se fosse a própria luz a dançar.
Loie era apenas a agente de uma dança COM EFEITOS VISUAIS E ILUSÓRIOS. O corpo era secundário.

Através de um matemático jogo de espelhos, Loie engendrou maneira de a luz ser enviada e reenviada de um sítio para o outro no palco. No meio de tantas idas e vindas de feixes de cor, a seda criava uma série de efeitos especiais que levavam à completa irrealidade. Também desenvolveu luzes fabricadas por produtos químicos.
E valorizou a sombra como elemento dramático no palco,

coisa que viria a influenciar o cinema, sobretudo o expressionista.


Pode dizer-se que foi pioneira na extraordinária arte que é o desenho de luz.


Desenhou figurinos que aos seus propósitos de irrealidade se ajustassem.
Os figurinos eram os sublinhados dos movimentos. Quase deles protagonistas.

Martha Graham, bem falou da importância histórica de Loie na questão, mas poucos a ouviram.



Loie, criou aquela falácia que ainda hoje se usa abertamente em televisão e, enfim…às vezes em teatros, seja qual for a arte:

contratam-se uns conhecidos a jeito ou mercenários para que, no meio ou no fim, batam palmas desenfreadas, gritem em êxtase Bravo, aplaudam de pé e etc, espalhados e na primeira fila. Tem o efeito de onda e quem não percebeu a récita, acha-se estúpido por não ter gostado. Às vezes…não sei se já repararam, quanto pior é o espectáculo mais estardalhaço eles fazem.

Tornou-se a Musa Inspiradora do Simbolismo e da Art Nouveau, cujo símbolo máximo, a libelinha de Lalique, é o seu retrato.


Era divina para Toulouse-Lautrec,

Yeats venerava-a, Rodin tentava capta-la. Está na arte de todos eles. Nem escapou aos irmãos Lumière, com direito, hoje, a uns segundos no youtube.

O casal Curie, de quem era amiga próxima, pasmava-se com a sua inteligência e conhecimentos científicos. Fico-me por aqui nos exemplos.

Mas Loie não era, no todo, feliz.



Apesar de ser empresária e agente, como o foi de artistas japoneses na Europa, lidar com enormes fundos, por um conjunto de circunstâncias, tinha os bolsos rotos.

E uma dessas circunstâncias foi o apoio na longa doença da mãe. Foi à completa falência para lhe proporcionar bem-estar.

Mas, como qualquer digna snob, no sentido inglês da palavra, ostentava um tipo de vida luxuoso carimbado em cadastro de dívidas.
Afectada, altiva e ofendida, era expulsa dos hotéis por falta de pagamento.

Preferia morrer a deixar de beber champanhe, nas mais luxuosas suites, na companhia da sua dúzia de raparigas bailarinas discípulas e membros da sua companhia. Isadora lançou,voraz de protagonismo exclusivo, competitiva e cínica, o veneno da maledicência.


Foi vítima de várias traições.
Descobriu que algumas das suas dedicadas bailarinas a utilizavam como trampolim para voos, casamentos e sucessos na alta sociedade como, ao fim de três anos de casamento, soube ser a terceira esposa em simultâneo com outras duas mulheres, do único marido e homem com quem teve intimidades.

Teve relação tempestuosa com Isadora Duncan, que aliás lançou na Europa, até esta ter fugido em paixão súbita com a sua mais talentosa bailarina principal. Cancelados os espectáculos em Berlim, teve que pagar uma fortuna de indeminizações.

Mais calmo, cooperante e longo foi, em muitos aspectos, culturais e filantrópicos áquem e além mar, o amor recíproco com a Rainha Marie da Roménia, neta da Rainha Vitória de Inglaterra.

Como era discreta quanto à sua vida pessoal, pouco se sabe da mulher subterrânea mas estrutural , Gabrielle, com quem viveu longos anos até ao fim dos seus dias.

Loie afastou-se dos palcos a tempo de o público se lembrar dela sem ser figura obesa e quase cega, por via das experiências com a luz, além de as dores na coluna e a bronquite crónica, de que sempre sofreu, já não permitirem o disfarce em que era mestre quando dançava.

Além disto, como se sabe, o público tem tendência a só amar uma estrela de cada vez e Loie foi substituída nos encantos por Josephine Baker.



E, em termos de História, Isadora voltou a vencer.

Neste momento, no cemitério Père-Lachaise, as suas cinzas têm como vizinhas as de Maria Callas e as de Oscar Wilde.
Como sempre se declarou cem por cento americana, existe uma contenda acerca do poiso eterno. Paris ou Boston ou Chicago?

Parece-me que se é fácil imaginá-la a entreter os anjos no palco luminoso do céu, é mais difícil ouvir a sua voz de soprano a segredar o sossego ou a viagem.

Talvez lhe seja indiferente desde que... façam o favor de não a esquecer sem, pelo menos, lhe explicarem porquê.


5 comentários:

Alien8 disse...

Lizzie,

Maravilhoso texto (e respectivas...:) sobre uma artista que desconhecia totalmente. Um vago nome, e era tudo. Afinal, foi inovadora em vários aspectos e (necessariamente) importante. Terá sido talvez infeliz... Não é fácil aguentar a deslealdade, a traição, a falta de reconhecimento...

Agora jamais a esquecerei. Obrigado!
Um abraço.

Lizzie disse...

Alien:

vá-se lá saber qual o critério da História para tanto lembrar uns e esquecer outros.

Quanto à Loie, não te espantes, mas há pessoas ligadas à dança, e demais artes performativas, para quem é só um nome. Vago.Uns panos que se agitaram algures no tempo.

Por acaso, foi só a mãe, conjuntamente com Isadora Duncan, daquela vasta filha que é a escola americana de dança. E, por maioria de razão, avó do muito que se tem feito em vários continentes, africano incluído.

Por estas e por outras, e porque acho que a sombra, às vezes, é uma espécie de eco da luz,tenho vindo a coleccionar esquecidos: pintores, escritores,músicos, estilistas... and so on.

Falando de mulheres, li contemporãneas da Virginia Woof, por ex., que me encantam muito mais que a propriamente dita. De várias nacionalidades.
Tesouros guardados no mais recôndito canto das livrarias.
(acabei de ler um livro de uma professora do séc. XIX em que, imagina,a visão da Joana, a Louca, já não é a de doidinha que anda às voltas do caixão do defunto marido. Na, na.)

Mas enfim, parece que a qualidade e o encanto também cabem no reduto afunilado dos numerus clausus. Como se houvesse uma quota fixa para os valores,para os talentos.

Obrigada eu, ora essa, coño:))

Abraço

arabica disse...

Ai Lizzie que não me restam dúvidas: seguiram mesmo o conselho e andam, ai andam andam!!!! a ler este blog! De outra forma como compreender aquele discurso? :))))

Nos suburbios consta-se até que alguém vai acabar a dançar flamenco solo, solito. :))
Ou a lavar a louça! :))

Um abraço.

:)))

Lizzie disse...

Arábica:

qual discurso teve a ousadia de se inspirar neste blogue tão pouco, em intenção, institucional?

Dançar flamenco, a sós, enquanto se lava a loiça, ai isso só se fôr por amuo ou birra.:)))

Abraço

Frinhani Füller disse...

Lizzi,
Me chamo Ana Carolina, sou bailarina e faço pesquisas sobre a serpentine dance criada por Füller.
Percebo que ela passa despercebida nas áreas em que mais deveria ser notada (nas artes). Gostaria de manter contato contigo, visto que são poucas as pessoas realmente interessadas em saber mais sobre essa artista de vanguarda e tão versátil que foi Füller.