quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009




As pessoas que não gostam de ser interrogadas sobre as suas alembraduras privadas que vão desaguar em espectáculo público e ao sabor da eventual devassa de toda a gente, e que também não têm paciência para interpretações rebuscadas que vão do estruturalismo de Saussure às teorias orgânico-sociológicas- da hermenêutica-do-corpo-na-sua transcendência-formal, têm um faro especial para gerar empatias e juntar-se a um canto, degustando, por exemplo, queijo da ilha de S. Jorge em finas fatias de broa da Serra da Estrela enquanto bebericam vinho do Alentejo, produtos com ar de mendicantes de atenção, apesar da excelência, em terras castelhanas.

Como nós, os dos cantos, somos mais artífices do sentir do que do teorizar labirintico, aqui segue prosa a propósito

do discreto homem da roupa invertebrada


que está agora menos alto, já com curvatura idosa de condor mas mantém os pequenos e vivazes olhos lá atrás das lentes telescópicas, mãos e pés de quem nasceu para viver assente na terra, tendo, no entanto nascido na orla marítima da Catalunha.

Ali, como montras animadas, vestimos roupas desenhadas por ele, adequadas ao nosso formato, ao jeito da gente comum que somos: ninguém tem medidas ilusórias, nem silicone a desenhar obrigatórias e contemporâneas perfeições. Lá foi ele repetindo durante toda a vida, que os seus modelos preferidos estão na faixa etária dos 18 aos 75 anos e as passerelles mediáticas podem ser em qualquer sítio, até numa fábrica textil, para que os espectadores vejam o chão terreno onde se tecem os fios.



Já conheço o homem há muitos anos. Não seremos propriamente íntimos de corte diária, mas acabamos, sempre que nos encontramos, a salientar a nossa paixão comum pela riqueza da arte Medieval, pelo expressionismo abstracto, pelos desgrenhados romantismos inglês e alemão,


pelas músicas antiga e barroca com as suas derivações contemporâneas, pela embirração pelo enjoativo e pseudo melancólico imaginário da Camp Art ( o tal kitsch "fino")com as suas musas floridas ou esvoaçantes ou eternamente nuas, pálidas e moribundas.



Também convergimos na indiferença pelo “bonitinho” e “jeitosinho”em favor do expressivo, que não é necessáriamente adversário do harmónico. Tudo isto no meio de muitas outras coisas.

A ele até posso dizer que uma parte do que viu, foi inspirada na expressão e traços Hans Memlingianos, de uma rapariga que trabalha num supermercado, em Portugal, de quem ignoro até o nome. Às vezes quer o destino que se encontre sem a ansiedade aflita de procurar.



Falamos de toucados, gestos e movimentos como prolongamentos de danças e personagens e ele, que sempre descobriu alguns dos seus modelos nos sítios mais inesperados, pede que lhe sirva de cicerone -quando ele voltar a Lisboa - a uma provável nova fonte de traços. Quem sabe se ela não gostaria…tem a figura ideal para…depois vês... digo eu...como aquela rapariga, meia aciganada que descobriste no restaurante em Madrid



que a tua imaginação é um fluido invertebrado que se estende e molda ao que vai surgindo sem carne nem ossos que a negue.

E o homem tira do bolso do casaco um moleskine com capa enrugada pelo uso frequente. Juntando-lhe o aspecto folheado às enormes mãos que o manuseiam, percebe-se que ali não há preguiça de carácter nem de um nem de outro.

Escreve em catalão, murmurando com voz obviamente destinada a si: Fevereiro ver rapariga super Lisboa sarja sobrancelhas toucado…

Conta como, sentado numa pequena esplanada de uma terra à beira do Mediterrâneo, e olhando as roupagens flexíveis e simples dos naturais, desenhou a sua colecção preferida, que vai vendo, ainda hoje, vestida, e sem a vénia da assinatura, em todas as ruas quando não aos molhos nas bancas de ciganos.



Ele próprio se comprou uma peça a si, dada a palavra da cigana que não tinha ali nenhuma vigarice: podia levar à vontade que era de marca, de um grande estilista. E o perfume do mesmo, fosse comprá-lo à banca da irmã. Haveria lá mulher que lhe resistisse a ele, tão elegante, com tal combinação de produtos. E olhe que alfaiate é espanhol. Não me diga que nunca ouviu falar dele...

Despede-se, não sem antes perguntar se aqueles “trapinhos” são confortáveis. A roupa é como os sapatos: só ao fim de algumas horas é que fala verdade sobre o conforto. São sim. E para quê abafos de pelagem animal, se aquele abafo se sente na pele como uma confidência de nuvem.



E sorri com dentes tabágicos: quanto mais se venderem, nestes tempos, menos pessoas vão para o desemprego.

Atravessa a sala quase incógnito e sai para a casa simples e isolada onde cria envolto em sossego. Onde se sente privado no meio do que sempre realmente foi.





E eu escrevo nos neurónios com tinta da cor da sorte:



Homem olhos barco cenário casa camisa pés Bach-Coltrane Giotto vento mar pés fuga silencio rapaz pernas sentado fundo sala rapariga Fnac Chiado saia joelho luz pastel crua pastel Tom Waits azul Rothko silencio cântico amor rei Salomão



10 comentários:

Teresa Durães disse...

E nas feiras, enquanto a música berra e se assam frangos, bifanas e vende-se torresmos, é ouvir as ciganas a apelar à clientela ciente de todas as patranhas ditas. Mas no fim carregarão sempre, com sorrisos nos lábios, o saco atafulhado de tralha comprada

Alien8 disse...

Lizzie,

Homem olhos barco cenário casa camisa pés Bach-Coltrane Giotto vento mar pés fuga silencio rapaz pernas sentado fundo sala rapariga Fnac Chiado saia joelho luz pastel crua pastel Tom Waits azul Rothko silencio cântico amor rei Salomão

- Um dia hei-de ouvir-te dizer isto em catalão, enquanto trincamos um pedaço de estruturalismo de Saussure, bem regado por uma hermenêutica-a-copo!

Contar-me-ias mais acerca deste estilista realmente com estilo, ao contrário de outros que eu cá sei.

Depois talvez pudéssemos comprar umas peças confortáveis: afinal, quem compra a sua criação, nela confia, e há que seguir o conselho!

Um abraço para ti, estilista das histórias (e) das mais interessantes personagens de que tenho ouvido falar ultimamente :)

Lizzie disse...

Teresa:

O mais engraçado é que nem tudo o que se vende nas feiras são falsificações. Às vezes são produtos autênticos com defeito que,teóricamente, deveriam ir para o lixo.
Nos EUA existem grandes armazéns só para esse efeito.
De qualquer forma, claro que a maior parte, embora copie o design, não copia os tecidos nem os selos. Basta olhar para se ver a diferença.
Como diria este e outro estilista, não são os ciganos que lhes tiram o negócio: quando a febre da sacalhada chega às feiras já os que têm os autênticos compraram a nova colecção, ou seja, os clientes dos ciganos vestem-se com atraso:)
Como diz este, é uma forma de gerar emprego e obrigar os estilistas a trabalhar.

Mal sabia a cigana a quem estava a vender os produtos:))

Lizzie disse...

Alien:
o que eu gosto mesmo é do funcionalismo cinético com manteiga regado com fenomenalismo pressurizado mas sem espuma. Como sobremesa não há nada como um neo-barroco com um neo-positivismo como base gelada.
Quando como tal coisa, até falo galego e açoreano, quanto mais catalão. É canja retro futurista para mim.

Claro que em tal repasto, será um prazer ouvir o estilista contar as suas histórias e projectos como qualquer "alfaiate" que gosta de se chamar artífice e não Deus do Supremo Gosto e Criação.

Aliás, empreguei a palavra "sorte" no texto porque acho que junto dele é muito fácil aprender muita coisa sem dar por isso. É um ansião que olha para o futuro e para a terra que pisa.
Fez passagens em sítios e com pessoas que foram autênticas bofetadas nos egos sociais autistas.
Como falo de aspectos pessoais, que não vêm nas revistas, não lhe botei o nome. Com pena. Como não devo contar a história trágica do modelo masculino (não profissional, foi ajudante de pedreiro) que está numa das imagens.

Obrigada e um abraço para os dois, que sinto a falta da "patatita dulce", por supuesto, coño.

Arabica disse...

Lizzie,


uma das poucas coisas que lamento em relação ao passado, foi o passar de moda, o sair de uso, desses vestidos lindos e complicados, dessa outra era.

E dos toucados.

Sempre me senti fascinada pelo sussurrar do cetim das saias sobre saias, aquelas cinturas, os ombros, os cabelos apanhados...

Sorte a dos que nas feiras encontram peças únicas com defeitos quase invisiveis! :)

Sorte a tua que tanta inspiração bebes nos sitios mais incomuns :)

Um chá e um rosto, por favor, com sobrancelhas a luz pastel :)


E um beijo.

Haddock disse...

...

queijo da ilha em finas fatias de broa da serra da estrela enquanto se beberica vinho alentejano??

ora, ora, lizzie...tomamos isso como um improvisado entretém em convívio de sala de cozinha enquanto alguém prepara languidamente o par ideal para um vinho que não lembre a adega cooperativa de borba!!

nós, os acantonados, também temos o direito de ser parvos!!

...


isto foi só por desconhecermos as teorias orgânico-sociológicas da hermenêutica do corpo na sua transcendência formal...



vénia!!

Lizzie disse...

Arábica regressada:

adoro história da moda. É uma forma excelente, quanto a mim de se ver a evolução e os valores das sociedades. Então quando acompanhada pela história da etiqueta...a complicação que era dançar uma valsa:))

Quanto a cinturas finas, muito se desmaiava romanticamente por causa de tal fineza. Lá vai espartilho sem poder respirar fundo. E havia as espias dos artelhos:) se uma dama fosse grossa de perna e tornozelo, haveria por ali mistura de sangue plebeu, bastardia. Se fosse demasiada fina, também, quiçá, ali houvesse sangue tingido de preto.

Já vesti uma coisa farta em frou-frou e é engraçado durante um tempinho, depois...apetece vestir calças:)e dar pulos.
Mas sob o ponto de vista da forma, adoro.
E o formato dos ombros, "cabide em gíria de moda", em homens e mulheres é absolutamente essencial para o "assentar" do fato.

As sobrancelhas e o queixo da rapariga do supermercado, juntando-lhe a maneira de andar e de botar produtos nas prateleiras, contaram-me uma história. Só isso. Há muita gente a contar histórias por aí.

Besos

Lizzie disse...

Capitão:
há muito que não vos estávamos em vossa barbuda presença. Sentai-vos, na sala ou na cozinha, que muito folgamos. É impressão nossa ou vislumbramos pequenos e ainda esparsos filamentos brancos em vossa barba?

Sabei que ficámos estúpidas além de parvas quando deparámos com tal ementa em foyer pós espectáculo tão imensamente estruturalista, diria mesmo wagneriano imbuído duma feminilidade abrangente.

E logo em Madrid, imaginai. Felizmente a vinhaça era do Redondo e Reguengos. Não foi servido Real Lavrador que tanto nos arde no estomago.
Ficai também a saber que não constavam infelizes trajados de Galo de Barcelos a servir.

E do canto se fez cozinha. Muito temi pela falta de avental: somos desastradas e uma nódoa no fatinho não sendo ele nosso...mas desta vez não babámos tanto mais que não havia caldo verde nem sopa de grão com espinafres. Falhas imperdoáveis, haveis de convir em tal publicitária ceia.

Continência

Angelus// The Phantom Of The Opera disse...

ola Lizzie, ca estou eu de novo a dar uma vista de olhos pela blogosfera. tenho andado aizente devido ao trabalho do ultimo semestre, este foi arduo porem as recompensas foram boas. agora ca estou eu, no inicio de um novo semestre e mais folgado, para visitar os blogs do custume....

dark kisses

Arabica disse...

Lizzie,


eu sei (através de filmes e livros) dos suplicios das cinturas de vespa...o que nos leva de novo para aquele tema "do que a mulher sofreu em nome da beleza e da imagem ao longo dos séculos"...

Mas que cada vestido era em si mesmo, uma obra de arte, era!!

Seria sem dúvida como tu dizes, umas horas de frou-frou e viessem elas, as calças, em boa hora, de regresso a mim também :))


Deixas-me a pensar com essa história do tornozelo, pois olhando para os meus, ou serei aristocrata anónima ou de consanguinidade de acordo com os desejos de outras coordenadas, existentes em mim :)


Só agora respondi ao teu comentário de ontem e ao roubo descaradissimo dos patos do entardecer celestial :)

Passas por lá? :)