quarta-feira, 9 de abril de 2008

As escadas



Manda a curiosidade, mais que o ofício em si, que pegando numa qualquer coisa, se queira saber mais sobre ela.
E eu gosto de escadas. Tão ricas para lá da natural função, que se tornaram símbolos variados para quase todas as culturas que não se fiquem pelo redutor chão da terra. É preciso arranjar instrumento para chegar mais perto do céu e dar uma vista de olhos aos deuses, como faziam os egípcios.

Nenhum índio do Novo México parte para uma serenata ou baile sem ir ao terraço sentir-lhes o bafo. Todas as casas têm uma para estabelecer a ligação entre o térreo e o alto .




E lembro-me do sonho de Jacob em que a escada, apoiada na terra, fugia céu fora, com anjos a subir e a descer. E parece que foi nela que ouviu a voz de Deus.



E que a parte cimeira dela lembra que para se chegar a um ideal é preciso subir muito e com custo. A duras penas. Nesta vida nada se tem de graça, moral que escorrega em certos casos, mais os tantos que suados, chegam ao último degrau e, um qualquer Deus desajeitado, cego ou mal disposto, empurra quem transpirou na direcção da queda.







E com ou sem simbologias adquiridas no pensamento consciente, as escadas são mote de arte variada tempo fora.

Com a, geralmente, dramática presença em filmes:




Na moda, tendo presente a história e a figura da Cinderela, (para as más e afoitas é normalmente escolhido outro tipo de cenário)




Como ilustrações de desejos de fuga ou impossibilidades:








passando pela caricatura:






Até à ponte entre a música e a dança, já que algumas das escalas das suites para violoncelo de Bach são parentes na estrutura das escadas (na língua espanhola quase sinónimas), de que o primeiro andamento da 1ª é exemplo flagrante, sendo que neste caso se dançou toda a 3ª, igualmente escalada.





















(não boto "tubagem" porque não sei e porque é assaz difícil a uma pessoa teclar e mexer-se ao mesmo tempo, como compreenderão.)


Por falar em dança, o desejo de elevação e altitude (mais a leveza e graça), levaram à invenção de um apetrecho que, diferente na forma, se assemelha em conteúdo: as pontas.







E é de mau agoiro sonhar-se que se descem escadas: foi assim que desceram Jesus da cruz e era assim que se tiravam, ao longo da história, os enforcados.






A propósito de sonhos, para Freud, que pelos vistos não era poliglota, as escadas eram simbolos sexuais. Em alemão a linguagem aplicada para a prática é subir.

Cair delas também não tem, nem significa, nada de bom. Há zonas de Espanha em que, além de levar o caído ao hospital, se tem a certeza de haver funeral no próximo ano. Às vezes, têm razão, demora umas horas ou nem isso.

E passar por baixo delas, morada do oculto e diabólico, dizem que é má sorte certa além de que não se deve entrar em território da santíssima trindade, quando uma escada encostada à parede forma com ela um triângulo, símbolo da referida.
Nem passar nada por entre os degraus que sete anos de azares seguidos, sem intervalos de sorte, são obra. Na Escócia, proíbem-se as grávidas de tal acto, para evitar que a criança já nasça com a sina de toda a desgraça.





Vou tentar não me esquecer de contar o número de degraus para o sótão da minha residência: se for par, é bem provável que venha um tornado e me leve a cabeça para um qualquer reino onde a luz se chame escuridão. Se for ímpar, quem sabe se não terei horizonte cimeiro e beba directamente das nuvens.






8 comentários:

MGB disse...

É ímpar, com toda a certeza. Mas nem precisas fazer tal verificação, pois que já nasceste com o horizonte cimeiro por cima dos cílios. Como bebes directamente das nuvens, quem te lê fica, também, mais perto delas.

Beijinho, Lizzie.

Emma Larbos disse...

Eu fico-me com esta última. Tão branquinha como o primeiro dia de umas longas férias. E o algodão doce do horizonte dá aquela sensação de se ser lagarta da maçã, que mora no jantar - ou janta as paredes da casa, conforme a perspectiva. E o vestidinho branco e os pés descalços também me agradam muito. Têm aquela frescura perfeita dos anúncios de perfumes que passam nas vésperas do dia da Mãe.
Gosto de desafiar os deuses, por isso passo sempre que posso debaixo de uma escada. Já andar a contorcer-me por entre os degraus, isso não, deixo para quem gosta de se sentar dentro das fruteiras.

Haddock disse...

o inevitável e ultra maniqueísta simbolismo ascencional
(se bem que não percebamos o preconceito em relação ao descencional...). a insistência mítica e religiosa no alto e que se propaga a tudo...
fala-se de elevador ou de ascensor, mas ele transporta-nos com a mesma eficácia para baixo e geralmente para mais perto dos outros;
as criancinhas têm medo de caves, mas fascínio por sótãos...
etc. etc...

não que tenhamos nada contra escadas, bem pelo contrário. até adorávamos descê-las polo corrimão...

vénia...

Lizzie disse...

Oh Cici, e não é que me esqueci mesmo de contar...
então anda lá "mais eu" beber da frescura das nuvens que já não temos idade para nos darem reguadas por causa da distracção, coisa que em mim, pelo menos verbalmente, era comum: esta miúda está sempre na lua. Vê lá tu tão longe.
Com este sol bem que hoje me podia deitar numa cama de rede a olhar para o sonho dos anjos. Era só fechar os olhos.

Beijinhos

Lizzie disse...

Emma:
toda esta brancura foi dança irónica da Cinderela, vê lá tu o que os cenógrafos e os desenhadores de luz são capazes de fazer com projecções ao alto. Mais tarde a ideia foi mesmo utilizada para publicidade já não me lembro se a perfume se a recorrência feminina.
Tanto gosto de desafiar a divindade que tenho lá na morada um escadote antigo e triangular cheio de livros pesadões de artes que sempre foram elas um bocadinho afoitas em desafios, quando não no conteúdo, pelo menos na forma.Agora ando apaixonada pelas cores e pelas faces do Petrus Christus.
E passar por entre os degraus é esforço, comparado com a fruteira, de brincar.

Lizzie disse...

Capitão:
pois que não sabemos a origem da aspiração à altitude mas talvez seja porque o alto é inacessível e no baixo se enterra o que morre. Aliás, na simbologia da escada, os degraus que descem abaixo do nível do solo são caminhos para o inferno.

Todavia, porém, contudo, na parte norte das Américas, todas as casas tipo vivenda têm imensas caves, utilizadas para trabalho, divertimento ou parque infantil.
Ficou-nos na memória uma lindíssima, dos pertences de uma senhora, que era biblioteca e pequeno estúdio de dança.Tinha o dom de ser o seu reino já que nem marido nem filhos lá punham os pés. Na minha opinião ali se costuraram obras que levaram muitas pessoas a ascender, ou vasculhar, o que nunca tinham reparado como por exemplo, põr em movimento a extraórdinária musicalidade das poesias e prosas medievais.

Continência

VdeB disse...

Lembrei-me da história do João Pé de Feijão que a minha bisavó me contava, se bem me lembro, depois de ter caído num ardil e por um acaso, o João subiu até ao céu por um tronco de feijão tendo surripiado a um gigante a galinha dos ovos de ouro com que acabou por salvar a sua mãe doente. Mas agora fiquei cheio de vontade de ir rever esta história. É sempre lá em cima que estão as coisas boas, o céu da terra e os vinhos das garrafeiras.

Lizzie disse...

vdeb:
e se bem me lembro é dos irmãos Grimm, com uma fada que parece narradora e uma harpa que tirada da sua casa grita, e a fome que se acaba na casa do João...
não foi a bisavó que me contou mas foi a avó que me ofereceu o livro, comprado na feira dos ditos quando ainda era na Av da Liberdade, acima e abaixo.
Do que me lembro bem é da magia das ilustrações, aquelas onde, fazendo-nos pequeninos e de rápidos traços,nos permitem a entrada nelas sem burocracias ou passaportes.
Vou procurar o livro que agora também me apeteceu revê-lo e fazer de conta que não cresci.
Uma forma de encontrar "o céu da terra".